14 outubro 2014

Resenha Crítica: "Kill the Messenger" (Matem o Mensageiro)

Se é verdade que algumas obras cinematográficas oriundas dos EUA surgem marcadas por patriotismo exacerbado e até algum jingoísmo, tal como o recente "Lone Survivor", também é certo que Hollywood não tem problemas em abordar temáticas melindrosas do passado yankee. Veja-se o caso do magnífico "All the President's Men" de Alan J. Pakula, ou se quisermos o caso mais recente de "12 Years a Slave" e até "Gone Girl", um dos filmes mais recomendáveis de 2014, que apresenta um tom bastante ácido em relação à sociedade do seu tempo. "Kill the Messenger", o novo filme realizado por Michael Cuesta, um cineasta sobretudo conhecido pela realização de episódios de séries recomendáveis como "Six Feet Under", "Dexter" e "Homeland", embrenha-se num dos vários períodos negros da História dos EUA e da CIA, em plena Guerra Fria. O argumento é baseado em factos reais, tendo sido inspirado nos livros "Kill the Messenger", escrito por Nick Schou, e "Dark Alliance: The CIA, the Contras, and the Crack Cocaine Explosion" de Gary Webb, transportando-nos para os EUA em 1996, onde o autor do segundo livro mencionado iniciou uma perigosa pesquisa para o San Jose Mercury News, um pequeno jornal, após ter descoberto de forma casual que a CIA contribuiu para que traficantes de Nicarágua transportassem droga e armas para o interior dos EUA nos anos 80, tendo em vista a que estas operações permitissem financiar os Contras para estes destronarem a Frente Sandinista de Liberación Nacional. Estávamos em plena Guerra Fria e, da parte dos EUA, tudo parecia valer para evitar a ascensão dos regimes comunistas. Basta recuarmos para a célebre frase de Franklin D. Roosevelt, em 1939, ainda antes da Guerra Fria, onde este se referiu a Antonio Somoza, um ditador de Nicarágua, da seguinte forma: "Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch". E esta foi em parte a política dos EUA na Guerra Fria, com "Kill the Messenger" a contrastar os momentos iniciais onde encontramos imagens de arquivo com o Presidente Nixon e o Presidente Ronald Reagan a discursarem contra o tráfico e consumo de droga, enquanto a CIA se encontrava a permitir a entrada da mesma no país para financiar as operações dos Contras na Nicarágua. Diga-se que o discurso de John Kerry efectuado em 1989, a corroborar alguns dos factos expostos por Gary Webb, abre outra polémica, com o filme a não ter problemas em expor um lado mais opressor desta agência de segurança e como os seus "tentáculos" permitiam e permitem que cometesse e cometa ilegalidades, mas também a continuação da entrada de droga e armas nos EUA. No caso, o filme acompanha a história de Gary Webb (Jeremy Renner), um jornalista impertinente de pequena monta que é contactado por Coral Bacca (Paz Vega), a decotada esposa de Rafael Cornejo (Aaron Farb), um traficante que se encontra a ser julgado, embora uma das testemunhas de acusação seja Danilo Blandon (Yul Vasquez), um elemento ligado dos Contras que ganha a vida nas negociatas com a droga e venda de armas para o interior dos EUA, que opera impunemente no país e tem testemunhado contra colegas de profissão.

