02 outubro 2014

Resenha Crítica: "L'Année dernière à Marienbad" (O Último Ano em Marienbad)

 As memórias. Algumas guardamos com o maior pormenor. Outras vão-se diluindo com o passar do tempo. Outras parecem ter sido completamente esquecidas. Outras até poder-nos-emos relembrar quando passamos por determinado local ou nos deparamos com alguém conhecido do nosso passado. Em comum: todas são guardadas a partir do nosso ponto de vista pessoal. Em "L'Année dernière à Marienbad", Alain Resnais volta a abordar questões ligadas à história e à memória, um pouco como tinha feito em "Hiroshima Mon Amour", mas de forma ainda mais enigmática. A cinematografia contribui para alguns planos memoráveis, tais como o momento em que a protagonista se encontra a observar o jardim da mansão, mas também para expor o cenário primordial: a mansão barroca e os seus jardins onde se desenrolam maioritariamente os acontecimentos deste filme, cuja atmosfera parece saída de um sonho, no qual um homem contacta uma mulher numa festa e diz que se encontraram no ano anterior em Frederiksbad, ou talvez em Marienbad. Ela não se recorda dos acontecimentos, embora aparente no seu rosto uma mescla de vazio e incómodo que nos deixa perante uma certa desconfiança em relação à veracidade das suas palavras. Ele procura recordá-la dos encontros que tiveram, sejam estes a observarem o jardim, seja a falarem sobre o significado de uma estátua e dos nomes, seja longe dos convidados que se encontravam na festa, seja na intimidade do quarto da mesma. Esta mansão onde se encontram temporariamente instalados é luxuosa mas nem por isso deixa de parecer algo fria, marcada por paredes de mármore, colunas de enorme dimensão, vários espelhos (algo que proporciona cenas magníficas como o protagonista a olhar para a mulher que desperta o seu interesse e nós a vermos a mesma através do espelho), gentes de vários locais, aparentemente abastadas, enquanto a câmara nos exibe com largos tracking shots este cenário primordial do filme. Diga-se que a mansão é faustosa: Não faltam candelabros de luxo, estátuas, pinturas, corredores labirínticos e de enorme dimensão, mas o que mais nos surpreende são os sentimentos e os diálogos entre a dupla de protagonistas, ou seja, a intimidade entre estes dois. Serão dois conhecidos? Estará o personagem interpretado por Giorgio Albertazzi apenas a pretender conquistar a bela mulher? Será que se está está apenas a fazer de esquecida? Estará esta mulher a recordar-se de um caso de outrora? Terá existido um episódio traumático que a fez perder a memória desses momentos? Esta parece ter um caso com o personagem interpretado por Sacha Pitoeff, um hábil jogador, que supostamente nunca perde e aparenta alguma frieza. Alain Resnais não tem problemas em nos confundir e aos seus personagens, criando um puzzle onde o presente e o passado contrastam, juntam-se e diluem-se. Resnais estimula os nossos sentidos, invade a nossa imaginação, faz com que criemos as nossas próprias teorias sobre estes personagens e este espaço. Estaremos perante um limbo onde gentes sem vida encontram-se a viver das recordações do passado ou apenas perante um casal que teve uma relação efémera e se reencontra passado um ano? Ela disse para se reencontrarem passado um ano, com este a ter numa fotografia uma suposta prova de que estiveram juntos, para além das suas memórias. Cenas do passado e cenas do presente são apresentadas, muitas das vezes sem aviso, enquanto procuramos decifrar quem são este homem e esta mulher, mas também o tempo da narrativa. No final pouco importa e por mais visualizações que se faça de "L'Année dernière à Marienbad" mais este se torna instigante, propenso a despertar a nossa imaginação e sentidos.

