22 outubro 2014

Resenha Crítica: "Braveheart" (1995)

 Com muitas liberdades históricas à mistura, "Braveheart" é a prova paradigmática do enorme talento de Mel Gibson para a realização e interpretação, surgindo como um épico que remete para os grandes clássicos do género, onde a lenda de William Wallace é abordada com um entusiasmo e sentimento raros de ver no grande ecrã. Mel Gibson não poupa nos discursos de efeito e motivadores que funcionam de forma exímia para explorar como William Wallace conseguiu galvanizar as suas tropas maioritariamente compostas por camponeses e enfrentar os ingleses em busca pela independência da Escócia, com "Braveheart" a ancorar este desejo com a morte da amada do protagonista. É a lenda que o filme aborda e não os factos históricos, algo que fica latente logo no início de "Braveheart" quando Robert the Bruce (Angus Macfadyen) nos relata que a história foi escrita por aqueles que "enforcaram os heróis". O filme vai envolver um período temporal balizado entre a juventude de William Wallace e a sua morte, concedendo-nos pelo caminho algum romance, humor para aliviar os momentos de maior intensidade, violência, combates e discursos emotivos que galvanizam os homens ao serviço do protagonista e emocionam o espectador. Esqueçam a parte da resenha crítica no início do texto. "Braveheart" é um filme que não consigo analisar de forma fria. Outrora revia-o quase mensalmente com um fervor de quem apoia o seu clube de futebol. Decidi revê-lo passados uns cinco anos e continuo a ficar arrepiado com o momento em que o personagem interpretado por Mel Gibson grita "Freedom", a sentir um enorme entusiasmo nos discursos sobre a liberdade, com o discurso em Stirling a ser algo de fenomenal. Questiona os seus pares sobre o que fariam sem liberdade. Perante algum receio dos mesmos, William Wallace, num tom emotivo, salienta: "Fujam e viverão. Pelo menos por algum tempo. E moribundos nos vossos leitos, daqui a muitos anos, estariam dispostos a trocar todos os dias a partir de hoje, por uma hipótese, apenas por uma hipótese de voltarem cá e dizerem aos nossos inimigos que podem tirar-nos as nossas vidas mas nunca nos tirarão a nossa liberdade!". O momento é paradigmático de tudo o que funciona. A realização e cinematografia são capazes de dar a noção do grande contingente humano e do espaço que rodeia o mesmo, Mel Gibson tem momentos memoráveis a proferir este discurso, enquanto a banda sonora de James Horner incute um tom épico a uma obra não menos grandiosa. Parece óbvio que Mel Gibson se inspirou em obras como "Spartacus" para elaborar "Braveheart", trazendo-nos à memória a capacidade do personagem interpretado por Kirk Douglas em galvanizar os seus homens, numa obra também muito livremente baseada em factos históricos. No caso de "Braveheart" começamos perante a traição que o Rei Edward "Longshanks" (Patrick Mcgoohan) efectua a um conjunto de nobres escoceses, em 1280 d.C., após a morte de Alexander III da Escócia, eliminando os mesmos de forma fria. O irmão de William é eliminado, tal como será o seu pai, após este último ter participado numa batalha para defender a honra dos escoceses. William fica à guarda de Argyle (Brian Cox), o seu tio, que o leva para França e Roma, onde lhe ensina latim, francês, tácticas militares, ou seja, a utilizar o cérebro antes de saber utilizar a espada. A atmosfera que rodeia a partida é de alguma tristeza. O funeral do pai de William e dos outros é acompanhado por músicas proibidas, num gesto de revolta e desalento, tal como a partida deste é marcada por uma flor oferecida pela jovem Murron, um símbolo de esperança para o jovem órfão.

 A narrativa logo avança alguns anos para o casamento do Príncipe Edward, o filho homossexual do Rei, com Isabella de França (Sophie Marceau), com "Longshanks" a procurar conseguir uma aliança com a França. "Longshanks" revela ainda que reinstituiu o direito de "Prima Nocte", algo que consistia nos seus nobres terem direito a ter a primeira noite com as mulheres escocesas que se casassem. Enquanto os nobres escoceses como Mornay (Alun Armstrong), Lochlan (John Murtagh), Craig (John Kavanagh) e o pai de Robert the Bruce, um dos candidatos ao título de Rei, parecem apenas preocupados em disputar terras, os escoceses continuam sob o jugo inglês. Mel Gibson não pretende grandes complexidades. Os ingleses são uns sacanas do pior, violadores e assassinos, embora também não tenha problemas em expor a agressividade escocesa, apesar do cineasta conseguir jogar connosco a nível emocional a ponto de percebermos a fúria dos segundos. William Wallace regressa a casa num ambiente de algum optimismo e festa, reencontrando Hamish (Brendan Gleeson), um dos seus amigos de infância, bem como Murron (Catherine McCormack), com quem terá um caso amoroso. O reencontro com Amish é marcado por algum humor, com tudo a ser quebrado quando um nobre inglês interrompe um casamento para levar consigo a noiva de um elemento que posteriormente se vai juntar a William Wallace. O momento é de tensão e dor. Pouco tempo depois assistimos ao cortejo de William a Murron, com "Braveheart" a acertar nestes momentos de romantismo. Facilmente nos afeiçoamos a este casal que decide apaixonar-se na altura mais inapropriada. William pretende apenas casar, ter filhos e um lar, ou seja, constituir família e deixar de lado o ímpeto guerreiro pelo qual era conhecido o seu pai. Murron e William casam-se às escondidas, mas um ataque dos nobres ingleses à primeira desperta o lado guerreiro do personagem interpretado por Mel Gibson, com a morte desta a entornar completamente o caldo. Quando se apercebe da morte da amada, William regressa e elabora uma táctica capaz de eliminar boa parte dos ingleses, galvanizando os escoceses à sua volta. Aos poucos, William começa a ser uma lenda para os escoceses que o seguem, bem como o chanfrado irlandês Stephen (David O'Hara), para além de ser uma preocupação para os ingleses e para os nobres escoceses, embora cause efeito em Robert the Bruce que parece apreciar a capacidade galvanizadora do protagonista. A partir daqui assistimos a um conjunto de momentos que estabelecem a dinâmica do grupo que envolve William, bem como a sua incapacidade em lidar com os nobres, com o filme a nunca nos fazer esquecer que o episódio que despoletou tudo foi a morte de Murron. Mel Gibson atribui algum romantismo a uma jornada onde o sangue e a morte surgem presentes, mesclando batalhas violentas e discursos emotivos. As cenas de batalhas, tais como a de Stirling e Falkirk, são marcadas por coreografias prontas a explorar as facetas tácticas mas também de maior desorganização destes embates, com os discursos emotivos e a banda sonora a ajudarem a incutir toda uma maior emoção a uma obra que é completamente controlada por Mel Gibson. Seja a emotividade com que profere os discursos como William Wallace, seja os seus movimentos corporais e faciais a indicarem esta confiança do personagem que interpreta, seja nos momentos de maior romantismo e humor, seja quando o protagonista demonstra desilusão perante a traição de Robert, Gibson tem uma das grandes interpretações da sua carreira naquele que é um filme descrito como resultado da vaidade do cineasta. É uma vaidade feita com competência, colocando boa parte do peso do filme na sua pessoa, criando um épico de três horas que parece ter menos de uma hora, tal a forma fluída com que se desenrola.

