09 outubro 2014

Resenha Crítica: "The Terror Live" (Deu tae-ro ra-i-beu)

 A certa altura de "The Terror Live" é praticamente impossível não efectuar uma ligação entre Yoon Young-hwa (Ha Jung-woo), o protagonista, e Chuck Tatum (Kirk Douglas), o elemento principal de "Ace in the Hole". Ambos são jornalistas caídos em desgraça que procuram regressar ao topo, mesmo que para isso tenham de tomar medidas moralmente duvidosas e ilegais. As comparações entre ambos os personagens param por aqui, embora "The Terror Live" também procure explorar temáticas ligadas com a imprensa sensacionalista e a forma como parece valer tudo para ganhar a "guerra" das audiências, com o filme a ter um olhar crítico sobre o papel da mesma e do público que a consome. Veja-se quando a certa altura do filme Cha Dae-eun (Lee Geung-young), o produtor e director da rede que gere a rádio e a estação televisiva, procura a todo o custo que Young-hwa consiga o exclusivo com o terrorista que se intitula Park No-kyu, um indivíduo que supostamente trabalha na construção civil. O protagonista vê neste caso uma oportunidade única para regressar à ribalta, após ter sido destituído do cargo de apresentador do telejornal e ser enviado para a rádio, onde apresenta um programa. Numa das chamadas para o programa, onde a temática discutida era a política fiscal da Coreia do Sul, que favorece quem mais ganha em detrimento daqueles que menos recebem, Yoon Young-hwa é "brindado" com uma chamada de Park No-kyu a queixar-se do aumento excessivo do custo da electricidade, acabando por desprezar o ouvinte e procurar que este desligue a chamada. No entanto, ninguém consegue que o ouvinte desligue, com este a revelar que se prepara para explodir a ponte de Mapo, uma ponte que atravessa o rio Han, ligando o distrito que dá nome a esta meio de ligação e Yeouido. Yoon pensa que é tudo uma piada, chegando a incentivar o terrorista a cumprir os seus intentos até observar do seu escritório a ponte a ser alvo de uma violenta explosão e perceber a gravidade da situação. A sua equipa procura que este chame as autoridades, mas Yoon Young-hwa procura reter a informação, tal como Chuck Tatum tentou que Leo Minosa ficasse preso o máximo tempo possível, procurando jogar com este exclusivo para conquistar o regresso à ribalta, telefonando a Cha Dae-eun com esse desiderato. O protagonista logo consegue o seu objectivo, com uma câmara de filmar a ser transportada para o estúdio da rádio de forma a que a reportagem seja exibida na televisão, o produtor a aceitar pagar um valor elevado ao terrorista para poder ficar com o exclusivo, enquanto este comunica por via telefónica com Yoon. É então que descobrimos que Park No-kyu supostamente trabalhou na construção da ponte e pretende um pedido de desculpas do Presidente da Coreia do Sul devido a três colegas terem falecido no local há vários anos atrás devido a negligência da entidade empregadora e das autoridades sem que ninguém ligasse ao caso. A tensão aumenta quando a tarefa parece praticamente impossível de conseguir e o terrorista não parece estar para brincadeiras, colocando uma bomba no auscultador do protagonista e do representante das autoridades, não tendo problemas em eliminar de forma violenta este último e salientar que tem mais aparelhos explosivos plantados noutros locais.

