16 outubro 2014

Resenha Crítica: "Mélo" (1986)

 Existe uma enorme restrição a nível de sentimentos da dupla de protagonistas de "Mélo" no último terço do filme quando Pierre Belcroix (Pierre Arditi) questiona Marcel Blanc (André Dussollier) se a falecida esposa o traiu com este último. Nos momentos iniciais de "Mélo", encontramos estes dois personagens a falar amenamente sobre o passado, ao jantar, acompanhados por Romaine (Sabine Azéma), a esposa de Pierre. O momento é demorado, com Alain Resnais a procurar respeitar a estética teatral do material que deu origem ao filme, colocando os seus personagens em longos diálogos nos mesmos cenários, o pano vermelho a surgir no final do filme, utilizando planos de longa duração, ao mesmo tempo que nos deixa perante várias elipses para avançar com os acontecimentos do enredo. O jantar é marcado pelas memórias de Pierre e Marcel, desde os tempos em que frequentaram o conservatório, passando pela procura de um emprego para pagar as despesas dos estudos, até à traição a que o personagem interpretado por André Dussollier foi sujeito por Helena, a sua antiga companheira. A cena em que Marcel fala demoradamente ao jantar é uma das mais poderosas do filme, com André Dussollier a oferecer-nos praticamente um monólogo cheio de sentimento, com "Mélo" a saber aproveitar paradigmaticamente estes momentos solitários dos personagens a falarem junto dos seus interlocutores. Marcel é um conhecido tocador de violino, enquanto Pierre pouco estatuto ganhou com a profissão, tocando na orquestra local, com ambos a partilharem um gosto imenso pela música. No meio destes encontra-se Romaine, que cedo começa a interessar-se por Marcel, procurando encontrar-se com este sem a presença do marido, seduzindo e deixando-se seduzir pelo personagem interpretado por André Dussollier. O encontro na casa de Marcel é marcado por este a tocar violino e Romaine a tocar piano, enquanto desenvolvem um caso extra-conjugal que promete afectar as suas vidas. Entretanto, Pierre adoece, algo que preocupa Christiane (Fanny Ardant num pequeno mas vistoso papel), a prima de Romaine, uma mulher que se interessa pelo personagem interpretado com enorme subtileza por Pierre Arditi. Este é a calma em pessoa, um homem que praticamente venera a sua esposa, embora não saiba que esta o envenena e facilmente se deixe encantar por Marcel, algo evidenciado quando abandona o marido a dizer que vai a Paris procurar por um especialista, embora a causa seja encontrar o personagem interpretado por André Dussollier. Aos poucos a obsessão de Romaine aumenta de tom, uma situação que promete terminar em desgraça, com Sabine Azéma a conseguir expor diante nós o desequilibro emocional e a impulsividade desta mulher. Colaboradora habitual de Alain Resnais, tal como Pierre Arditi e André Dussollier, Azéma sobressai no interior deste universo narrativo composto por um grupo restrito de personagens. Romaine, chamada carinhosamente de "Maniche" pelo esposo, acaba por se envolver num problemático relacionamento fora do casamento, deixando-se levar pela classe do amigo de Pierre, embora ela própria seja uma mulher dada a cometer infidelidades. É talvez a personagem mais desequilibrada do ponto de vista emocional, não tendo problemas em facilmente expor o seu lado menos fiel, quer na casa de Marcel, quer quando dança o tango com este num clube nocturno onde até se encontrava Pierre, embora nem por isso deixe de apresentar alguns recuos nas suas intenções (é claramente uma mulher de contradições). André Dussollier atribui uma classe refinada a Marcel, um profissional exímio no seu ofício, vestido quase sempre de maneira formal, aparentemente ponderado e delicado nas suas acções.

