17 outubro 2014

Resenha Crítica: "Life Itself"

 Para quem se habituou a seguir religiosamente as críticas de Rober Ebert, concordando ou não com o que ele escrevia, e o tinha como um exemplo do que é ser crítico de cinema, é particularmente emocionante assistir a "Life Itself", uma obra capaz de nos levar do riso às lágrimas ao mesmo tempo que nos deixa perante pequenos pedaços sobre a sua vida. Baseado na auto-biografia "Life Itself: A Memoir", o documentário acompanha os tempos iniciais de Roger Ebert no "The Daily Illini" em Illinois, passando pela sua mudança para Chicago onde se deu a sua entrada no Chicago Sun-Times, um jornal no qual passados seis meses assumiu a função de crítico, bem como o seu programa com Gene Siskel e a rivalidade entre ambos, com "Life Itself" a traçar um fresco relevante sobre um dos nomes que ajudou a popularizar a crítica cinematográfica (foi o primeiro crítico a receber um Pulitzer). Preenchido por vídeos caseiros, imagens de arquivo dos programas de Roger Ebert, depoimentos de elementos como Martin Scorsese, Werner Herzog, Ava DuVernay, A.O.Scott, Jonathan Rosenbaum, Chaz Ebert, bem como cenas filmadas para o documentário poucos meses antes do falecimento do crítico, "Life Itself" consegue dar-nos uma visão geral sobre Roger Ebert como crítico de cinema, como bom marido e um ser humano com uma capacidade acima da média para ver mais além, apesar de não descurar alguns elementos menos positivos do crítico. Veja-se os problemas com o álcool, as "turras" com Gene Siskel, o seu mau gosto a escolher as mulheres durante a juventude (descobrimos até que recorreu aos serviços de uma prostituta), bem como as complicações a nível de saúde, nomeadamente o cancro na tiroide (diagnosticado em 2002). A sua saúde foi-se deteriorando, com este a ficar sem voz, sem poder comer e ingerir líquidos, acabando por falecer em 2013. Muitos teriam ido abaixo com enorme facilidade, Roger Ebert manteve ao longo de vários anos o seu amor pelo cinema e pela escrita cinematográfica, elaborando textos capazes de chegar a um público alargado, sem que isso o obrigasse a um simplismo exagerado, criando uma estranha relação de afinidade com o leitor. A certa altura do documentário, encontramos Roger Ebert a debater com Gene Siskel sobre o facto do primeiro ter dado thumbs up a "Benji the Hunter", um filme que o segundo detestou, com o parceiro de programa a contestar que ele não gostou de "Full Metal Jacket" mas apreciou um filme inferior. Roger Ebert logo fez questão de salientar a diferença de géneros entre os filmes e os seus objectivos. Se a escrita das críticas de Roger Ebert conseguia facilmente captar a nossa atenção, já esta sua capacidade de avaliar os filmes consoante os diferentes géneros é algo que sempre me cativou neste crítico, não tendo problemas em dar nota positiva a um filme devastado pelos seus colegas de profissão, desde que acreditasse no mesmo. Diga-se que até foi um dos grandes defensores de "Bonnie & Clyde" quando o filme não os tinha (daí Steve James ter seleccionado esta crítica e realçado a mesma), tendo ajudado a carreira de realizadores como Errol Morris e Steve James com as suas críticas, para além de ter formado amizade com elementos como Martin Scorsese, Ramin Bahrani, entre muitos outros. Estas amizades criadas por Roger Ebert e o facto deste conhecer boa parte dos elementos do meio em que se encontrava conduziu a que fosse questionado se manteria o seu pragmatismo nas avaliações, algo que é logo desmentido quando encontramos este a criticar negativamente "The Color of Money" de Martin Scorsese.