Está muito mais em jogo do que a disputa pelo domínio das audiências, com o passado algo negro de Yoon Young-hwa a vir ao de cima, enquanto o estúdio facilmente se transforma num espaço sufocante, onde nada nem ninguém parece estar livre de perigo e poucos parecem ser exemplos morais. No outro plano da cobertura do caso temos Lee Ji-soo (Kim So-jin), a ex-mulher do protagonista, a correr perigo de vida, com a ponte a estar prestes a ceder e a vida destes personagens a estar completamente em risco. Escrito e realizado por Kim Byung-woo, um cineasta até então com pouco destaque, "The Terror Live" (Deu tae-ro ra-i-beu) surpreende pela forma como o realizador consegue manter a tensão em boa parte da narrativa, enquanto esta se desenrola em tempo real, com o sentimento de urgência dos personagens a ser transmitido para o espectador. O próprio trabalho de câmara e montagem são essenciais para a dinamização do enredo, sempre pronto a não deixar que a obra caia "em ponto morto", recheado de planos capazes de transmitir o nervosismo que envolve todos estes episódios. A câmara treme, as imagens em movimento conseguem transmitir a intensidade das explosões (com a câmara por vezes a ser inclinada para o efeito) e o destino dos personagens parece incerto assistindo-se a um duelo de vontades entre o protagonista e o terrorista. Ha Jung-woo controla o filme como Young-hwa, um jornalista que caiu em descrédito, ambicioso, que viu o seu casamento desfazer-se exactamente devido à sua personalidade pouco recomendável, procurando dialogar a todo o custo com o seu interlocutor ao telefone, tentando ganhar tempo e espaço no mundo do jornalismo. O argumento constrói um protagonista de alguma complexidade, mas Ha Jung-woo tem o carisma para que nunca deixemos de querer deixar de seguir o seu personagem, mesmo quando ficamos a par do seu passado pouco recomendável. Diga-se que quando o encontramos a barbear-se, a procurar desde logo surgir com bom aspecto na TV, percebemos que a preocupação deste encontra-se mais na sua pessoa do que no próprio caso, algo revelador do seu carácter, embora o terrorista logo o faça tornar-se parte integrante do mesmo. Ficamos ainda perante um lado negro do jornalismo e até da política e das pouco surpreendentes injustiças sociais. O jornalismo criticado é o sensacionalista, aquele que procura a todo o custo as audiências, mesmo que para isso tenha de dar tempo de antena a um terrorista, enquanto a nível político assistimos no último terço a uma crítica pouco subtil às injustiças sociais e aos discursos políticos, com o argumento a perder algum fulgor quando procura dar demasiadas explicações.

 Se o argumento, apesar de alguns tropeços, tais como a falta de desenvolvimento da relação do protagonista com a ex-mulher, até nos consegue convencer na maioria das vezes, o mesmo não se pode dizer no aproveitamento do espaço do estúdio que é quase sempre assertivo, marcado por uma miríade de ecrãs que permitem servir de janelas para o exterior e deixar-nos perante os acontecimentos que ocorrem na ponte. A face do terrorista apenas é revelada nos momentos finais do filme, com "The Terror Live" a criar um enorme mistério em volta da sua figura, com a explicação final deste sobre os seus actos a não deixar de ter alguma ironia, apesar de tirar algum impacto ao filme. Se alguém passar toda a vida a trabalhar de forma competente raramente ganhará o mínimo reconhecimento (com raras excepções), enquanto este com um acto de terrorismo conseguiu todos os holofotes sobre a sua pessoa e para os casos dos trabalhadores que morreram devido a condições de trabalho negligentes. Kim Byung-woo não defende o terrorista, mas também não é elogioso para com os jornalistas, num thriller inquietante, onde a passagem do tempo é sentida e a urgência em tudo se resolver nos vai cada vez mais deixando presos aos próximos acontecimentos. O espaço da estação de rádio onde se desenrola boa parte do enredo facilmente se transforma num local claustrofóbico, onde tudo e todos parecem estar em perigo. É óbvio que nem todas as situações são credíveis e Kim Byung-woo é pouco subtil a transmitir a sua mensagem sobre a imprensa e a sociedade do seu tempo, mas muito é compensado com uma intensidade que nos arrebata para o interior da história de uma forma que por vezes até faz com que sejamos capazes de deixar de lado alguns questionamentos sobre o argumento, sobretudo no último terço onde as explicações tiram algum peso a tudo o que de bom fora construído. É nestes momentos que descobrimos por que é que o terrorista escolheu ligar para Young-hwa e a sua verdadeira identidade, com o filme a poder ter "deixado cair" estes dois aspectos ao invés de procurar unir com cuspo algumas pontas soltas do argumento. Com um protagonista longe de ser um exemplo moral, um argumento capaz de criar um conjunto de episódios capazes de prender a nossa atenção, algumas reviravoltas e uma realização dinâmica e inspirada de Kim Byung-woo, "The Terror Live" aparece como um thriller recomendável, onde a inquietação é garantida.

Título original: "Deu tae-ro ra-i-beu".
Título em inglês: "The Terror Live". 
Realizador: Kim Byung-woo.
Argumento:  Kim Byung-woo.
Elenco: Ha Jung-woo, Lee Geung-young, Jeon Hye-jin, Lee David, Kim So-jin.

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