 "Braveheart" recupera ainda a tradição de Hollywood em nos dar grandes épicos, marcados pela presença de um conjunto alargado de figurantes, campos de batalha grandiosos, música a preceito, sem recursos a CGI, mas sim a muito sentimento. A violência é imensa ao longo do filme mas sentida. Encontramos elementos do lado inglês a efectuar actos vis, mas também os escoceses a cortarem cabeças, queimarem adversários, com "Braveheart" a expor que a guerra não é algo bonito de se ver, embora seja óbvio que o lado escocês é glorificado ou não estivéssemos perante a lenda de William Wallace. O argumento de Randal Wallace consegue ainda dotar a obra de um conjunto de personagens secundários que facilmente despertam a nossa atenção. Veja-se o caso de Hamish, um elemento algo abrutalhado, com Brendan Gleeson a atribuir a este personagem um feitio bastante peculiar, pronto a apoiar o protagonista. Temos ainda Sophie Marceau como a esposa do herdeiro ao trono, uma mulher forte, que facilmente se deixa conquistar por William, com esta a interpretar uma das personagens femininas em destaque a par de Murron. Apesar do seu pouco tempo na narrativa, Catherine McCormack consegue ter algum relevo no enredo, expressando a fragilidade e candura da sua personagem. Diga-se que o elenco secundário está recheado de interpretações com algum relevo: Angus Macfadyen como Robert the Bruce, um nobre dividido entre os conselhos do pai para ascender ao poder e seguir o idealismo de William Wallace, com o actor a conseguir espelhar essa dúvida; David O'Hara como o excêntrico e meio louco Stephen; Patrick McGoohan como o tirano Edward "Longshanks"; entre outros. Não é procurada a veracidade histórica, mas sim a elaboração de um épico intenso, marcante e inspirador, onde são defendidos valores como a liberdade e igualdade, para além de não faltarem combates variados. Aos poucos assistimos a William Wallace a procurar reunir os clãs, mas também a ter um papel crescente nestes confrontos, variando entre o idealismo e um lado mais selvagem e incontrolável. O argumento coloca a morte de Murron como elemento fulcral para a mudança de comportamento do protagonista, algo visível a partir das cenas de grande violência que se seguem ao assassinato desta numa obra que demonstra ainda um enorme cuidado na escolha dos cenários. Veja-se os cenários montanhosos da Escócia, bem como os enormes campos de batalha (estes filmados na Irlanda), para além do guarda-roupa dos personagens e a caracterização, com Mel Gibson e a sua equipa a procurarem criar uma atmosfera associada à Idade Medieval. No final, um grito: ouve-se liberdade quando todos esperavam um berro por misericórdia. Um arrepio atravessa-nos ao mesmo tempo que um lenço cai e uma vida se esvai. Os sentimentos ficam à flor da pele. Diga-se que boa parte do filme também resulta pela forma como joga com os nossos sentimentos, como consegue que gradualmente nos sintamos inspirados pelos discursos do protagonista, que nos entusiasmemos com os seus feitos e sintamos a sua paixão pela defesa da liberdade, esquecendo por momentos todos os erros históricos (é um filme e não um artigo ou livro de pendor histórico cientificamente conduzido). Inspirador, intenso, violento e apaixonante, "Braveheart" é um dos grandes épicos cinematográficos, uma obra que comprova a valia de Mel Gibson como actor e realizador, naquele que é um dos casos em que o filme e a lenda são melhores do que a própria História real.

Título original: "Braveheart".
Título em Portugal: "Braveheart: O Desafio do Guerreiro". 
Realizador: Mel Gibson. 
Argumento: Randal Wallace. 
Elenco:  Mel Gibson, Sophie Marceau, Patrick McGoohan, Catherine McCormack

Sem comentários: