21 outubro 2014

Resenha Crítica: "Masculin Féminin" (Masculino Feminino)

 "Este filme poderia chamar-se Os Filhos de Marx e da Coca-Cola. Entendam como quiserem". Este é um dos intertítulos que surgem a acompanhar "Masculin Féminin", sendo também uma das frases mais conhecidas deste magnífico filme realizado por Jean-Luc Godard, um dos nomes fundamentais da Nouvelle Vague. Jean-Luc Godard deixa-nos perante jovens adultos inquietos, perante a cultura e contra-cultura dos anos 60 nos espaços citadinos franceses, centrando a sua história sobretudo em Paul (Jean-Pierre Léaud) e Madeleine (Chantal Goya). Paul é um jovem de esquerda, idealista, culto, inconformado, pronto a protestar contra a Guerra do Vietname e o cumprimento do serviço militar, cheio de dúvidas, que se interessa por Madeleine, uma bela mulher que apresenta diferenças latentes em relação a este. Madeleine é uma cantora pop, fotógrafa, algo fútil e misteriosa, uma jovem que até gosta da cultura capitalista. Não parece ter grandes intenções de casar e inicialmente até evita os avanços de Paul, mas gradualmente vai cedendo, chegando até a engravidar. Esta vive com Catherine (Catherine-Isabelle Duport) e Elisabeth (Marlène Jobert), duas mulheres que em certa medida também se vão relacionar com o protagonista e o amigo deste, Robert (Michel Packard). O personagem interpretado por Michel Packard é um indivíduo de esquerda, que se interessa por Catherine e procura ter relações com esta, embora desconfie que ela esteja interessada em Paul. Estes personagens são os filhos da Coca-Cola e de Marx, coexistindo como se nada fosse, embora os valores defendidos por ambos sejam bastante divergentes. Estamos em plenos anos 60, Jean-Luc Godard fala para a juventude e para os adultos, fala sobre a França deste tempo, da cultura pop e da contra-cultura, não esquecendo os habituais comentários políticos, algo visível no discurso e nos actos anti-Guerra do Vietname por parte de Robert e Paul. Godard foca a câmara de filmar nestes personagens, expõe os seus rostos diante de nós, coloca-os em longos diálogos, por vezes quase monólogos, enquanto estes se expressam e exibem as suas ideias e/ou a falta delas. Diga-se que é quase uma maldade deixar-nos durante tanto tempo perante Chantal Goya, com o seu rosto a facilmente raptar a nossa atenção, um pouco como o filme nos envolve rapidamente para o interior de uma história que tanto tem da sua época. O cineasta segue os seus personagens mas também o mundo que os rodeia, com a câmara a acompanhar o seu olhar e os cenários envolventes, dando-nos noção de que existe muito a acontecer fora do campo embora este apenas nos mostre um pouco. Esta situação fica paradigmaticamente demonstrada no café, onde os diálogos podem ser interrompidos por uma mulher que discute com o esposo e depois dispara nele, mas também pela presença de Brigitte Bardot e até por elementos que falam demasiado alto.

Já os personagens de "Masculin Féminin" não falam demasiado alto, mas sim no tom certo, com o filme e a expor o génio de Godard para a realização mas também a sua irreverência. Filma "Masculin Féminin" num estilo de cinema vérité, tal como já tinha efectuado em obras como "Vivre sa Vie", volta a interessar-se pela juventude, pelos elementos aparentemente sem rumo, coloca os seus personagens a falar de música, política, sexo e temáticas aparentemente banais, por vezes em formato de entrevista. Veja-se a entrevista a Miss 19, com esta a expor o seu lado politicamente e culturalmente pouco informado. Temos ainda Madeleine, que se preocupa sobretudo com a música, sendo até interpretada por uma mulher associada à música Yé-Yé, Chantal Goya, que dá vida a esta personagem com enorme discrição e à vontade. A música tem um papel fundamental na vida desta jovem, mas também na narrativa, com Jean-Luc Godard a voltar a utilizar a banda sonora para sublinhar o que está a acontecer na narrativa, chegando até a substituir os diálogos pelos momentos musicais (algo feito em "Une femme est une femme"), uma situação visível quando é colocada em evidência a canção "Laisse Moi", cantada por Chantal Goya. Também Jean-Pierre Léaud, o eterno Antoine Doinel, personagem que até é mencionado no filme, sobressai como este jovem adulto inconformado, antigo militar que ganha a vida a fazer inquéritos, pronto a mostrar a sua revolta contra a Guerra do Vietname com o mesmo fervor com que reclama por ver um filme projectado de forma diferente do previsto. Enquanto Paul gosta de ler o jornal do Partido e apresentar protestos que muitas das vezes não cumpre, já Madeleine gosta de se arranjar durante longos períodos, demonstrando o seu culto pela aparência e pelo aspecto exterior. O momento em que ambos falam logo no primeiro terço do filme é paradigmático das diferenças entre ambos, mas também do método de Godard de os colocar a falar quase como se estivessem numa entrevista, onde o entrevistador fica muitas das vezes fora do campo e apenas ouvimos a sua voz. Claro que também apresentam alguns momentos de intimidade lado a lado, mas o romance entre ambos parece estar condenado. Para Paul o centro do Mundo é o amor, enquanto para Madeleine esta é o centro de tudo, notando-se algum egocentrismo da sua parte, mas também uma enorme confiança. Esta vive com duas amigas, também elas com algumas diferenças notórias a nível de comportamento, com Catherine a parecer em alguns momentos demonstrar interesse em Paul, apesar deste ser claramente distinto destas mulheres.