O personagem interpretado por Dussollier é um homem solitário, incapaz de esquecer uma relação falhada, tendo no ameno jantar com Pierre e a sua esposa um momento que promete despertar emoções mais calorosas. Toda a atmosfera que rodeia o cenário do jantar é marcada por algum intimismo e melancolia, com a iluminação a surgir bastante reduzida, enquanto estes dialogam imenso na casa de Pierre e Maniche. Memórias do passado ressurgem no presente, com Alain Resnais a voltar a pegar nas questões ligadas ao papel da memória, mas também a voltar a expor-nos perante o amor louco e condenado à perdição. Não será assim que poderá ser descrita a obsessão de Romaine? Esta guarda em si todas as incertezas do mundo e um conjunto de sentimentos difíceis de conter, mesmo que muitas das vezes pareça notório que perceba não estar a agir da melhor maneira em relação ao esposo. Pierre Arditi interpreta um elemento extremoso, que procura a todo o custo satisfazer a sua esposa, pensando na mesma até nos momentos de maiores dificuldades. Quem não parece ter dificuldades em continuar a surpreender é Alain Resnais que tem em "Mélo" a sua primeira adaptação de uma peça de teatro, procurando conjugar os elementos destes meio artístico com o cinema, criando uma obra marcada por algum intimismo, onde uma relação matrimonial se desfaz perante o fascínio que uma mulher nutre pelo amigo do esposo em plenos anos 20 do Século XX. Pierre e Romaine vivem em Montrouge, nos subúrbios de Paris, aparentando ter uma rotina relativamente repetitiva, enquanto Marcel parece indicar toda uma classe distinta que parece fascinar esta mulher. Veja-se a habitação de Marcel, marcada pela presença do piano de largas proporções, obras de arte e um sofá onde esta exprime um conjunto dicotómico de emoções. Existe todo um refinamento na casa de Marcel que contrasta com a sobriedade e simplicidade da habitação de Pierre, dois amigos com percursos distintos de vida que se reencontraram passados alguns anos (mérito para o trabalho de Jacques Saulnier, outro dos colaboradores habituais de Resnais). Estes personagens facilmente nos fascinam, com Alain Resnais a embrenhar-nos no seu quotidiano, ao mesmo tempo que nos volta a deixar perante uma relação amorosa falhada. No final, Alain Resnais opta pela sobriedade, pelo desenvolver das emoções de forma branda mas nem por isso de menor impacto, numa obra bastante mais convencional a nível narrativo do que "Hiroshima Meu Amor" e "O Último Ano em Marienbad", mas que deve ser tida bastante em atenção. Adaptado da peça de Henri Bernstein, "Mélo" marca ainda a procura crescente de Alain Resnais em mesclar elementos de teatro e cinema, algo que voltaria a fazer em trabalhos posteriores, tais como os mais recentes "Vous n'avez encore rien vu" e "Aimer, boire et chanter", as suas duas últimas obras cinematográficas. Temos ainda a atenção dada às cores e ao seu significado, veja-se desde logo as rosas vermelhas dadas por Marcel a Romaine, bem como o vestido de tonalidade mais clara desta mulher em relação às roupas bastante discretas destes homens, entre outros exemplos que evidenciam como Alain Resnais consegue facilmente elevar um drama para um patamar acima da média. Temos ainda a presença da música (não faltam trechos de Bach), quase sempre em momentos relevantes, tais como nas cenas em que Romaine vai a casa de Marcel, bem como nos momentos finais com os dois amigos a tocarem. No final, as cortinas descem, as emoções ficam, Pierre, Marcel e Romaine facilmente ficam a fazer parte de nós. Pierre e Marcel parecem viver numa constante melancolia e saudosismo em relação ao passado. Romaine é a mais fogosa e impetuosa. No final nem todos saem bem desta história, tirando Alain Resnais que nos consegue fascinar com um drama competente, onde o trio de protagonista sobressai com interpretações dignas de realce. 

Título original: "Mélo".
Realizador: Alain Resnais.
Argumento: Alain Resnais.
Elenco: Fanny Ardant, André Dussollier, Sabine Azéma, Pierre Arditi.

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