Blandon tem colaborado com a CIA nestas negociatas e recebido o apoio desta agência de segurança, uma situação novamente abordada quando Rick Ross (Michael K. Williams), um elemento que colaborou com o primeiro, é julgado e mais uma vez Gary Webb consegue travar Russell Dodson (Barry Pepper), o advogado de acusação que pretende deter o personagem interpretado por Michael K. Williams. Por sua vez, o personagem interpretado por Yul Vasquez é obrigado a divulgar alguns dos pormenores das suas negociatas, enquanto Gary Webb procura ir a fundo na sua investigação, uma situação que lhe vai causar alguns problemas a nível familiar e na redacção. Inicialmente Gary até é apoiado por Anna Simons (Mary Elizabeth Winstead), a sua editora, uma mulher aparentemente compreensiva, tendo nesta história aquele que pode ser o grande furo da sua carreira e elevar o estatuto deste pequeno jornal. Gary desloca-se até uma prisão do Nicarágua para se reunir com Norwin Meneses (Andy Garcia), um indivíduo que confirma estes negócios sujos que permitem a entrada de cocaína nos EUA, em particular a partir de Los Angeles, algo que permite a obtenção de fundos para financiar a causa dos Contras e imiscuírem-se no Governo local. Aos poucos, Gary percebe que a sua jornada não vai ser fácil, concentrando na sua pessoa a obstinação de Bob Woodward e Carl Bernstein, exibindo paradigmaticamente para que deve servir o jornalismo de investigação, procurando lutar contra tudo e contra todos para provar uma realidade negra da CIA e dos EUA. Este publica "Dark Aliance: The Story Behind the Crack Explosion", um artigo com três partes, no qual, tal como o título indica, expõe a aliança negra entre a CIA e os traficantes para que estes últimos vendessem crack nos EUA, algo que permitia a obtenção de fundos para financiar as operações dos Contras em Nicarágua, para além de exibir algumas das razões para o aumento do tráfico de droga no país. Jeremy Renner tem em Gary Webb um dos grandes papéis da sua carreira, transmitindo o espírito lutador, impertinente e até algo insolente do seu personagem, bem como os seus fortes valores morais e a procura de respeitar o trabalho do jornalismo, mesmo que isso custe a sua reputação e até a sua vida. Aos poucos começa a entrar em paranoia, temendo aquilo que pode acontecer-lhe e à sua família, embora nem por isso perca determinação, tendo nos colegas de profissão mais inimigos do que aliados. O filme conta ainda com um conjunto de elementos secundários que enriquecem o enredo, tais como Andy Garcia (finalmente regressa a um filme acima da média), Ray Liotta (o mesmo caso de Andy Garcia), Michael Sheen, Oliver Platt, Barry Pepper (um actor que já merecia mais destaque), Mary Elizabeth Winstead, entre outros que exibem a capacidade de Michael Cuesta em reunir um elenco de peso, embora quase tudo gravite em volta do personagem interpretado por Jeremy Renner, algo que acaba por tirar algum peso aos restantes elementos e aos respectivos personagens a quem dão vida. Michael Cuesta não esconde que Gary Webb é o maior destaque do filme, colocando o personagem a deslocar-se de local em local em busca de informação, até passar a ser o elemento a ser perseguido pela CIA que o quer silenciar, contando ainda com a procura da imprensa dominante em desacreditá-lo (devido aos lobbies não admitirem que um jornalista de um pequeno jornal obtivesse este furo) numa obra marcada por um pendor crítico latente, embora peque bastante pelas constantes mudanças de tom. Ora tenta ser um filme sobre uma investigação jornalística, ora tenta ser um thriller marcado por uma perseguição a um jornalista, ora avança pelo drama familiar, ora tenta ser uma obra que procura efectuar uma crítica aberta ao cinismo dos EUA, ora procura exacerbar a atmosfera de paranoia. Apesar da sua estrutura narrativa bastante convencional, vários personagens secundários não serem explorados e o drama familiar tirar algum peso à investigação do protagonista, "Kill The Messenger" aparece-nos como um bom exemplar da capacidade do cinema em valorizar o trabalho do jornalismo e os seus méritos, mas também de apresentar um tom crítico sobre o passado recente da nossa história.

O drama familiar é colocado para exibir como o passado, marcado por uma infidelidade e a investigação ocorrida no presente, influenciam a vida particular do protagonista, com o argumento a procurar atribuir uma maior densidade ao personagem, embora as cenas familiares por vezes pareçam cortar o ritmo de elementos essenciais, tais como a busca do protagonista por mais informações e a sua queda em desgraça. Rosemarie DeWitt interpreta Susan Webb, a esposa de Gary, procurando dar à personagem a sobriedade que esta tem na narrativa, com o argumento de Peter Landesman e a realização de Michael Cuesta a não conseguirem conjugar bem esta faceta privada com a investigação do protagonista e a perseguição ao mesmo. Percebe-se a tentativa de exibir como esta situação afectava todos aqueles que rodeavam a vida do protagonista e a forma como este se relacionava com os mesmos, mas tira algum fulgor aos restantes elementos do enredo, com Michael Cuesta a procurar mostrar muitos momentos da vida de Gary Webb em pouco tempo. Ganhava mais se exibisse alguns dos elementos mais polémicos sobre Gary Webb, tais como a sua morte, algo apenas mencionado nos momentos finais do filme, embora não deixe de ser caricato que este suicídio tenha resultado de DOIS tiros na cabeça, para além de poder explorar mais a sua apetência para a escrita. Já a investigação é exibida de forma dinâmica, com o personagem a deslocar-se a variados locais e a dirigir-se a diferentes interlocutores, apresentando uma resiliência e sentido de ética elogiáveis, mesmo que isso lhe cause diversos problemas e prometa trazer graves repercussões à sua vida. Entre os problemas conhecidos por Gary Webb encontra-se a procura em convencer os elementos da redacção quando a CIA e os restantes elementos da imprensa o procuram desacreditar devido a supostas faltas de provas e algumas testemunhas terem mudado o registo do discurso, com "Kill the Messenger" a transportar-nos para outros tempos do jornalismo, embora não estejamos numa época assim tão distante. "Kill the Messenger" sobressai também nessa procura em evocar a época, desde os carros, passando pelos computadores utilizados e a banda sonora (onde não falta "Know Your Rights" dos The Clash), com o filme a dar-nos um tom "à anos 90", ao mesmo tempo que nos coloca perante um episódio que vários anos mais tarde viria a ser confirmado pela CIA. É apenas um dos episódios negros da História dos EUA, embora seja de elogiar a capacidade de "Kill the Messenger" em efectuar uma crítica latente ao papel da CIA, tendo sempre como centro a figura de Gary Webb. Este é a figura que agita todo o caso, não tendo problemas em aventurar-se por terrenos pantanosos, até por estar num pequeno jornal que ainda não é afectado por lobbies capazes de proteger as infracções da CIA. O protagonista é incrementado pela interpretação de Jeremy Renner, que parece dar tudo o que tem e não tem para dar vida ao personagem, com Michael Cuesta a ser capaz de retirar o que de melhor o actor tem para dar, naquela que é uma frutuosa relação entre realizador e intérprete.

