11 outubro 2014

Resenha Crítica: "Pickpocket" (O Carteirista)

 O impulso de roubar parece ser demasiado forte para travar Michel (Martin LaSalle), um desempregado que envereda pelo carteirismo. Este é o protagonista de "Pickpocket", uma das obras mais populares e recomendáveis realizadas por Robert Bresson, um dos mais influentes cineastas franceses, que tem aqui um filme marcado por vários elementos transversais a vários dos seus trabalhos cinematográficos, entre os quais a presença de elementos do elenco amadores ou estreantes (Martin LaSalle, Jean Pélègri, Marika Green), a redenção final do personagem principal, um conjunto de interpretações marcadas pela sobriedade, para além de elementos como os motivos religiosos (a presença da igreja e a prisão como modo de penitência), um interessante jogo entre o som e as imagens, entre outros. Em "Pickpocket", Bresson deixa-nos perante Michel, um carteirista que não consegue resistir à tentação de roubar, procurando aprender a aperfeiçoar esta "arte". O cineasta dá atenção aos gestos de Michel, à forma como este mexe as mãos, como observa astutamente as suas vítimas, enquanto a narração do personagem conduz a que nos apercebamos ainda mais das suas inquietações sobre os seus actos. No início do filme encontramos Michel a roubar o dinheiro de uma espectadora num hipódromo onde se encontrava a desenrolar uma corrida de cavalos, tendo sido detido, embora o crime não pudesse ser comprovado visto este apenas estar com as notas no bolso. Mais tarde, quando se encontrava no café com Jacques (Pierre Leymarie), o seu melhor amigo, Michel encontra o inspector da polícia (Jean Pélégri) que o interrogou na esquadra, com quem o protagonista logo entra em conversa. Michel expõe os seus ideais muito próprios em relação às leis e ao crime, questionado se "Será possível admitir que homens com certas habilidades, dotados de inteligência, talento ou genialidade, e que são indispensáveis para a sociedade, ao invés de se sentirem paralisados sejam livres para desobedecer às leis em certos casos?". O inspector considera esta ideia inadmissível, prosseguindo as investigações, enquanto vamos ficando a conhecer um pouco mais sobre Michel. Este tem uma relação complicada com a mãe, embora diga que gosta da mesma, apesar de raramente visitar a progenitora. Quando passa pela casa da mãe, a vizinha, Jeanne (Marika Green) alerta-o para a visitar mais vezes, visto que a progenitora se encontra em estado terminal e necessita de atenção. Jeanne inicia uma relação com Jacques, enquanto Michel arranja dois cúmplices no mundo do crime, um dos quais que lhe ensina um variado leque de técnicas de furto, algo que gera um enorme entusiasmo no protagonista. Robert Bresson não nos poupa a cenas do personagem a furtar as carteiras alheias, exibindo o seu nervosismo inicial, os seus erros, o seu treino e desenvoltura, num estilo de vida que promete terminar mal para o protagonista, ou talvez não, com o amor a poder surgir nas formas mais inesperadas. 

Martin LaSalle convence ao interpretar com enorme sobriedade este carteirista consumido pelas suas vontades e fraquezas, com o seu olhar a transmitir por vezes alguma distância. Parece querer mudar de vida, mas a sua fraqueza e as contingências conduzem-no a praticar o crime, tendo nestes furtos uma forma de subsistir e ganhar a vida de forma fácil. Anda geralmente vestido de fato, vive no limite, joga com os riscos e a espaços até parece gostar deste jogo onde procura a todo o custo não ser apanhado em flagrante delito. O acto de roubar a espaços parece despertar-lhe um prazer quase sexual, algo que até pode remeter para uma relação algo homoerótica no prazer que este tem a aprender a arte de roubar com um carteirista que conhece durante o desenrolar da narrativa. A sua obsessão pelo roubo faz-nos por vezes recordar a incessante procura de Fontaine, o protagonista de “Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut”, em fugir da prisão, com ambos a partilharem ainda o hábito de nos narrarem alguns dos acontecimentos. Robert Bresson procura a sobriedade nas interpretações dos seus actores, trabalhando novamente com estreantes ou elementos amadores, algo que aconteceu com Martin LaSalle e Marika Green. Esta interpreta uma mulher algo ingénua, que se enamora de Jacques embora crie uma estranha ligação com Michel (a jovem como o símbolo de pureza que contrasta com o protagonista pronto a errar), ao longo de uma obra onde ficamos perante este carteirista com uma visão muito peculiar da lei e do seu ofício. Robert Bresson coloca o seu personagem entre transportes públicos, a assaltar e a furtar, exibe os seus erros e acertos, mas também o seu modo de pensar. Esse modo de pensar é também visível no livro "The Prince of Pickpockets", escrito por George Barrington, onde Michel tira muito dos seus pensamentos (tal como Robert Bresson parece ter tirado inspiração de "Crime e Castigo" de Fyodor Dostoyevsky), apresentando uma frieza notória embora nem por isso deixe aparentemente de gostar de alguns elementos que lhe são próximos, apesar de apresentar um desprendimento latente. Afasta-se da mãe, apesar de dizer que gosta dela mais do que si próprio, algo que não parece muito complicado, com este personagem que vive isolado, numa casa pouco espaçosa e pouco arranjada, a surgir como um elemento aparentemente sem grande amor próprio, algo distante e pronto a exacerbar os seus actos diante de si próprio. Este tem no inspector interpretado por Jean Pélègri o seu maior desafio, chegando a protagonizar um intenso momento com o agente da autoridade, com quem chega a formar uma espécie de jogo entre "o gato e o rato" que promete terminar mal para Michel. A relação de Michel com Jeanne é algo distante, embora ambos dialoguem e esta procure estar junto do protagonista, apesar deste ser "perito" em envolver-se em confusões. Por vezes ficamos com a sensação de que este até poderia arranjar um trabalho sério, mas tira da adrenalina do furto um prazer que provavelmente um trabalho legal não lhe daria, com Bresson a apresentar com minúcia estes actos, expostos por vezes com alguns planos detalhe nas mãos dos carteiristas. A cinematografia também é digna de registo, sobressaindo a eficaz utilização do chiaroscuro, ao longo de uma obra onde ficamos perante um ladrão de pouco relevo e algo desprendido em relação aos outros seres humanos, enquanto este nos relata e exibe os seus feitos pouco recomendáveis e Bresson nos deixa perante uma obra muito recomendável.

Título original: "Pickpocket". 
Título em Portugal: "O Carteirista".
Realizador: Robert Bresson.
Argumento: Robert Bresson.
Elenco: Martin LaSalle, Marika Green, Jean Pélégri, Dolly Scal, Pierre Leymarie.
 

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