08 outubro 2014

Resenha Crítica: "Grzeli nateli dgeebi" (In Bloom)

 Apesar do fulcro da narrativa estar nas jovens adolescentes Eka (Lika Babluani) e Natia (Mariam Bokeria), "Grzeli nateli dgeebi" nunca se esquece de nos deixar perante o perturbado período a nível económico, financeiro e social da Geórgia em 1992, ano no qual se desenrola boa parte do enredo. A independência do país dera-se em 1991, com a queda da União Soviética, uma situação que conduziu a uma nova realidade nesta nação, em enorme convulsão política e em notória crise, algo que a dupla de realizadores formada por Nana Ekvtimishvili e Simon Groß consegue introduzir na narrativa de forma surpreendentemente homogénea. No rádio do autocarro onde Eka se encontra ouve-se o locutor a dizer que considera que todos os cidadãos deveriam poder estar armados, não para poderem roubar, mas sim para se poderem defender. Esta situação é exposta logo nos momentos iniciais do filme, com a câmara de filmar a acompanhar esta jovem adolescente de catorze anos de idade, cujo pai se encontra preso, vivendo com a mãe e a irmã mais velha. Eka tem em Natia a sua melhor amiga, frequentando com esta a mesma escola e a mesma turma. Natia vive com os seus pais, a avó e o irmão mais novo. O pai de Natia é um homem alcoólico e violento, uma figura pouco simpática num universo narrativo onde a maioria dos personagens parecem estar fora dos seus limites. Veja-se a sala de aula de Natia e Eka, geralmente marcada pela falta de disciplina e balbúrdia, com "In Bloom" (vamos colocar o título do filme em inglês para facilitar a escrita) a exibir paradigmaticamente que desde os mais jovens aos adultos, algo vai mal. Eka e Natia até se procuram abster de todos estes problemas, uma situação impossível de acontecer se tivermos em linha de conta que todos nós acabamos, bem ou mal, por ser influenciados pelos acontecimentos que rodeiam a vida do nosso país. No caso destas, assistimos ainda à forma como a vida familiar influencia cada uma. Sophiko, a irmã mais velha de Eka, pouco liga à mais nova, passando o tempo livre a fumar e a falar de futilidades com as amigas (embora um diálogo sobre a sexualidade e a forma como a virgindade é encarada antes do casamento pelos homens a permitir expor o conservadorismo latente), sendo que a mãe destas pouco está em casa, enquanto a jovem tem de diariamente ir buscar o pão. A acompanhá-la também está Natia e uma multidão de pessoas necessitadas que procuram furar a fila e não perder o bem alimentar essencial para as suas refeições. Percebemos a crise destes elementos quando dois pães são vistos como essenciais, bem como pelo facto da alimentação nas casas das protagonistas ser pouco variada (veja-se quando Natia salienta estar farta de feijão), para além de dois militares furarem a fila e o racionamento de pães (mais uma vez a dupla de realizadores a encaixar a realidade histórica do país com a das duas personagens).