Michael Cuesta e Jeremy Renner já tinham colaborado em "12 and Holding", embora o estatuto de ambos seja bastante distinto nos dias de hoje, com o primeiro a afirmar-se como um competente realizador de episódios de séries televisivas e o segundo a demonstrar a sua capacidade a nível de interpretação em obras como "The Hurt Locker" e "The Immigrant", para além de  ter protagonizado filmes bastante populares junto do público como "Hansel & Gretel: Witch Hunters", embora este último seja tudo menos recomendável. "Kill the Messenger" não recupera apenas a frutuosa relação entre o actor e o realizador. O filme consegue ainda explorar de forma relativamente realista uma investigação jornalística intrincada, um tema capaz de nos dar obras magníficas como "All the President's Men" e "Zodiac", embora apresente um tom bem menos crítico do que filmes como "Salvador" de Oliver Stone. Diga-se que, apesar de criticar a atitude da CIA e exibir a dicotomia entre os discursos políticos e as acções dos EUA, bem como conseguir expor, ainda que de forma superficial, como a imprensa mainstream estava controlada, "Kill the Messenger" podia ir mais a fundo neste seu desiderato, caindo por vezes em demasia na superficialidade a nível da abordagem das temáticas, embora, voltemos a repetir, o fulcro do filme é Gary Webb e a sua persistência em descobrir a verdade. Está longe de ser um elemento perfeito, cometendo alguns erros pelo caminho, algo visível no seu passado com a esposa, com Michael Cuesta a procurar evitar transformar "Kill the Messenger" numa hagiografia, apesar de dotar o seu protagonista de um conjunto de variadas qualidades. O filme beneficia ainda de um trabalho de câmara capaz de atribuir algum dinamismo à obra, algo visível quando esta acompanha nervosamente o personagem nos momentos de maior tensão e paranoia, exibindo todo o vulcão de sentimentos que percorrem a sua alma. Veja-se quando este se encontra na prisão a falar com o personagem interpretado por Andy Garcia, ou quando se encontra no interior do escritório da redacção a lutar pelo seu futuro, bem como pelas salas de tribunal a tentar descobrir informação, ou prestes a receber um prémio que lhe saíra demasiado caro, com "Kill the Messenger" a procurar exibir a vasta miríade de locais percorridos pelo personagem, embora conte com várias liberdades históricas à mistura. Crítico em relação às acções da CIA e elogioso em relação à defesa dos valores do jornalismo do protagonista, "Kill the Messenger" escapa com sucesso às várias convenções que nos apresenta ao deixar-nos perante uma das grandes interpretações da carreira de Jeremy Renner. Regra geral digo que é um actor com talento mas sem grande carisma. Em "Kill the Messenger" calou-me por completo e exibiu o seu valor para a interpretação numa obra que, apesar dos seus convencionalismos, tem o mérito de trazer para a ribalta um caso que pode e deve ser recordado.

Título original: "Kill the Messenger".
Título em Portugal: "Matem o Mensageiro".
Realizador: Michael Cuesta.
Argumento: Peter Landesman.
Elenco:  Jeremy Renner, Ray Liotta, Barry Pepper, Michael Sheen, Andy Garcia, Mary Elizabeth Winstead, Rosemarie DeWitt, Paz Vega, Oliver Platt, Richard Schiff, Michael K. Williams.

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