Os flashbacks introduzem novos elementos ao filme, mas nem por isso sabemos sempre se estes são verdadeiros. Estamos perante a história do encontro entre o casal a ser contada do ponto de vista do elemento cujo nome nunca sabemos. Estará este a adulterar a história para convencer a mulher aparentemente esquecida a ir consigo? As narrações do personagem interpretado por Giorgio Albertazzi são sublimes e relevantes, com este a descrever-nos o espaço do cenário e aquilo que este significa para si, surgindo como alguém para quem o tempo nada significa e os nomes pouco importam. O actor convence-nos da confiança do seu personagem na possibilidade de já ter estado com a mulher que prende a sua atenção, enquanto a sua colega de elenco atribui uma estranheza capaz de nos fazer duvidar de tudo. Em quem poderemos acreditar? Será que até nas imagens em movimento podemos acreditar? Na mansão vemos largas gentes, por vezes imóveis, por vezes a falar e a jogar. Será Inverno, será Verão, as memórias da dupla de protagonistas nem sempre convergem mas também não divergem na totalidade. Será tudo um sonho? Os sentimentos parecem bem reais, embora a atmosfera criada por Alain Resnais nos remeta exactamente para um sonho. Um sonho que nos hipnotiza, que nos envolve sentimentalmente, que nos cria perguntas e nos remete respostas em aberto. Voltamos a ter a preocupação do cineasta com as memórias, mas também com a história e a forma como quem vive as primeiras pode ter uma percepção diferente da segunda, com Alain Resnais a jogar também com a percepção do tempo, utilizando flashbacks e repetições, numa obra que nem sempre parece ter sido feita para ter sentido. Ou melhor foi feita para ser sentida e não para ter um só um sentido. Não é uma narrativa completamente linear, não é algo que nos permita sair da sala de cinema a falar sobre a história mas sim a arrebatar-nos com tudo o que acabámos de ver e queremos voltar a ver. Existirá amor entre a dupla? Será uma relação adúltera? Será que se conhecem? Estão vivos? Serão as memórias de X verdadeiras ou estarão adulteradas pela passagem do tempo ou uma possível mentira? Tantas perguntas que a certa altura deixam de parecer interessar e começam a sucumbir ao prazer de nos deleitar perante a forma como o filme instiga os nossos sentidos e qual canto da sereia nos prende até ao seu interior. As cenas do casal são memoráveis, os diálogos marcados por algum existencialismo e poesia, enquanto os planos são de uma perfeição singular, marcados por alguma simetria e enorme beleza. "L'Année dernière à Marienbad" volta ainda a comprovar a relevância de Alain Resnais para a Sétima Arte, construindo uma obra a preto e branco, onde um homem e uma mulher falam sobre o passado e o presente, a banda sonora é marcada por ritmos de piano (e não só), enquanto aos poucos vamos sendo hipnotizados para esta obra-prima. O próprio guarda-roupa dos personagens é marcado por algum luxo, exibindo a classe alta dos elementos que habitam nesta espécie de limbo, ao mesmo tempo que vamos procurando discernir o que aconteceu ao casal de protagonistas. Esta supostamente prometeu um reencontro um ano depois, mas os acontecimentos podem não ter sido tão agradáveis como o protagonista pensa, bem pelo contrário, com um episódio negro a ficar expresso com alguma subtileza, enquanto o argumento de Alain Robbe-Grillet sobressai imenso.

Alain Robbe-Grillet escreveu tudo com enorme detalhe, especificando os locais onde deveriam estar os elementos da decoração, os movimentos da câmara, os cenários (contribuindo para a sua geometria), criando os personagens, embora Alain Resnais tenha efectuado algumas alterações. Resnais contou com um conjunto de colaboradores de peso, que contribuíram e muito para o primoroso resultado final deste filme. Veja-se o trabalho de montagem de Jasmine Chasney e Henri Colpi, capaz de exacerbar esta confusão entre o passado e o presente, repetindo episódios, contribuindo para algum do surrealismo do filme. Aos poucos vamos começando a perceber que nem tudo pode ter corrido bem entre estes dois personagens, com o filme a ter gerado diversas interpretações, com a de Peter Bradshaw a parecer fazer algum sentido: "Perhaps, 50 years on, it is time to consider a straightforward psychological realist explanation: last year, their flirtation escalated into something shocking and transgressive – this man raped the woman, and both have gone into amnesiac shock and denial". Pode ser verdade e pode não ser. O que parece ser verdade são as tentativas do protagonista em convencer a sua interlocutora que há um ano combinaram reencontrar-se, com esta a tê-lo recebido no seu quarto. Esta não se acredita, enquanto este procura a todo o custo relembrá-la dos episódios que supostamente terão acontecido. É um jogo que se constrói entre ambos, enquanto o jogador, suposto marido dela, se encontra secundarizado mas não esquecido. Enquanto isso a mansão permanece imóvel, palco desta história, ricamente ornamentada, mas nem por isso menos fria, ao mesmo tempo que o espectador se deixa inebriar pelo enredo e Alain Resnais procura criar algo de único. É praticamente impossível definir "L'Anée dernière à Marienbad" num único género, com o cineasta a criar uma obra de arte algo abstracta, pronta a transgredir "regras", embora nos faça despertar sentimentos como poucos filmes conseguem. Passado e presente unem-se e desencontram-se, juntam-se e separam-se, com as cenas de outrora a conjugarem-se com as do presente e a deixarem-nos perante dois protagonistas enigmáticos, enquanto Alain Resnais diverte-se a estimular as nossas sensações.

Título original: "L'Année dernière à Marienbad".
Título em Portugal: "O Último Ano em Marienbad".
Realizador: Alain Resnais.
Argumento: Alain Robbe-Grillet.
Elenco: Delphine Seyrig, Giorgio Albertazzi, Sacha Pitoëff.

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