10 outubro 2014

Resenha Crítica: "Au Hasard Balthazar" (Peregrinação Exemplar)

  Em "Au Hasard Balthazar" encontramos Robert Bresson no topo das suas qualidades como realizador, elaborando uma obra cinematográfica muito ao seu estilo. Cada plano parece surgir cheio de significado, a conjugação do som e as imagens é exímio, as interpretações dos seus "modelos" (Bresson preferia utilizar este termo ao invés de actores e actrizes) surgem com a sobriedade habitual, a presença de elementos religiosos (não só as metáforas mas a própria ida dos personagens à missa, o baptizado do personagem do título, entre outros), o foco da câmara em partes específicas dos corpos (tais como as mãos, a barriga), enquanto ficamos perante a história de Marie (Anne Wiazemsky) e de Balthazar. Sem apresentar grandes contextos, Robert Bresson coloca-nos desde logo perante Marie, Jacques e a irmã deste último durante a infância, quando recebem um burro chamado Balthazar. Marie e Jacques formam uma grande amizade e apresentam um interesse amoroso marcado pela ingenuidade típica da idade, até o segundo e a sua irmã partirem com o pai de ambos. O progenitor de Jacques deixa a sua propriedade ao cargo do pai de Marie, um professor (Philippe Asselin), com este a devolver o burro ao seu dono. Balthazar foge e regressa para a quinta onde habita Marie, agora uma jovem de dezasseis anos de idade. Marie desperta a atenção de Gérard (François Lafarge), o líder de um grupo de delinquentes que se divertem a provocar acidentes na estrada, provocando a protagonista e o seu pai devido a estes se deslocarem no burro. Gérard anda de mota com os amigos, diverte-se a magoar e torturar Balthazar, acabando por iniciar uma estranha relação com Marie que promete terminar de forma trágica. Quem também se interessa pela protagonista é Jacques, agora em idade adulta, regressando ao território para averiguar a gestão da quinta pela parte do pai de Marie, um homem que apresenta pouca simpatia para com o jovem. O pai de Jacques outrora enviara uma carta a avisar o personagem interpretado por Phillipe Asselin para este utilizar métodos de cultivo modernos, embora desconfie deste último devido a algumas cartas anónimas que revelaram estar a ser enganado, uma dúvida que se adensa devido ao pai da protagonista não querer entregar a documentação. Posteriormente, Balthazar é vendido para o dono da padaria local, para o qual Gérard faz as entregas, utilizando o burro para transportar o pão, embora raramente mostre respeito pelo mesmo. Bate em Balthazar, queima-lhe a cauda, mostra pouco respeito com este animal que é alvo de maus tratos pela maioria dos seus donos. Veja-se quando fica temporariamente nas mãos de Arnold, um alcoólico sem emprego que o utiliza para transportar turistas e posteriormente para um espectáculo de circo, não tendo problemas em expor a sua fúria perante o animal ao bater-lhe com uma cadeira. Não vemos o burro a ser directamente agredido, mas sim o som da dor do mesmo e da cadeira a embater no seu corpo, com Robert Bresson a voltar a explorar de forma sublime o fora de campo e o jogo entre o som e as imagens, algo já evidenciado em várias das suas obras anteriores.

