15 outubro 2014

Resenha Crítica: "O Quarto Azul" (La Chambre Bleue)

 Misteriosa e ambígua, "La Chambre Bleue" apresenta-se como uma obra cinematográfica intrigante, marcada pelo mistério e claras influências hitchcockianas. Não falta a banda sonora a evocar os trabalhos de Bernard Herrmann para o "mestre do suspense", a capacidade de Mathieu Amalric em criar o medo e o mistério, numa história que vagueia entre o presente e o passado, entre o calor de uma relação adúltera e um interrogatório policial. O título do filme remete para o quarto número quatro do hotel de la Gare onde Julien Gahyde (Mathieu Amalric) e Esther Despierre (Stéphanie Cléau), um casal adúltero, se reúne para ter os seus momentos de obsessão sexual. Despem os seus corpos sem qualquer pudor (Esther ainda utiliza um colar de pérolas), unem-nos, enquanto a câmara de filmar foca-se em partes específicas dos mesmos, com Mathieu Amalric a criar uma atmosfera simultaneamente de intimidade e claustrofobia, onde até a presença de uma mosca é notada. O cenário do quarto é marcado pela presença das paredes azuis do mesmo, bem como a cama com lençóis brancos onde Julien e Esther se encontram, com esta a ter o hábito de lhe morder os lábios até o mesmo sangrar, algo revelador de algum sadismo da mesma. Até aqui tudo parece estar bem. No entanto, Mathieu Amalric logo nos apresenta o seu personagem no tempo presente a ser interrogado pelo juiz Diem (Laurent Poitrenaux), com este a procurar descobrir todos os pormenores sobre a relação de Julien e Esther. Percebemos que um crime ocorreu ou algo vai mal, com Julien a ser obrigado a detalhar o quotidiano desde o dia em que se reencontrou com Esther, uma mulher que conhecera no passado. Esta femme fatale é casada com Nicolas (Olivier Mauvezin), o dono de uma farmácia localizada em Saint-Justin e ex-colega do protagonista, apresentando poucos pudores e algum sadismo. Julien é casado com Delphine (Léa Drucker), de quem tem uma filha, habitando numa vivenda espaçosa, com arquitectura e decoração modernas, embora algo fria, incapaz de expressar alguma intimidade que encontramos no "quarto azul". Uma intimidade que por vezes é desconfortante, onde tudo é interrompido, de acordo com o protagonista, quando viu o marido de Esther por perto. Este é um dos elementos que contribuem para a ambiguidade de "La Chambre Bleue": os flashbacks são apresentados do ponto de vista do protagonista. Será que podemos confiar neste? Será que está mesmo a contar a verdade? Aos poucos sabemos que duas mortes envolvem Julien e Esther, embora não entremos em mais pormenores. Um dos maiores prazeres de "La Chambre Bleue" também passa pelas surpresas que vamos encontrando ao longo deste enredo que vagueia entre o presente e o passado, onde um interrogatório é efectuado e um julgamento em tribunal consumado (com este espaço a também remeter para o título do filme).

 O trabalho de montagem de François Gédigier é fundamental para manter bem vivo o ritmo do filme, com Mathieu Amalric a controlar por completo os ritmos da narrativa. Diga-se que Amalric controla o filme. Quer como realizador, quer como actor. Este atribui uma ambiguidade notória ao seu personagem, tanto parecendo capaz de parecer um indivíduo com alguns pecados mas bem intencionado, como alguém que pode ter cometido algum assassinato. A sua voz a prestar testemunho varia entre o ponderado e algum nervosismo, próprio de quem se encontra cansado da repetição de perguntas e se considera inocente. Os seus olhos, em alguns momentos a fazerem-nos recordar Peter Lorre, contribuem para que o seu olhar exponha esses sentimentos dicotómicos despertados pelo seu personagem, um empresário com uma empresa ligada aos aparelhos para o trabalho agrícola. Este surge bem acompanhado no elenco por Stéphanie Cléau (companheira de Amalric na vida real), uma actriz sobretudo habituada a trabalhar no meio teatral, com a sua Esther a nunca despertar totalmente confiança, parecendo disposta a tudo para ficar com o protagonista. As cartas que envia a Julien são de alguma dubiedade, conduzindo a que estes dois sejam suspeitos de crimes. Na mesa de Diem encontramos duas pastas, cada uma dedicada aos depoimentos de cada parceiro do casal adúltero, com vários elementos a parecerem coincidir ou talvez não. "La Chambre Bleue" faz com que simultaneamente simpatizemos e desconfiemos destes personagens, algo adensado pelos seus comportamentos no presente e no passado. Os close-ups, muitas das vezes extremos, adensam alguma intimidade nas cenas do casal no quarto, com Amalric a apostar bastante nos planos fixos e a beneficiar de uma eficaz cinematografia, onde as imagens surgem muitas das vezes propositadamente desfocadas, uma situação que faz todo o sentido quando estamos perante flashbacks vindos da memória do protagonista. A memória por vezes atraiçoa-nos e nem sempre nos recordamos com exactidão de tudo o que efectuamos ao longo da vida, pelo que este desfocar acaba por adensar toda uma situação complicada para o protagonista, ao longo desta obra baseada no livro "La Chambre Bleue" de Georges Simenon. Temos ainda alguns episódios de Julien com a esposa e a filha, incluindo na praia, onde tudo parece ser mais luzidio e solarengo, embora nem por isso sem um momento de estranheza. Este parece sentir-se culpado e supostamente parece ter tomado a decisão de abandonar a amante, ou, pelo menos, é o que conta às autoridades, apesar de ter de vir a lidar com as consequências dos seus actos nem sempre compreensíveis. O código entre ambos passava por Esther colocar uma toalha estendida no estendal da sua casa, de forma a que o protagonista conseguisse saber se esta poderia ou não reunir-se consigo. A farmácia que rodeava o cenário da casa desta contém remédios para curar várias doenças mas não tem nada para os travar, ou talvez tenha umas compotas que se podem revelar arrasadoras.

