31 outubro 2014

Resenha Crítica: "The Banquet" (Ye yan)

 Livremente baseado em "Hamlet" de William Shakespeare e "Ghosts" de Henrik Ibsen, "The Banquet" não poupa em cenários requintados, um guarda-roupa vistoso e lutas coreografadas com enorme beleza, enquanto nos apresenta a uma história onde as traições, o amor, a morte e a vingança surgem em doses bastante salientes. Realizado por Feng Xiaogang, "The Banquet" tem como pano de fundo a China durante o final da dinastia Tang, no início do Século X d.C., descrito no filme como o período das "5 Dinastias e os 10 Reinos" devido à enorme convulsão política no território, onde os insurgentes proclamaram os seus próprios reinos. No início do filme somos apresentados a Wu Luan (Daniel Wu), o filho do Imperador, um jovem adulto que decidiu partir devido ao seu pai se ter casado com Wan (Zhang Ziyi), a sua amada. Wu Luan passou a dedicar-se ao teatro, participando num grupo teatral onde estes elementos utilizam máscaras brancas como forma de expressarem as suas emoções pelo olhar. As próprias vestes destes actores são brancas, enquanto o cenário exterior ao local dos ensaios é marcado pela presença de espaços verdejantes e bambus. É então que Wu Luan recebe a notícia de que o pai foi eliminado pelo seu tio, Li (Ge You), que logo assume o título de imperador. A imperatriz envia um conjunto de elementos para avisar Wu Luan, enquanto Li ordena aos seus homens que eliminem o herdeiro. Ficamos inicialmente perante dois planos da narrativa. Num lado temos Li a procura trazer a ambiciosa Wan para o seu lado, embora esta pareça continuar fiel a Wu Luan, com o palácio a encontrar-se rodeado de uma atmosfera de alguma tensão. No outro plano temos os elementos do grupo de teatro a serem eliminados sem apelo nem agravo pelos homens do novo imperador, apesar de Wu Luan conseguir escapar com vida. Nestes combates já encontramos elementos muito típicos dos wuxia, que vão desde as cenas de acção a parecerem autênticos bailados, passando pela procura de explorar elementos históricos de modo algo fantasioso, com as artes marciais a terem grande relevância. As lutas por vezes parecem autênticos bailados, mas a violência e os desfechos destes combates são sentidos, ou não faltasse o sangue a saltar dos corpos a indicar que o final de uma vida pode estar a aproximar-se. Wu Luan regressa ao reino, onde encontra a Imperatriz do lado do novo Imperador e tem à sua espera Qing Nu, a filha do ministro Yin, uma jovem que se encontra apaixonada pelo personagem interpretado por Daniel Wu. Wu Luan sempre pareceu querer afastar-se da vida da corte, mas as circunstâncias obrigam-no ao regresso, sendo um homem das artes e não do combate. O reencontro entre Wu e Wan é marcado por algum ressentimento e noção de que ainda sentem algo um pelo outro, apesar desta ter planos distintos em marcha. A tensão encontra-se ao rubro no palácio, algo visível quando o Governador Pei Hong chama "Imperatriz Viúva" à personagem interpretada por Zhang Ziyi, dando a entender que Li é um usurpador e tudo que se está a passar no reino é um escândalo, com esta nomenclatura a ser recebida com enorme desagrado por parte deste último.

