11 outubro 2014

Resenha Crítica: "Mouchette" (Amor e Morte)

 Jean-Luc Godard terá dito que "Robert Bresson está para o cinema francês como Dostoyevsky para a literatura russa e Mozart para a música germânica", um comentário que ilustra a enorme relevância de Robert Bresson para o cinema francês e para a História do Cinema. Em "Mouchette", a oitava longa-metragem realizada por Robert Bresson, já encontramos a arte deste cineasta bastante definida, reunindo vários elementos transversais às suas obras. O som e a imagem são conjugados de forma exímia, os elementos do elenco são compostos na maioria por amadores e/ou estreantes, as interpretações e a exposição da narrativa são marcadas por uma enorme sobriedade, os elementos religiosos surgem bastante presentes, existe uma enorme atenção aos gestos e movimentos dos personagens, enquanto ficamos perante a história de Mouchette (Nadine Nortier), uma jovem rapariga que está longe de conhecer momentos de grande felicidade. Em casa é desprezada e mal-tratada pelo pai, tendo de cuidar da mãe, uma mulher que se encontra gravemente doente, bem como do irmão, um bebé. Na escola, Mouchette é gozada por alguns elementos, sendo ainda alvo da ira da professora quando se recusa inicialmente a cantar. Esconde-se e atira pequenos pedaços de areia para se vingar das colegas, mas estas pouco lhe parecem ligar, com Mouchette a parecer praticamente invisível para tudo e todos. Conhece alguns momentos de curta alegria na feira, embatendo com o carrinho de choque contra um estranho, mas logo é advertida pelo seu pai que a interrompe de forma abrupta. Este é um elemento algo taciturno, que frequenta a tasca de Louise (Marine Trichet), uma mulher que desperta a atenção dos vários elementos masculinos, incluindo Mathieu (Jean Vimenet), um guarda-florestal, e Arsène (Jean-Claude Gilbert), um caçador furtivo, dois elementos com quezílias notórias. Numa noite de tempestade, Mouchette perde-se pelo bosque, conhecendo abrigo junto de Arsène. Este padece de epilepsia, é alcoólico e prepara-se para pedir à jovem para colaborar num plano que visa limpá-lo de possíveis acusações de assassinato, com este a temer ter eliminado Mathieu. Mouchette concorda, estabelecendo-se uma estranha ligação entre ambos, marcada pela frieza e pelo momento em que Arsène a viola. O momento de violação é paradigmático do que podemos encontrar nas obras de Robert Bresson, com a sobriedade e a contenção de sentimentos a marcarem o que nos é exibido pelas imagens em movimento, ao mesmo tempo que a presença das labaredas da fogueira e o som da madeira a arder contribuem e muito para o efeito provocado por estes momentos.