 Paul ainda tenta dar a conhecer Bach às suas amigas, bem como o comunismo, mas estas não parecem estar para aí viradas, embora até cometa incoerências e desrespeite os seus ideais. O personagem interpretado por Jean-Pierre Léaud e o seu amigo podem salientar os seus valores anti-capitalistas, mas no fundo já estão envolvidos por estes, seja na Coca-Cola, na Pepsi (embora Paul até prefira groselha), na Jukebox e nas máquinas de jogos, com Jean-Luc Godard a expor a influência do capitalismo e dos EUA em Franca (algo que efectua paradigmaticamente em “Made in U.S.A.). Os personagens fumam e falam muito, expõem os seus ideais e inquietações, exibem os seus gostos (até Bob Dylan é mencionado), mostrando as suas personalidades vincadas enquanto nos é transmitida a atmosfera de uma época. Nome de relevo dos Cahiers du Cinéma, Jean-Luc Godard mostra mais uma vez o porquê de ser considerado um dos cineastas franceses mais radicais deste período e ser um dos expoentes máximos da Nouvelle Vogue, não tendo problemas em expor as suas visões políticas, ainda que de forma não tão clara como irá efectuar posteriormente (embora o personagem que se imola perante o Hospital americano seja um acto de protesto violento e paradigmático do atmosfera fervilhante que o cineasta pretende apresentar), embora seja notória alguma pouca simpatia em relação ao capitalismo, indo contra as convenções de Hollywood e até do cinema Francês do seu tempo, mostrando a sua relevância e talento. Em "Masculin Féminin" não estamos perante um filme apenas sobre jovens adultos, mas sim perante um ideal da juventude, com estes elementos a integrarem-se num espaço parisiense bem real, enquanto somos deixados perante a heterogeneidade dos vários personagens e as suas diferentes ideias. Godard acaba por em certa medida desconstruir a ideia de que os jovens adultos são todos iguais, exibindo as diferentes personalidades e ideias dos seus personagens quase como se estes fossem um espelho da sua sociedade. Temos jovens informados, outros completamente desinformados e despreocupados com o mundo que os rodeia, uns que são amantes de música pop, enquanto outros gostam de música clássica, ao mesmo tempo que a narrativa avança e somos deixados perante a complexidade destes personagens e as diferenças entre ambos os sexos. Curiosamente, ou talvez não, Godard escolhe as mulheres para apresentar de forma mais fútil, menos ligadas ao que as rodeia e a questões políticas, com os homens a surgirem rebeldes, embora também estejam longe de ser consequentes. 

Temos ainda as várias referências cinéfilas ao longo do filme, não faltando a menção a Antoine Doinel e a "Pierrot le Fou" (naquela que é uma auto-referência de Godard, algo que é comum a algumas das suas obras), a presença de Brigitte Bardott (protagonista de "Le Mèpris") a ensaiar um papel, entre outras. Godard utiliza ainda vários outros elementos típicos das suas obras cinematográficas para dinamizar o enredo, entre os quais os jump-cuts que quebram com a continuidade da narrativa, mas também um notório trabalho entre o som e a imagem. Essa situação é visível na já exemplificada utilização da banda sonora, mas também dos sons que rodeiam os personagens, chegando até a quebrarem os seus discursos, algo utilizado ao extremo em "Made in U.S.A." onde não ouvimos o último nome do falecido namorado da personagem interpretada por Anna Karina. No caso de "Masculin Féminin" não ouvimos a resposta de Madeleine à pergunta se já dormiu com alguém, para além da presença de barulhos e diálogos externos aos dos protagonistas. Estes são jovens adultos, ainda a formar as suas personalidades e com uma enorme disponibilidade sexual. A sexualidade está muito presente na vida destes jovens, incluindo a protecção nas relações sexuais, mas também a diferente forma como abordam as mesmas. Veja-se a diferença entre Robert e Paul, com o primeiro a gostar de frequentar prostitutas, enquanto o segundo detesta, mas também a forma como o primeiro fala dos seios de Catherine e até a procura do personagem interpretado por Jean-Pierre Léaud em ter sexo com a amada. Godard deixa-nos perante uma cidade de Paris já em ebulição, através destas figuras que vivem as suas vidas de forma muito própria e aparentemente banal, a viverem em plena Guerra Fria, Guerra do Vietname e próximos do Maio de 1968. Já Godard não apresenta uma obra banal, mas sim uma de um período profícuo e de grande colheita da sua carreira. 

Título original: "Masculin Féminin".
Título em Portugal: "Masculino Feminino".
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Jean-Pierre Léaud, Chantal Goya, Marlène Jobert, Michel Debord.