Natia é alvo do interesse amoroso de Lado (Data Zakareishvili), um jovem pacato, que lhe oferece uma arma para esta se defender, indo partir temporariamente para a Rússia, para ir viver junto do tio, esperando casar com esta quando regressar. A jovem acaba por emprestar a arma a Eka para esta afastar dois bullies que a perseguem, uma ideia que não agrada a esta última, embora mais tarde venha a fazer uso dela. Natia também é alvo das investidas de Kote (Zurab Gogaladze), um jovem algo violento, por vezes acompanhado por elementos pouco recomendáveis. Perante uma nega desta em casar consigo, Kote rapta-a e viola-a (algo que fica subentendido), com esta a acabar por casar consigo, algo que não promete terminar bem. As cenas da festa do casamento entre ambos são marcadas pela procura de Natia em esconder as suas dúvidas em relação aos seus sentimentos por Kote e pela dança libertadora de Eka, naquele que é um dos momentos mais potentes do filme, onde a própria música está ali para dar o significado e não para insuflar um episódio que poderia ser de felicidade, embora desde o início tenha começado mal. A acompanhar este enredo que envolve as duas amigas encontram-se as referências subtilmente colocadas em relação ao contexto do país, que vão desde anúncios na rádio a anunciar um cessar-fogo proclamado em Tskhinvali, a referência ao conflito em Abkhazia (que colocava em conflito os separatistas do território com os elementos da Geórgia), as imagens de líderes na sala de aula, as parcas condições em que vive boa parte dos personagens, a pobreza da população, a incapacidade da lei em ser cumprida, os edifícios degradados, entre vários outros elementos. A agressividade é exposta de forma exemplar no último terço quando um personagem relevante é eliminado por uma mera querela, com a turbulência civil a ficar latente. Diga-se que a própria oferta de uma arma a Natia exibe essa situação, numa obra que procura explorar ainda o quotidiano de duas jovens em transição para a idade adulta. Estão com catorze anos de idade, embora lidem com os problemas dos adultos, com as estreantes Lika Babluani e Mariam Bokeria a darem bem conta do recado. Lika Babluani como esta jovem aparentemente mais frágil, que tem de lidar com a perseguição de dois bullies, formando uma amizade bem mais forte com Natia do que aquela que forjou com a sua irmã. A personagem interpretada por uma surpreendente Mariam Bokeria aparenta ser mais destemida e independente, pronta a cuidar do seu irmão e pretender alguma independência, apesar de tomar uma opção que se vai revelar desastrosa. Estas ainda são duas crianças. É verdade que a idade aponta para catorze anos, mas estas lidam com demasiados problemas de enorme dificuldade para os adultos, quanto mais para alguém das suas idades, numa sociedade patriarcal, onde o papel da mulher parece demasiado submetido ao do homem.

 Nesse sentido, é com agradável surpresa que encontramos "Grzeli nateli dgeebi" a colocar-nos perante vários elementos da sociedade, cultura, economia do seu país em 1992, naquela que foi uma época conturbada na Geórgia e um ano marcante para estas duas protagonistas que procuram formar as suas identidades como mulheres, mesmo que para isso tenham de correr alguns riscos. Veja-se Eka a fumar o seu primeiro cigarro, a brincar com Natia e as colegas, com o filme a não descurar também o relacionamento entre os mais jovens, ao mesmo tempo que nos expõe a um território a passar por problemas que não são "virgens" a nações que (re)ganharam a sua independência. A cinematografia contribui para esse realismo, com a cidade de Tbilisi - onde se desenrola o enredo - deste período a ser exposta com algum desencanto por Oleg Mutu (colaborador habitual de Cristian Mungiu), onde uma violação parece ser encarada com normalidade e o crime é rotina diária, contrastando com o brilho destas duas jovens. Eka e Natia até apresentam diversas diferenças a nível de personalidade, algo que não as impede de formarem uma sólida amizade, enquanto a sua nação se encontrava em plena Guerra Civil. Parte dos elementos do filme são baseados nas memórias de Nana Ekvtimishvili, algo salientado no press kit do filme: "The story is inspired by Nana’s personal memories of her youth in the troubled early 1990s in Georgia. We thought about the relation between young people and the time and cultural context in which they live. For us, this film was a journey into the past and present and a look into tomorrow. What can be considered part of a culture and where is the limit after which culture can no longer justify certain behaviours?...". Nana Ekvtimishvili e Simon Groß conseguem com alguma inteligência expor-nos às convulsões deste período na Geórgia, através de duas jovens com personalidades em formação, numa história marcada e filmada com algum realismo, onde existe muito pouco espaço para a nostalgia. O resultado final é uma lufada de ar fresco em relação aos vários filmes sobre adolescentes que abundam pelo mercado cinematográfico recente, com "In Bloom" a ser uma agradável surpresa, sobressaindo pela realização da dupla formada por Nana Ekvtimishvili e Simon Groß, a inteligência do argumento e as surpreendentes interpretações de Lika Babluani e Mariam Bokeria.

Título original: "Grzeli nateli dgeebi".
Título em inglês: "In Bloom". 
Realizadores:  Nana Ekvtimishvili e Simon Groß.
Argumento:
Nana Ekvtimishvili.
Elenco: Lika Babluani, Mariam Bokeria, Zurab Gogaladze, Data Zakareishvili, Ana Nijaradze, Maiko Ninua.

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