 Nem se pode falar de populismo. Veja-se a já citada crítica negativa a "The Color of Money", tal como a "The Blue Velvet" e até a "The Usual Suspects", bem como as críticas positivas a filmes que muitos detestaram como "Richie Rich". Mais do que pensar na opinião dos outros, Roger Ebert procurava dar a sua, exibindo uma independência de opinião fora de qualquer vício, estereótipo ou preconceitos, mesmo que isso não agradasse a todos. A presença de Siskel, crítico no Chicago Tribune e rival de Ebert, no programa "Siskel & Ebert & Movies", era um excelente contraponto, com ambos a formarem uma relação de respeito mútuo ao longo do tempo, conseguindo uma influência que raros críticos conseguiram junto do público, exibindo de forma paradigmática que ambos não precisam de estar completamente afastados, apesar da rivalidade e da arrogância que por vezes ambos apresentavam, bem pelo contrário. O documentário conta ainda com vários momentos das gravações do programa, nos quais estes exibiam alguma animosidade, mas também capacidade de brincarem com os defeitos de cada um, proporcionando alguns momentos de humor a uma obra equilibrada no que diz respeito aos momentos de maior dramatismo da vida de Roger Ebert, com os de maior felicidade. É certo que "Life Itself" não nos exibe todos os elementos da vida de Roger Ebert, mas nem por isso deixamos de ficar perante um retrato geral daquele que foi e é uma das grandes referências a nível da crítica cinematográfica. Culto, sagaz a ler e analisar os filmes, Roger Ebert procurava juntar essa sapiência a uma capacidade de chegar aos leitores, quase sempre sem ser arrogante, embora também tivesse os seus momentos de maior acidez, algo visível em livros como "Your Movie Sucks", onde este reúne várias críticas negativas. "Life Itself" não poupa ainda nos momentos de Roger Ebert no hospital, já quando se encontrava internado, e a importância de Chaz na sua vida, uma mulher com quem casou aos cinquenta anos de idade e parece ter trazido uma nova luz à sua existência. Passou a ter uma família e companhia, embora os filmes fossem a sua grande paixão, algo visível quando mesmo praticamente nos seus últimos dias continuava a escrever e a ver obras cinematográficas com um prazer que muitos críticos mais jovens não parecem apresentar. O filme procura ainda exibir as polémicas geradas sobre a popularidade de "Siskel & Ebert & Movies", tais como um texto escrito por Richard Corliss no Film Coment onde este considerava que o programa vulgarizava e arruinava a crítica, ao mesmo tempo que aborda levemente a relevância de críticos como Andrew Sarris e Pauline Kael, embora o foco principal seja sempre Roger Ebert. Temos ainda a incursão de Roger Ebert como argumentista, nomeadamente em "Beyond the Valley of the Dolls", uma obra que causou reacções bastante variadas, naquela que foi uma das poucas incursões do crítico de cinema na escrita de argumentos, com as explicações para a sua colaboração com Russ Meyer a serem bastante variadas. O documentário está longe de apresentar uma estrutura inovadora, embora nunca nos minta no seu objectivo de apresentar a Roger Ebert e expor esta figura maior do que a vida, capaz de lutar contra as adversidades, apaixonado pelo cinema e por Chaz, sendo visível a simpatia de Steve James em relação ao elemento retratado. Existe muito mérito de Steve James na escolha do material para colocar no documentário. Desde a juventude de Roger Ebert, passando pela sua chegada à crítica cinematográfica e o seu entusiasmo a cobrir as edições do Festival de Cannes, para além da popularidade do seu programa com Siskel, até à sua capacidade de lutar contra uma doença que o privou de algumas das suas capacidades, Steve James consegue utilizar habilmente o material que tem à disposição e traçar-nos um retrato interessantíssimo sobre este influente crítico de cinema. Do sorriso sincero às lágrimas, "Life Itself" consegue não só apresentar-nos a vários elementos que tornaram Roger Ebert tão reconhecido como crítico, mas também ao ser humano com os seus defeitos e virtudes, naquele que é um documentário praticamente obrigatório para quem gosta de Cinema e de crítica cinematográfica.

Título original: "Life Itself".
Realizador: Steve James. 

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