Pei Hong é assassinado de forma cruel, demorada e dolorosa, com todo o seu clã a ser eliminado, enquanto a Imperatriz mantém-se do lado de Li, apesar de contar com uma agenda muito própria. Wu Luan encontra-se em maus lençóis e parece saber disso, sobrevivendo a um plano inicial onde procuram eliminá-lo nos ensaios para o espectáculo da coroação de Wan, até ser enviado para o território dos Khitan, em troca do herdeiro destes, apesar do imperador saber que os elementos do último reino enviaram um mero camponês. O plano de Li passa por Wu Luan ser eliminado durante a viagem, algo que falha devido ao protagonista ser salvo por Yin Sun, o filho do general Yin Taichang. Este último também é pai de Qing Nu, surgindo como um homem cujos ideais parecem andar ao sabor do vento. Perante a suposta eliminação do rival, Li parece sentir-se com confiança suficiente para marcar um banquete (aquele que dá título ao filme) onde devem constar todos os elementos do reino, uma celebração que promete ser o palco ideal para ódios antigos, ressentimentos, traições e planos variados serem colocados em prática. O regresso de Wu Luan é esperado, com o clímax a surgir marcado por excessivas reviravoltas, algo que até tira algum impacto aos acontecimentos, onde nem o protagonista parece completamente livre de perigo. Daniel Wu consegue exibir eficazmente a relutância do seu personagem em assumir todo um papel de maior relevo, embora convença-nos que o mesmo conta com a capacidade para poder organizar a revolução esperada, apesar de por vezes parecer faltar determinação para a colocar em prática. Wu sobressai, mas o maior destaque do elenco é Zhang Ziyi como esta mulher fatal, calculista, sensual, capaz de utilizar o seu corpo para conseguir os seus intentos, pensando nos seus actos atempadamente embora os seus planos também possam ter erros. Vestida maioritariamente de vermelho ou preto, esta guarda um mistério no seu olhar que nos deixa muitas das vezes na dúvida em relação aos seus intentos, embora seja notório que tenha uma enorme sede de poder. Feng Xiaogang consegue aproveitar com alguma eficácia os recursos destes actores para a interpretação, embora o filme conte ainda com vários outros elementos que despertam à atenção. Veja-se Ge You como o ambicioso imperador Li, bem como a muito talentosa Zhou Xun como a frágil Qing, uma mulher que mantém uma relação de enorme proximidade com o protagonista. O argumento de Qiu Gangjian e Sheng Heyu consegue com alguma habilidade explorar alguns dos personagens principais que rodeiam o enredo e os seus relacionamentos intrincados (veja-se o caso do relacionamento problemático entre Wu Luan e Wan), para além de conseguir abordar com alguma eficácia os jogos pela disputa de poder que ocorrem no interior e exterior do palácio, um local onde as emoções se encontram prestes a explodir.

Como salienta um personagem, mais venenoso do que o pior dos venenos só mesmo o coração humano, com o filme a colocar-nos perante um conjunto de personagens cuja ambição parece toldar-lhes os seus sentidos de moralidade, que o digam Li e Wan. Não é apenas o elenco que sobressai ao longo do filme. Feng Xiaogang conta com uma equipa competente na criação deste filme de época. A cinematografia de Zhang Li, Xie Ze e Lam Fai-tai é um desses exemplos, sobressaindo a capacidade de aproveitamento das cores e da iluminação ao serviço da narrativa. O palácio é o melhor exemplo, marcado por cores entre o vermelho e o castanho, com a iluminação a por vezes dar um tom de ocre. Veja-se ainda a cena em que a imperatriz encontra-se a tomar banho numa banheira de largas proporções, rodeada de pétalas vermelhas e brancas, algo que atribui alguma sensualidade ao momento. Os cenários interiores foram elaborados com cuidado, bem como o guarda-roupa, procurando evocar o tom de época, uma situação que vai desde as luxuosas vestimentas da imperatriz, passando pelas armaduras dos soldados e as máscaras dos elementos do grupo de teatro do protagonista. Temos ainda um conjunto de cenas de acção marcadas por coreografias que não surpreendem, mas nem por isso nos desiludem, onde os corpos e as espadas praticamente parecem bailar pelo ar e as emoções são sentidas. Um desses exemplos acontece logo no início quando a trupe do protagonista é atacada, para além da cena na neve onde este supostamente iria para Khitan. Também é certo que por vezes estilo parece sobressair em relação à substância, com Feng Xiaogang a parecer estender em demasia a obra para o argumento que realmente apresenta, por vezes marcado por alguma previsibilidade, bem como uma certa incapacidade de explorar a forma como os restantes elementos do reino se posicionam em relação a todas estas manobras. A própria relação entre Qing e Wu Luan raramente é explorada com a devida eficácia, bem como o relacionamento desta com a família, existindo subtramas que são lançadas mas nem por isso abordadas de forma satisfatória. "The Banquet" não é uma obra propriamente inovadora no interior deste subgénero, nem é a mais elaborada, embora consiga entregar com competência quase tudo aquilo que promete, deixando-nos perante um drama de época mesclado com elementos de artes marciais, onde um reino se prepara para viver períodos de grande convulsão e Zhang Ziyi tem mais uma interpretação de relevo. 

Título original: "Ye yan".
Título em inglês: "The Banquet". 
Realizador: Feng Xiaogang.
Argumento: Qiu Gangjian e Sheng Heyu.
Elenco: Zhang Ziyi, Ge You, Daniel Wu, Zhou Xun.

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