Anteriormente tínhamos visto Arsène a ter um ataque epiléptico, um momento doloroso que este ultrapassa com a ajuda de Mouchette, uma jovem adolescente que lida com problemas dos adultos, com o seu crescimento a ser exibido sem contemplações por Robert Bresson. "Mouchette" deixa-nos perante o quotidiano miserável desta jovem, sem sentimentalismos bacocos nem rodriguinhos, com Robert Bresson a explorar esta atmosfera negra que rodeia os vários habitantes deste local rural, ao mesmo tempo que consegue retirar o melhor dos "modelos" que escolheu para o seu elenco. Bresson "despe" mais uma vez os seus actores e actrizes de forma a transformá-los nos personagens, algo visível na interpretação sublime de Nadine Nortier. Sem maquilhagem e poucos diálogos, Nadine Nortier transmite-nos imenso da sua personagem através do olhar, parecendo esconder no seu interior alguma mágoa e amargura pela forma como é tratada, embora nem por isso deixe de cometer alguns actos menos claros, tais como apoiar a história de Arsène. É alvo de crueldades por parte dos homens, sejam estes o seu pai ou o violador, mas também pelos próprios colegas da sua idade e pela sua professora. O bosque parece ser o seu refúgio e a areia atirada um meio de exorcizar a sua raiva. O cenário do bosque é marcado por este terreno recheado de armadilhas e arbustos, por vezes permeado por imensa chuva, com Robert Bresson a aproveitar de forma bastante eficaz este espaço. No início do filme até nos deixa perante uma cena onde encontramos uma ave a procurar sair da armadilha de Arsène, com Bresson a deixar-nos perante os instintos primitivos de caça do ser humano, sentimentos esses que transpõe para o quotidiano dos personagens, onde muitas das vezes estes se parecem deixar levar pelos seus ímpetos menos racionais, uma situação visível no caso deste caçador e até de Mouchette (veja-se quando a certa altura abraça o violador durante o acto). Na casa de Arsène, Mouchette encontra o calor temporário de uma fogueira que aquece os corpos mas pouco alimenta as almas, com este espaço a surgir quase claustrofóbico, onde a violência física e emocional são exibidas. Por sua vez, a habitação da protagonista também não é um espaço propriamente acolhedor, tendo na sua mãe uma mulher cuja vida se vai esvaindo com o passar dos dias, mas nem por isso parece apresentar uma grande cumplicidade com a mesma. Mouchette tem uma existência pouco agradável e marcada por um certo distanciamento do mundo e das gentes que a rodeiam, com Bresson a remeter-nos para um espaço rural marcado por gentes distintas mas nem por isso muito acolhedoras. A própria protagonista está longe de ser uma personagem completamente agradável ao espectador, embora seja impossível não ficarmos perplexos com o ambiente pouco apolíneo que a rodeia.

Mouchette é uma das personagens solitárias e condenadas à perdição das obras de Bresson. Veja-se o protagonista de "Journal d'un curé de campagne", um padre incompreendido numa pequena aldeia, mas também a forma como Jeanne d'Arc é deixada solitariamente a responder perante os seus interrogadores em "Procès de Jeanne d'Arc", entre outros. "Mochette" remete ainda para "Au Hasard Balthazar" de Robert Bresson, a obra anterior do cineasta, cujo pano de fundo era um espaço rural, para além de contarmos com uma violação da figura feminina e a sobriedade habitual do cineasta a expor os acontecimentos da narrativa. Em "Mouchette", ficamos perante uma sóbria exposição da miséria humana, através de uma jovem que vai tomando lições de vida através das piores maneiras, enquanto assistimos mais uma vez a um enorme cuidado de Robert Bresson a gerir a narrativa, mas também a trabalhar as imagens em movimento. Os planos surgem cheio de significado, alguns assombram-nos (veja-se o final do filme), outros surpreendem por tanto transmitirem com aparente pouco artifício. É uma falsa simplicidade esta que Robert Bresson cria nesta adaptação do livro homónimo de Georges Bernanos, existindo todo um enorme perfeccionismo nas interpretações e nas imagens em movimento, parecendo quase tudo funcionar. Temos ainda a magnífica conjugação do som e as imagens, visível não só na cena da violação, mas também na feira onde a protagonista anda nos carrinhos de choque, com a música a dar um aparente toque de ingenuidade e aparente felicidade, enquanto os veículos embatem sonoramente. Som e imagem conjugam-se na perfeição, mas também a própria capacidade de Bresson em nunca deixar "Mouchette" cair para o dramalhão, desenvolvendo tudo de forma muito própria. Não é um filme para gratificação rápida, muito menos entretenimento pueril, pedindo, tal como boa parte das obras de Robert Bresson, que reflictamos sobre o enredo, que degustemos os planos e nos deixemos embrenhar para o interior do mundo cinematográfico deste cineasta de enorme relevo.

Título original: "Mouchette".
Título em Portugal: "Amor e Morte".
Realizador: Robert Bresson.
Argumento: Robert Bresson.
Elenco: Nadine Nortier, Jean-Claude Guilbert, Marie Cardinal, Paul Hebert.

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