 O casal de amantes é acusado de duplo homicídio. Serão culpados ou inocentes? "La Chambre Bleue" procura antes deixar-nos na dúvida em relação a ambos, com Mathieu Amalric a criar uma obra onde não falta sexo, traições, obsessões, mortes, reviravoltas e uma capacidade de nos intrigar para o interior deste universo narrativo preenchido por dois protagonistas de carácter dúbio. A certa altura do filme podemos ver Delphine, no escadote, a colocar um enfeite de Natal no tecto. Olha de cima para baixo para o marido, enquanto este parece apresentar um olhar algo perturbado, observando que o escadote se encontra localizado entre as mesas de vidro, algo que poderia causar um acidente doloroso. A banda sonora adensa este clima de suspense em relação ao que Julien vai fazer, com Amalric a logo cortar o momento e deixar-nos durante algum tempo na dúvida sobre o desfecho deste episódio. O seu personagem já tinha apresentado alguns comportamentos estranhos e quando vemos esta cena até já sabemos que este se encontra a ser interrogado, pelo que não é de estranhar que facilmente desconfiemos de Julien. Nem todos os actores conseguem efectuar de forma eficaz a transição para o cargo de realizador. No caso de Mathieu Amalric, este demonstra-nos na sua quinta obra cinematográfica (conta ainda com um telefilme) que o seu talento não está apenas para a representação, mas também para a realização. A tensão que cria em volta do enredo é latente, deixando-nos sempre com algumas dúvidas em relação ao protagonista e aos seus actos, algo exposto ao longo dos vários momentos do filme, enquanto "La Chambre Bleue" vai variando de tom. Desde o romance adúltero entre Esther e Julien, até às cenas de tribunal, passando pelo interrogatório policial, "La Chambre Bleue" transfigura-se com sucesso ao mesmo tempo que dá a oportunidade para Mathieu Amalric destacar-se como realizador e actor. Nos momentos iniciais do filme estabelece-nos o espaço do hotel em breves planos, enquanto ouvimos sons associados ao acto sexual. Os lençóis brancos encontram-se com sangue. Nada de bom poderíamos esperar daqui, com o filme a apresentar-nos à história dos amantes que se encontram neste quarto, entre o passado e o presente, com o crime a rodear o presente de ambos e o mistério a raramente largar a narrativa. A dinâmica entre Mathieu Amalric e Stéphanie Cléau é assinalável, com o casal na vida real a exibir a química que tem, bem como o desejo que os seus personagens têm inicialmente um pelo outro, com o filme a lidar com algumas consequências dos seus actos. As cenas entre ambos são de enorme intimidade, contrastando a relação de Julien com a esposa. Se com Esther o casal despe-se totalmente na cama, já com Delphine este mantém a sua roupa interior, tal como esta só descobre os seios, embora os sentimentos destes personagens estejam longe de ficar logo desnudados. Veja-se ainda os locais que escolhe para levar ambas as mulheres: Esther para um quarto de hotel para fazer sexo, Delphine ao cinema, onde pouco falam e se exprimem. Existe alguma beleza a rodear as imagens em movimento do filme, capazes de exporem alguns momentos de maior intimidade e sensualidade, mas também alguma crueza numa obra negra e misteriosa, onde a inocência do protagonista é questionada e Mathieu Amalric pede que façamos a difícil tarefa de julgar o seu personagem.

Título original: "La Chambre Bleue".
Título em Portugal: "O Quarto Azul". 
Realizador: Mathieu Amalric.
Argumento: Mathieu Amalric e Stéphanie Cléau.
Elenco: Mathieu Amalric, Léa Drucker, Stéphanie Cléau, Laurent Poitrenaux, Serge Bozon.

1 comentário:

edson melo disse...

boa critica, mas ele matou ou não? kkkkk