18 outubro 2014

Resenha Crítica: "2 ou 3 choses que je sais d'elle" (1967)

 "2 ou 3 choses que je sais d'elle" coloca-nos mais uma vez perante o génio de Jean-Luc Godard, pronto a efectuar comentários sobre a sociedade, política, cultura do seu tempo, a jogar com as imagens e as palavras, deixando-nos perante algumas coisas sobre Ela, a personagem interpretada por Marina Vlady, e Ela, a cidade de Paris. O narrador surge bastante presente e corrosivo ao longo do filme, os personagens dirigem-se para os espectadores (algo comum nas obras de Godard, veja-se "Made in U.S.A.", "À Bout de Souffle”, entre outras), enquanto Godard nos deixa perante os arredores de Paris, em particular pela existência marcada pela superficialidade de Juliette Jeanson (Vlady). Nem por isso deixa de fazer comentários sobre a Guerra do Vietname da qual é opositor, mas também críticas ao capitalismo e ao modo como o seu país se encontra a ser gerido, algo sugerido quando o narrador comenta que "Eu concluo que o governo gaulês sob uma máscara de modernização e reforma está apenas a normalizar as tendências naturais do capitalismo" e "Sem dúvida, o planeamento da região de Paris favorecerá a política de discriminação de classes do governo e permitirá que os monopólios deem forma à economia", dois trechos que evidenciam uma preocupação latente do cineasta em relação aos interesses que dominam a sociedade do seu tempo. Em relação à Guerra do Vietname, essa crítica fica desde logo exposta quando o marido de Juliette e um amigo deste ouvem na rádio os discursos de Lyndon B. Johnson, marcados pela repetição e pelas referências aos ataques ao Vietname do Norte, expondo o lado mais negro da Guerra mas também da sociedade do seu tempo. A Guerra do Vietname não surge exposta apenas nesta cena mas também em vários comentários ao longo do filme, incluindo quando Juliette se encontra com um cliente dos EUA e este lhe exibe fotos de vietnamitas bastante mal-tratados pelo conflito. Juliette prostitui-se para ganhar dinheiro extra, deixando a filha mais nova junto de um elemento que toma conta de crianças das prostitutas numa divisória da sua casa, enquanto o filho mais velho já se encontra na escola primária ou perto de lá chegar. É o quotidiano de Juliette que acompanhamos ao longo de "2 ou 3 choses que je sais d'elle", mas também da cidade de Paris, com Jean-Luc Godard a deixar-nos por episódios aparentemente banais como obras públicas, exibição das ruas, dos cafés, das habitações, das gentes que povoam um espaço marcado pelas desigualdades sociais. Juliette nem parece necessitar de forma premente de prostituir-se, embora goste de ter os seus luxos, algo visível na sua visita à loja de roupa, mas também ao cabeleireiro, mantendo uma relação algo fria com os seus clientes. Não existe grande erotismo e glamour na exposição da profissão de Juliette, mas sim frieza, algo visível quando esta se recusa despir junto do trabalhador do metro, bem como quando está com o elemento dos EUA. 

