26 outubro 2014

Resenha Crítica: "Pride" (Orgulho)

 Baseado num episódio histórico relativamente desconhecido, "Pride" apresenta-nos a uma aliança improvável entre um conjunto de mineiros do país de Gales e um grupo formado por gays e lésbicas em plenos anos 80. A história é apresentada com alguma leveza e humor, embora o filme não descure elementos de maior dramatismo associados aos preconceitos, intolerância e propagação do vírus do HIV. Embora alguns personagens se destaquem mais do que outros, o foco de "Pride" são os dois grupos (com maior incidência nos elementos homossexuais), a interacção entre os seus elementos, e como esta aliança improvável desafiou expectativas, preconceitos e diferenças a nível de ideias. O enredo começa por nos apresentar o contexto político fervilhante da Governação de Margaret Tatcher, em Inglaterra, com o seu Governo a decidir fechar vinte minas, algo que conduziria vinte mil mineiros para o desemprego. Esta situação conduziu a que os mineiros decidissem entrar em greve, algo que durou entre 1984 e 1985, tendo afectado largamente a produção de carvão britânica e gerado uma onda de repressão policial pouco recomendável. Pouco tempo depois somos colocados diante da Marcha do Orgulho Gay e Lésbico de 30 de Junho de 1984, uma manifestação que conta pela primeira vez com a presença de Joe Copper (George McKay), um jovem de vinte anos que descobre outro lado da sua sexualidade, ainda algo tímido por estar em público a revelar-se embora esconda dos seus familiares esta opção. Quem se encontra em destaque na marcha é Mark Ashton (Ben Schnetzer), o líder de um grupo activista composto por elementos homossexuais que se reúne na livraria de Gethin Roberts (Andrew Scott), um local muitas das vezes alvo de actos de vandalismo devido à orientação sexual dos elementos que por lá se reúnem. Durante a marcha, Mark percebe que as autoridades estão a descurar a cobertura deste evento de forma a concentrarem os seus esforços nas ofensivas contra os mineiros em protesto, encontrando um paralelo em relação à procura de ambos os grupos em defenderem os seus direitos, com a repressão policial a ser sentida pelas duas partes. É então que Mark decide criar o grupo Lesbians and Gays Support the Miners (LGSM) que visa apoiar a causa dos mineiros, angariando fundos para os mesmos. Inicialmente todos os sindicatos rejeitam o contacto, mas um grupo de Onllwyn, uma pequena cidade mineira de Gales, decide ouvir o que estes têm para dizer devido a um engano ao telefone. Dai Donovan (Paddy Considine), um individuo casado e heterossexual, surge como o representante dos mineiros, ficando simultaneamente surpreendido e sensibilizado com a atitude dos LGSM, discursando num bar gay, algo que lhe consegue ganhar ainda mais apoios para a sua causa. Mais difícil parece ser convencer os mineiros, com elementos bastante homofóbicos e conservadores, embora gradualmente sejamos surpreendidos com um reunir de esforços inicialmente improvável.

É nesta reunião improvável e no confrontar das diferenças que se centra sobretudo o enredo de "Pride", ao mesmo tempo que somos surpreendidos pela capacidade do argumento em desenvolver com alguma inteligência as personalidades dos seus personagens e os arcos que os ligam, algo que dá espaço para os elementos do elenco sobressaírem. Veja-se desde logo o caso de Joe, um jovem tímido que procura esconder da família as suas preferências sexuais, encontrando neste grupo um local onde pode extravasar as suas vontades e conhecer-se melhor a si próprio, apesar de sabermos que mais tarde ou mais cedo este vai ser descoberto pelos pais, com George McKay a ser capaz de expressar as dúvidas, receios e incertezas do seu personagem. Já Mark é o líder  do grupo, um indivíduo obstinado pela defesa das causas LGBT e dos mineiros, organizando um movimento que causou repercussões surpreendentes que contribuíram e muito para a obtenção de uma maior abertura em relação a estes elementos no Reino Unido. Ben Schnetzer convence-nos da vontade do seu personagem em ajudar os mineiros, em defender os seus direitos e lutar contra um Governo conservador. Outro dos elementos do grupo é Jonathan, um actor com enorme talento para a dança, por vezes excêntrico, que padece de SIDA, dando a oportunidade a Dominic West de ter um dos melhores papéis do filme, contrastando claramente com os personagens que este interpretou em séries como "The Hour" e actualmente "The Affair". Veja-se a cena em que este se encontra na reunião com elementos e familiares dos mineiros e dá um "show" de dança, algo que acaba por lhe valer os pedidos de uns quantos homens para Jonathan ensinar os seus passos e assim poderem conquistar as mulheres que deliram com os seus movimentos. Este tem uma relação com Gethin Roberts (Andrew Scott), o dono da livraria, um indivíduo natural de Gales que não fala com a mãe há mais de dez anos devido a ter revelado as suas preferências sexuais. Temos ainda Steph (Faye Marsie), a parte lésbica do grupo, uma jovem algo ríspida, de ideias vincadas, irreverente, que cria amizade com Joe. A completar o grupo principal dos LGSM temos Mike Jackson (Joe Gilgun), uma figura sóbria, geralmente acompanhado pelo seu gorro, praticamente o número dois de Mark, embora tenha alguns problemas em impor-se. Do lado dos mineiros o elemento que mais sobressai é Dai, com Paddy Considine a demonstrar mais uma vez que é um actor bastante underrated, exibindo a procura do seu personagem em mudar e aceitar a ajuda dos mineiros, lidando com os mesmos quase como "irmãos de luta", sabendo dialogar ao mesmo tempo que procura encontrar consensos junto dos mineiros. Inicialmente parece complicado, encontrando a oposição de elementos como Maureen (Lisa Palfrey), uma viúva conservadora, que conta com o apoio dos seus dois filhos e a rejeição do antigo cunhado, interpretado por um sublime Bill Nighy. Este interpreta Cliff, um indivíduo ponderado e culto, que esconde alguns segredos e procura desde logo apoiar a causa dos LGSM. Cliff facilmente gera uma certa empatia junto do espectador, quer pela sua ponderação, quer pelas dificuldades que por vezes apresenta a nível de comunicação, surgindo como alguém profundamente humano, permitindo a Bill Nighy ter uma interpretação que se destaca pela sobriedade. 

