24 outubro 2014

Resenha Crítica: "Bande à part" (1964)

 Jean-Luc Godard tem algum interesse pelos elementos à parte da sociedade. Foi assim em "À Bout de Souffle", com Jean-Paul Belmondo a interpretar um criminoso, foi assim em "Vivre sa Vie" onde tínhamos como protagonista uma mulher que se torna prostituta, sendo que em "Bande à Part", a sua sétima longa-metragem, temos um trio que faz justiça ao título e forma um grupo à parte. Este trio de protagonistas é constituído por Odile (Anna Karina), Franz (Sami Frey) e Arthur (Claude Brasseur). Odile conhece Franz e Arthur durante uma aula de inglês, com estes dois elementos a despertarem a atenção da rapariga. Esta revela que a sua tia Louise esconde um largo conjunto de dinheiro no interior da sua casa, onde se encontra ainda o Sr. Stoltz, uma situação que conduz os outros dois elementos a pretenderem assaltar a familiar de Odile. O dinheiro pertence a Stoltz, que o guarda tendo em vista a fugir aos impostos, um acto que conduz os assaltantes a considerarem o assalto como um gesto de alguma justiça. A personagem interpretada por Anna Karina é algo ingénua e romântica, chegando até a relutar se deve ou não participar no crime, mas acaba por ceder aos intentos destes dois elementos, iniciando ainda um relacionamento com Arthur, após os rapazes terem combinado tentar conquistar Odile. Estes três formam um trio algo invulgar. Odile não parece saber bem o que pretende da vida, dizendo que não gosta de cinema, de teatro, das avenidas, que não quer ser enfermeira (algo que a tia pretende que esta siga), embora saliente que aprecia a natureza. Franz e Arthur são fãs dos filmes de série b dos EUA, gostam de imitar os mesmos, enquanto apresentam poucos escrúpulos. Godard esboça uma espécie de triângulo amoroso entre estes personagens, embora pareça não estar muito interessado em explorar ao máximo o mesmo, tal como não parece estar disponível para centrar todas as atenções no assalto, procurando concentrar-se nos pequenos momentos, na poesia, na música, na literatura (até "Romeu e Julieta" de William Shakespeare é citado), explorando as dinâmicas deste grupo que se prepara para um acto que promete mudar as suas vidas. O assalto parecia ter tudo para dar certo, algo que não acontece, com estes a prepararem-se para encontrar algumas adversidades pelo caminho. Godard cria alguns momentos icónicos com estes personagens. Veja-se quando dançam ao som da música colocada na jukebox, num café onde apenas estes se encontram a movimentar-se. Mostra a irreverência destes elementos, o seu gosto pela cultura popular, mas também o quão estão isolados, vivendo momentos à parte da restante sociedade, gozando de uma certa inconsequência juvenil, enquanto eles próprios não parecem apresentar uma união a toda à prova (veja-se como no final Odile acaba a dançar sozinha). Temos ainda o célebre minuto de silêncio, onde Godard tira o som e os personagens ficam em silêncio, para além da memorável corrida no Louvre, ao longo de uma obra muito ao estilo do cineasta, pronta a quebrar regras e a despoletar a nossa atenção para o interior do seu filme.

 Ao longo de "Bande à Part", Jean-Luc Godard coloca por vezes os seus personagens a parecer que se dirigirem para a câmara de filmar (algo comum nos seus filmes), deixa-os a falar imenso (apesar dos silêncios também estarem muito presentes), utiliza elementos da cultura pop e desconstrói os mesmos (veja-se as convenções dos filmes dos EUA que Arthur e Franz admiram), enquanto nos deixa perante uma juventude sem rumo. Anna Karina, protagonista de vários filmes de Godard, mescla uma certa ingenuidade e candura da sua personagem com a sua capacidade em se envolver em problemas e rebelar-se perante as convenções. Não quer que ninguém saia ferido do assalto e parece ter uma visão algo naïve deste acto e dos seus companheiros, embora pareça claro que este pode não correr pelo melhor. Franz ainda frequenta inicialmente as aulas de inglês mas parece pouco interessado nas mesmas, embora seja mais leal do que Arthur, com os dois desempregados a terem papel activo no assalto. Apesar do crime cometido não deixam de ser algo infantis, protagonizando episódios tão caricatos como um a fingir que dispara sobre o outro, para além das próprias atitudes que apresentam perante a vida. Temos ainda a narração de Jean-Luc Godard, por vezes marcada por alguma mordacidade, com o filme a não perder algum humor ao longo de uma história também marcada por alguma violência, reflexões sobre a vida, uma procura em explorar elementos da sociedade e cultura dos anos 60, enquanto ficamos perante este peculiar grupo de jovens. Estes acabam também por ser fruto da sua geração, parecendo não ter a noção das mudanças que ocorrem à sua volta embora estejam a viver as mesmas, procurando num assalto o dinheiro fácil quando este tem tudo é para trazer a tragédia. A história é relativamente simples, mas sobressai sobretudo pela forma como Godard explora o argumento e a improvisação dos actores, como quebra regras, deixa os personagens a parecer que se dirigem a nós, apresenta ângulos inusitados, dinamizando o filme com a câmara de filmar, enquanto explora o que de melhor o seu elenco tem para dar, voltando a utilizar assertivamente os close-ups, algo que em Anna Karina gera um efeito quase hipnotizador no espectador. Godard recupera ainda alguma nostalgia associada aos filmes de gangsters dos EUA nos anos 30, para transformar alguns dos seus lugares-comuns em algo de muito próprio, extraindo aquilo que considera ter maior importância, ao mesmo tempo que aproveita para efectuar as célebres referências cinematográficas. "Bande à Part" é mais um exemplar de relevo da magnífica colheita cinematográfica da década de 60 do currículo de Jean-Luc Godard.

Título original: "Bande à Parte". 
Título em Portugal: "Bando à Parte".
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Anna Karina, Sami Frey, Claude Brasseur, Danièle Girard, Louisa Colpeyn.

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