Jean-Luc Godard volta a representar os elementos dos EUA de forma pouco simpática, algo já visto em obras como "Pierrot le Fou", com este personagem interpretado por Raoul Lévi a surgir acompanhado por uma t-shirt com a bandeira do seu país, fotos das vítimas do Vietname e uma enorme bizarria que envolve colocar um saco na cabeça de Juliette e Marianne (Anny Duperey). O cineasta procura explorar e criticar a frivolidade do quotidiano de Juliette, ao mesmo tempo que pontua a obra com vários elementos transversais aos seus filmes. Não faltam personagens a dirigirem-se para a câmara de forma a quebrar a barreira com o espectador, as referências literárias (William Faulkner) e cinematográficas (poster de "Ugetsu", referência a "Nanook of the North", a referência à "Era do Traseiro" já sugerida em "Pierrot le Fou", entre outras), os travellings, os close-ups, os personagens fumadores, a utilização paradigmática da sonoplastia. Voltamos a encontrar elementos como um aumento do barulho dos sons exteriores aos locais onde se encontram os personagens (veja-se o ruído das obras), mas também a presença do célebre som das balas furiosas (visível na pistola de brincar do filho de Juliette), bem como os diálogos paralelos em cafés (veja-se o momento em que encontramos Robert e uma mulher a falar no café, enquanto assistimos a dois outros personagens acompanhados por vários livros e a lerem alguns trechos dos mesmos), entre outros elementos. Temos ainda alguns planos que ficam na memória, em particular quando assistimos a todo um discurso existencialista enquanto é filmado o café a girar no interior de uma chávena, após ter sido mexido com uma colher, mas também quando Godard foca a câmara de filmar na sua protagonista. Marina Vlady não tem o magnetismo de Anna Karina mas cumpre de forma bastante eficaz aquilo que lhe é pedido por Godard, apresentando um misto de frieza e sentimento, com a personagem que interpreta a ter algumas dúvidas em relação ao casamento e a certeza que o seu amanhã se encontra preso a uma rotina pouco gratificante. Existe ainda algum humor na forma como as barreiras com o espectador são quebradas, com Vlady a salientar que expõe as suas falas como se estivesse a citar a verdade devido a "O velho pai Brecht disse que os actores devem citar", enquanto o narrador faz comentários aparentemente inócuos sobre os movimentos da actriz que interpreta Juliette. Esta adere a uma sociedade de consumo que Godard critica, exibindo desde logo de forma algo irónica vários produtos associados à cultura capitalista, paradigmaticamente exibidos nos últimos momentos do filme onde nem Hollywood passa incólume, com o cineasta a traçar um paralelo entre a prostituição do corpo e a prostituição da mente (capitalismo). Veja-se as constantes construções de casas e os vários carros que circulam, mas também toda uma gama de bens de consumo que muitas das vezes parecem fazer desvirtuar o interesse dos seres humanos daquilo que realmente interessa (o comentário que pode facilmente ser transposto para os dias de hoje).

Não é apenas Juliette que se prostitui, algo visível na figura de Marianne , uma amiga da protagonista, mas também uma cliente do café que se dirige algo aleatoriamente para o espectador a salientar que só vem a Paris duas vezes ao mês. A temática da prostituição nem é nova nas obras de Jean-Luc Godard, algo visível em "Vivre Sa Vie", onde a personagem interpretada por Anna Karina acaba por cair neste estilo de vida, embora Juliette seja uma personagem algo diferente, sendo inclusive casada. Robert, o marido de Juliette, trabalha numa oficina, apresentando pouca ambição, um notório sentido crítico em relação aos EUA, sendo um dos vários personagens leitores dos filmes de Godard. O cineasta volta a realizar uma obra que estimula os sentidos e o debate, apresentando pouco mais de 24 horas do quotidiano que envolve Juliette, ao mesmo tempo que exibe os seus ideais cinematográficos, políticos e sociais. Existe já um sentimento anti-política dos EUA, contra o capitalismo, ao mesmo tempo que não tem problemas em citar obras e autores que admira, explorando a forma como o suposto progresso do seu país não se estava a traduzir numa melhoria de qualidade de vida ou valores. Já a carreira de Godard apresenta valores claramente elevados. "2 ou 3 choses que je sais d'elle" foi filmado em simultâneo com "Made in U.S.A." (uma das obras-primas de Godard), com as filmagens do primeiro a decorrerem de manhã, enquanto o segundo foi filmado durante a tarde, uma situação reveladora do talento e génio deste irreverente cineasta, mas também do seu engenho. Este volta ainda a colocar traços de elementos de banda desenhada neste filme que apresenta um tom semi-documental (a cinematografia de Raoul Coutard volta a sobressair), ao mesmo tempo que se "diverte" a jogar com as imagens e as palavras, com os sons e aquilo que nos é exibido, expondo-nos perante vários comentários directos sobre a sociedade do seu tempo, muitas metáforas, criando uma obra brilhante. Irreverente, polémico, inteligente, "2 ou 3 choses que je sais d'elle" não tem problemas em despertar os sentidos e opiniões do espectador, deixando-nos perante mais um trabalho de grande relevo de Jean-Luc Godard, um dos nomes maiores da Nouvelle Vague.

Título original: "2 ou 3 choses que je sais d'elle".
Título em Portugal: "Duas ou Três Coisas que eu Sei Dela".
Realizador: Jean-Luc Godard. 
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco:  Joseph Gehrard, Marina Vlady, Roger Montsoret, Anny Duperey.

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