Balthazar acaba por simbolizar um mártir, puro, sujeito às ordens e vontades daqueles que o possuem, representando uma pureza que a maioria dos personagens parece perder, com o seu final a apresentar a transcendência de obras de Bresson como "Le Procès de Jeanne d'Arc". A escolha de um burro para protagonista não deixou de marcar uma ruptura de Bresson com as suas obras anteriores, algo que Tony Pipolo salienta com acerto em "Robert Bresson - A Passion For Film", "Balthazar complicates the givens of Bresson’s earlier work and compounds its difference by making its protagonist an animal whose passive nature precludes the very notion of narrative drive". Estamos longe de um personagem com presença activa, surgindo antes como um protagonista algo passivo para com o destino. Balthazar parece morrer para espiar os pecados dos humanos, qual Jesus Cristo, com "Au Hasard Balthazar" a apresentar algum pessimismo em relação à humanidade. Mesmo Marie está longe de ser um exemplo moral, procurando unir-se a Gérard embora este apenas a deseje temporariamente. É desprezada por Gérard, inicialmente reverenciada por Jacques, procurando abrigo na casa de um estranho para não ter que voltar a habitar junto dos pais, acabando quase sempre por estar na "posse" dos homens, tal como Balthazar está em relação aos seus donos. Diga-se que o destino destes dois personagens parece estar muito ligado, com ambos a acabarem muitas das vezes sujeitos às mesmas figuras masculinas. Assistimos à queda em desgraça destes personagens depois de alguns momentos iniciais de candura, com as suas histórias a fazerem-nos em parte recordar a protagonista de "Mouchette", o filme que Bresson realizaria posteriormente a "Au Hasard Balthazar". Ambos os filmes se desenrolam num espaço rural, marcado por gentes nem sempre agradáveis, para além de uma personagem feminina que gradualmente cai em desgraça e é alvo de abusos por parte dos homens, sejam psicológicos ou sexuais. Bresson volta a utilizar paradigmaticamente as elipses para avançar com a narrativa, uma situação exposta de forma exímia quando descobrimos que a protagonista foi violada. Marie surge de costas, nua, frágil como raramente a vimos, sendo praticamente impossível não sentir alguma pena por esta mulher que viu o seu corpo ser sexualmente agredido. A brutalidade a que esta foi sujeita não é exibida mas é sentida. Os filmes de Robert Bresson caracterizam-se muitas das vezes por esta contenção de sentimentos, pela sobriedade com que são expostos, enquanto o cineasta trabalha os seus "modelos". Anne Wiazemsky tem aqui uma estreia de relevo na interpretação, apresentando uma fragilidade enorme através do seu olhar, bem como uma certa candura, embora a sua personagem nem sempre cumpra os actos mais correctos. Veja-se a sua relação com Jacques, um indivíduo de quem se enfada, embora este pretenda recuperar o romance de outrora, com Bresson a efectuar uma dicotomia entre um passado marcado por alguma felicidade entre estes dois e até Balthazar e um presente marcado pelo pessimismo. Wiazemsky viria mais tarde a trabalhar com Jean-Luc Godard em "La Chinoise", "Week End", "One + One", entre outras obras, chegando até a casar-se com o cineasta, apresentando em "Au Hasard Balthazar" uma enorme capacidade de mesclar a fragilidade da sua personagem e a sua procura em desafiar os pais, surgindo como uma das poucas personagens humanas a acarinhar Balthazar. 

Os momentos em que a câmara se foca em Balthazar intrigam-nos. O que estará este a sentir durante os episódios que vive? Será que percebe o que se passa ao seu redor? Não deixa de ser um elemento intrigante pela forma como surge como um observador e sofredor, o menos culpado de todos os acontecimentos que o rodeiam. "Au Hasard Balthazar" volta ainda a marcar a procura de Robert Bresson em dar atenção aos gestos dos personagens e a partes corporais específicas, explorando o seu quotidiano ao longo desta opressora localidade rural, marcada por estruturas patriarcais, onde os elementos masculinos parecem quase sempre dominar as personagens femininas. Veja-se a relação de Gérard com Marie, quase a remeter para a caça, com este a ser o caçador e esta a presa, algo visível quando a encurrala no interior do carro e gradualmente vai tocando no corpo da personagem interpretada por Anne Wiazemsky. François Lafarge é outro dos elementos do elenco que se destaca, ao interpretar este "bad boy" conduzido pelos seus impulsos, pronto a agredir Balthazar, a envolver-se em desacatos e provocar acidentes de carro, sendo ainda suspeito de um homicídio a par de Arnold. No entanto, o personagem que acaba por sobressair mais é Balthazar, um elemento puro num mundo impuro, a habitar num local pronto a corromper aqueles que nele habitam, sendo visto quase como um mártir, algo visível quando Marie coloca um conjunto de flores na cabeça do burro, que remetam para uma coroa de espinhos, um situação que resulta em mais uma metáfora religiosa ligando-o a Jesus Cristo. Diga-se que as ligações religiosas não se ficam por aqui, algo salientado por Tony Pipolo no já citado "Robert Bresson - A Passion for Film", com este a remeter para o facto dos personagens humanos simbolizarem os sete pecados mortais: "Marie’s father is guilty of pride; the corn merchant of covetousness; Gérard of both anger and lust; the baker’s wife envies Gérard’s relationship with Marie; when he drinks, Arnold is guilty of gluttony; at other times, he is an image of sloth (...)". Os personagens das obras de Bresson muitas das vezes estão condenados à desgraça, Balthazar e Marie não são excepções, com esta obra, livremente inspirada em "O Idiota" de Fiódor Dostoyevsky, a deixar-nos perante um conjunto de elementos aparentemente destinados à perdição. Sobre "Au Hasard Balthazar", disse Jean-Luc Godard "é o Mundo em hora e meia", algo revelador do que este filme tem para nos dar, com Robert Bresson a parecer pensar tudo ao pormenor, desde os planos, aos movimentos dos actores e actrizes, passando pela utilização do som e do fora de campo, realizando um dos grandes filmes da sua carreira e da História do Cinema.

Título original: "Au Hasard Balthazar".
Título em Portugal: "Peregrinação Exemplar".
Realizador: Robert Bresson. 
Argumento: Robert Bresson.
Elenco: Anne Wiazemskym, François Lafarge, Philippe Asselin, Nathalie Joyaut.

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