13 outubro 2014

Resenha Crítica: "Frank" (2014)

 Lenny Abrahamson convida-nos a entrar no peculiar mundo dos Soronprfbs, um grupo musical composto por gentes algo deslocadas da sociedade do seu tempo, onde não faltam integrantes que estiveram internados devido a problemas do foro mental, um elemento com características suicidas e uma mulher violenta. O grupo é liderado por Frank (Michael Fassbender), o vocalista, um elemento que utiliza uma cabeça em papel machê para esconder o seu rosto de tudo e de todos. Este é alvo da atenção de Clara (Maggie Gyllenhaal), uma mulher algo agressiva, com uma personalidade vincada, que toca teremim. Frank e Clara são os dois elementos em maior destaque na banda, bem como Don (Scoot McNairy), um integrante do grupo que também funciona como manager do mesmo. O grupo conta ainda com Nana (Carla Azar), a baterista, e Baraque (François Civil), o baixista, tendo perdido recentemente o seu teclista quando o mesmo se tentou suicidar, um evento que vai beneficiar Jon (Domhnall Gleeson), um aspirante a músico que trabalha num escritório. Jon tem como passatempo compor músicas e divulgar boa parte do seu quotidiano pouco memorável no Twitter, assistindo à tentativa de suicídio do teclista dos Soronprfbs, acabando por acaso por meter conversa com Don, que o contrata para participar num espectáculo. O grupo vai tocar num bar barato, com as letras das suas músicas a não fazerem muito sentido e o público alvo a parecer estar demasiado alcoolizado para ligar ao significado das mesmas. Algum tempo depois, Don convida Jon a seguir com o grupo até à Irlanda, tendo em vista a passarem uns dias isolados numa casa para gravarem um disco, algo que se vai revelar uma experiência quase transcendental e demorada, marcada por algum drama, humor, desorganização e bizarria, onde estes elementos exibem de forma paradigmática toda a sua estranheza. O espaço que rodeia a casa é verdejante, embora inicialmente tudo nos seja apresentado com cores algo esbatidas e luz bastante discreta, que contrastam com as "coloridas" personalidades dos elementos do grupo. Jon fica a conhecer gradualmente os elementos do grupo, parecendo dar-se melhor com Don e Frank, tendo em Clara uma estranha opositora. Quando a banda está prestes a ser despejada devido a não ter dinheiro para pagar o aluguer da casa, Jon decide utilizar o "pé de meia" que o seu avô lhe deixara, tendo em vista a que o grupo conseguisse gravar o disco. Onze meses depois quase tudo continua por fazer e os elementos dos Soronprfbs parecem ter atingido o limite, embora os vídeos dos ensaios que Jon publica no Youtube e divulga através do Twitter tenham colocado a banda no radar do público. Esta atenção conduz a que o grupo seja convidado para tocar no South by Southwest, um festival que os pode finalmente alçar ao sucesso, embora não agrade a todos os elementos da banda. Estes encontram-se algo à parte da sociedade, parecendo ter-se apenas a si próprios como amigos, vivendo um conjunto de experiências ao longo desta jornada duradoira para gravar um cd. Será que elementos como estes, habituados a espaços pouco conhecidos e pouco dados aos holofotes da fama, conseguem lidar com o público em massa? Frank até parece apresentar algum entusiasmo a nível inicial, mas este é o paradigma da bizarria que rodeia o grupo, com Michael Fassbender a destacar-se na forma como utiliza o corpo para exprimir os sentimentos do seu personagem.
 
A máscara que este utiliza exibe paradigmaticamente a procura de Frank em não se expor perante os outros, a sua latente falta de confiança e os problemas mentais que esconde, parecendo ainda procurar o seu "verdadeiro eu". Em certa medida não deixa de ser interessante verificar como Lenny Abrahamson procura esconder a face de um dos nomes mais rentáveis do elenco do filme, ao mesmo tempo que nos deixa perante um músico que pretende efectuar o disco perfeito, embora não queira que o seu rosto seja conhecido. Num panorama musical actual onde elementos como Miley Cyrus procuram ao máximo exibir o corpo e ter uma postura parecida a praticantes de uma das mais antigas profissões do Mundo livres de impostos, "Frank" procura deixar-nos perante o oposto: um cantor que não quer ser conhecido. O seu rosto é um enigma para os elementos da banda e para os espectadores, com o filme a contrariar a ideia do culto da celebridade, procurando antes exibir um vocalista que quer apenas cantar e compor músicas. Frank foi livremente inspirado em Frank Sidebottom, um personagem/alter-ego criado por Chris Sievey, uma figura relativamente conhecida em Inglaterra, tendo privado com Jon Ronson, um dos argumentistas do filme. Michael Fassbender tem uma das grandes interpretações do ano como este personagem, embora praticamente não vejamos o seu rosto, elevando um personagem bizarro e criativo, cujos actos nem sempre compreendemos mas procuramos seguir com atenção, existindo um enorme mérito no trabalho do actor e do realizador em conseguirem compelir-nos a querer acompanhar esta estranha e enigmática figura que procura desafiar as barreiras da música. A par de Michael Fassbender, outro dos elementos do elenco que mais se destaca é Domhnall Gleeson, como este jovem que parte em busca de um sonho embora muitas das vezes tenhamos algumas dificuldades em perceber bem por que é que se manteve no grupo, tendo em conta que as suas opiniões pouco ou nada são seguidas e a desorganização colectiva parece não levá-los a lado nenhum. Por um lado o fascínio que Frank lhe causa pode ajudar a explicar um pouco esta manutenção, mas parece algo frágil para nos acreditarmos totalmente nesta explicação, apesar de parecer ser certo que sozinho também não parece ir a lado nenhum. O actor é capaz de exprimir o cansaço do seu personagem, mas também alguma incapacidade do mesmo em se impor e até em mostrar a sua criatividade (ou falta dela), apesar de ser o elemento mais ambicioso do grupo. Veja-se quando procura chamar à atenção dos seus seguidores do Twitter através dos vídeos colocados no Youtube, mas também a procura em que a banda fique conhecida, algo que não é de todo o desejo dos elementos que integram a mesma, existindo uma dicotomia latente de valores no interior dos integrantes da banda. Todos os elementos apresentam um notório fascínio pela música, embora Lenny Abrahamson não tenha problemas em explorar as idiossincrasias existentes entre os principais constituintes do grupo musical. Maggie Gyllenhaal também se destaca no elenco como a impulsiva Clara, uma mulher fiel aos seus valores, procurando fugir ao mercado mainstream, ao mesmo tempo que parece nutrir sentimentos amorosos por Frank. Também Scoot McNairy tem espaço para sobressair como um indivíduo deveras estranho, com fetiche por manequins que enfeitam as lojas, que a espaços até forma amizade com Jon, mas os seus instintos suicidas podem levá-lo ao abismo. Já Carla Azar e François Civil pouco conseguem brilhar, com o argumento a não dar espaço para que fiquemos a conhecer bem ambos os elementos, para além de pouco ou nada os conseguir fazer evoluir ao longo da narrativa.