 Quem também sobressai do grupo galês é Sian (Jessica Gunning), a esposa de um mineiro, uma mulher inicialmente apagada que gradualmente vai revelando a sua personalidade forte, mostrando-se uma defensora das causas de ambos os grupos, algo que surpreende o seu marido. Temos ainda Imelda Staunton como Hefina Headon, uma mulher que gradualmente apoia este grupo homossexual, juntando-se à defesa dos mesmos, não faltando ainda pelo meio uma idosa que forma uma peculiar amizade com "as suas lésbicas". Poderíamos ainda abordar muito mais as interpretações destes actores e actrizes, com parte do sucesso de "Pride" a estar exactamente na sua capacidade de aproveitar os personagens e desenvolver os mesmos ao longo do enredo, de lhes atribuir enorme humanidade, conseguindo extrair quase sempre sólidas interpretações dos elementos que compõem o elenco. Sem procurar dar demasiado ênfase ao lado dramático do enredo, "Pride" revela-se uma comédia inteligente e agradável, capaz de captar vários dos elementos da época representada. Desde o guarda-roupa, passando pela banda sonora e comportamentos, aos direitos que os elementos homossexuais pretendem conquistar até às longas e violentas greves dos mineiros, passando pelas imagens de arquivo utilizadas, muito é feito para recuperar o "sabor" de uma época. Curiosamente muito ainda está por mudar, com o filme realizado por Matthew Warchus a receber a escandalosa classificação R (menos de 17 só podem entrar acompanhados por um adulto) nos EUA quando o vocabulário já foi ouvido por qualquer adolescente, as cenas mais íntimas são raríssimas, algo que torna tudo muito estranho e gerou alguma merecida polémica. Liberdades históricas à parte e um tom por vezes demasiado feel good, Matthew Warchus tem em "Pride" uma obra de que se pode orgulhar, devendo agradecer e muito ao argumentista Stephen Beresford. Muito do humor do filme resulta também dos contrastes entre os elementos homossexuais e os mineiros, com ambos a inicialmente chocarem e a gradualmente entenderem-se, ao mesmo tempo que vamos ficando perante pequenos elementos da cultura e sociedade deste período. Vale a pena realçar que este tom mais leve não impede o dramatismo e até alguns momentos mais tensos que vão desde as agressões a estes elementos por serem gays, passando pelos insultos e adjectivos como "pervertidos", para além das complicadas relações familiares que apresentam, e por vezes até entre si (veja-se a dificuldade de Steph em se integrar com as outras lésbicas). Marcado por boas interpretações, um argumento inteligente e um ritmo fluído, "Pride" surpreende pela forma leve como nos transmite as suas mensagens, ao mesmo tempo que nos apresenta a um peculiar e relevante episódio da nossa História recente.

Título original: "Pride".
Título em Portugal: "Orgulho". 
Realizador: Matthew Warchus.
Argumento: Stephen Beresford.
Elenco: Bill Nighy, Imelda Staunton, Dominic West, Paddy Considine, Andrew Scott, George MacKay, Joseph Gilgun, Ben Schnetzer.


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