A presença do grupo na casa, em Vetno, isolada de tudo e todos, exibe bem a bizarria destes personagens, por vezes a parecerem saídos do meio dos Velvet Underground, com cada um dos elementos da banda a ter maiores peculiaridades do que o outro, algo que os torna especiais. Apesar do final pouco satisfatório e da sua incapacidade em explorar devidamente alguns dos elementos e temáticas que apresenta, Lenny Abrahamson consegue criar uma obra peculiar, capaz de despertar o nosso interesse no difícil processo de fruição criativa deste grupo que parece encontrar-se em terapia contra os seus fantasmas interiores, tendo na música um elemento para soltar a solidão que percorre as suas almas. Não parecem destinados a grandes sucessos, nem parecem pretender este desiderato, tocando para pequenos espaços e diminutos grupos de pessoas, tal como Lenny Abrahamson não parece disposto a efectuar grandes concessões em relação ao espectador, elaborando uma obra muito própria, deixando-nos perante os desejos, inseguranças e valores dos seus personagens. Pelo meio temos muita música, mas também alguma camaradagem, com Jon a procurar convencer Frank a assumir uma postura mais comercial, embora a maior abrangência deste não seja propriamente aquilo que poderá agradar a um público mais alargado. A música tem um papel importante no filme, mas "Frank" concentra-se acima de tudo nos problemáticos elementos que integram o grupo, nos laços que criaram ao longo do tempo da narrativa, nos seus dramas pessoais, embora não falte algum humor, num território da Irlanda pouco solarengo, onde uma casa é palco dos mais estranhos episódios. É neste espaço e ao seu redor que o grupo procura criar sons para utilizar no disco, compor e gravar as músicas, ao mesmo tempo que se vai conhecendo cada vez mais, com Jon a ser o elemento que se procura integrar no interior deste bizarro mundo algo à parte de tudo o resto. Este é um utilizador bastante activo do Twitter, com "Frank" a abordar a relevância das redes sociais para a divulgação dos grupos musicais menos conhecidos, permitindo que os Soronprfbs cheguem a um grupo alargado de pessoas, mesmo que as razões por vezes sejam extra-musicais. Os Soronprfbs parecem pouco dispostos a abdicar dos seus ideais musicais, tal como Lenny Abrahamson não procura fazer cedências, criando um filme marcado por personagens e um enredo nem sempre envolventes, mas capazes de despertar à atenção pela estranheza que rodeia os seus quotidianos. São personagens algo à parte da sociedade que procuram cumprir os seus sonhos, que têm alguns problemas, sejam estes mentais, pessoais ou até de confiança e de personalidade, com Lenny Abrahamson a dar espaço a estes indivíduos que apenas querem ser felizes a fazer aquilo que mais gostam: cantar e tocar instrumentos musicais, compondo sobre aquilo que lhes vai na alma sem pensarem em agradar ou chegar às massas. Pronto a abraçar a estranheza dos seus personagens, "Frank" nem sempre consegue que nos interessemos pelos mesmos como Lenny Abrahamson, embora estejamos perante uma obra cinematográfica invulgar, marcada por algum drama, humor e música, onde a diferença é elogiada e respeitada. Não é dos casos em que inicialmente se estranha e depois se entranha, mas nem por isso nos repele.

Título original: "Frank". 
Realizador: Lenny Abrahamson.
Argumento: Jon Ronson e Peter Straughan.
Elenco: Domhnall Gleeson, Maggie Gyllenhaal, Scoot McNairy, Michael Fassbender.

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