13 outubro 2014

Crítica - "Suits" - "This is Rome" (S04E10)

 Cada vez acompanho menos séries de televisão, pelo que é praticamente essencial que estas me cativem desde o início para não lhes perder o rasto. Foi assim com "Arrow", "Game of Thrones", "The Vampire Diaries" (durante algum tempo um guilty pleasure que não tenho problemas em assumir), e "Parks and Recreation", onde gradualmente fui deixando de acompanhar os episódios e perdi por completo o rasto às mesmas. Quando comecei a ver "Suits", algo que me começou a conquistar foi desde logo a dinâmica criada entre os personagens que trabalham na agora "Pearson Specter", incrementada ao longo de cada temporada. O ponto de ordem nos relacionamentos entre estes personagens parece ser a confiança, algo que explica e muito o abalo de Louis Litt (Rick Hoffman) no final de "This is Rome", o décimo episódio da quarta temporada de "Suits", uma série televisiva capaz de mesclar drama, humor e alguma credibilidade nos casos defendidos pela firma de advocacia "Pearson Specter". As séries sobre advogados têm proporcionado bons exemplares. Recordo desde logo "Boston Legal", na qual tínhamos a magnífica dupla formada por Alan Shore (James Spader) e Denny Crane (William Shatner), marcada pela dinâmica apelativa entre estes dois elementos e os portentosos discursos finais em tribunal que, quando bem escritos, eram capazes de emocionar (isto já para não falar quando a dupla se reunia no final de alguns episódios no topo do edifício do local de trabalho para falar e beber whisky). Para o final a série começou a destrambelhar, curiosamente na quarta e última temporada, aquela em que se encontra "Suits", embora esta última já tenha garantida a quinta temporada. Uma das razões de raramente escrever sobre séries passa por procurar evitar a dinâmica que criei de escrever sobre grande parte dos filmes que vejo, com estas a surgirem como um escape onde me sento apenas para desfrutar de alguns bons momentos e avançar rapidamente com os episódios ("The Americans" e "Penny Dreadful" mereciam destaque neste espaço). No caso de "Suits", não tem a popularidade de "Game of Thrones", não tem os elogios da crítica de "Breaking Bad", mas também não começou a cair na pasmaceira de "Burn Notice" que gradualmente me foi afastando com a sua tendência de parecer quase sempre que não ia a lado nenhum. "Suits" também é uma série de hábitos, embora consiga evoluir dentro dessa continuidade. A dinâmica entre Harvey Specter (Gabriel Macht), o advogado praticamente à prova de erros que consegue quase sempre acordos antes dos casos irem para tribunal, e Mike Ross (Patrick J. Adams), um associado da firma, contratado pelo primeiro, um senior partner, é fulcral para a série funcionar. Tal como Denny Crane e Alan Shore apresentavam uma dinâmica que facilmente nos conquistava, também Mike e Harvey conseguem que queiramos seguir estes personagens e ver como estes resolvem os casos ao longo de cada episódio, parecendo certo que raramente vão perder. Um dos elementos que dá um tom distinto à série também passa por Mike não ser licenciado em advocacia, algo que Harvey sabe desde o início, com o personagem interpretado por Patrick J. Adams a surgir como uma "fraude" com memória fotográfica, melhor do que muitos advogados, inteligente e sagaz, que gradualmente corre riscos maiores de ser descoberto, embora conte com a ajuda do seu superior, que procura manter o segredo a todo o custo. 

 Esses riscos foram, em parte, minimizados quando uma hacker conseguiu colocar o registo de Mike em Harvard, a única Universidade de onde a "Pearson Specter" aceita licenciados, bem como inscrevê-lo na Ordem dos Advogados, quando Eric Woodal (Željko Ivanek), um advogado do Ministério Público, decide investigar Harvey e Mike, algo que poderia expor este último. A sócia maioritária da firma é Jessica Pearson (Gina Torres), uma mulher de personalidade forte, que mantém uma forte amizade de longa data com Harvey, embora a relação entre ambos sofra alguns revezes. Entre esses contratempos encontra-se a descoberta de que Harvey contratou Mike sem este ser licenciado, bem como o momento em que o personagem interpretado por Gabriel Macht pensou em conspirar contra Jessica para tentar ser sócio da empresa e ter o seu nome na firma aquando da indesejada fusão com Edward Darby na terceira temporada. A dinâmica entre Jessica e Harvey é um dos pontos fortes da série, embora não se compare com a relação deste com a secretária Donna Paulson (Sarah Rafferty), aquela que é uma das melhores personagens de "Suits". Sarcástica, competente, fiel a Harvey, fã de teatro, com um enorme coração mas também uma frieza implacável na defesa do seu chefe, esta sente algo pelo personagem interpretado por Gabriel Macht, embora não possa ter uma relação com este devido às regras que estabeleceram de não terem um relacionamento enquanto trabalhassem juntos. Uma das personagens femininas que forma amizade com Donna é Rachel Zane (Meghan Markle), que na quarta temporada encontramos já a estudar para ser advogada, após vários anos a ser uma Paralegal competente. Esta gradualmente apaixona-se por Mike Ross, sendo uma das poucas pessoas, a par de Donna, Harvey e Jessica, a saberem do seu segredo. Na Pearson Specter trabalha ainda Louis Litt (Rick Hoffman), um advogado especialista na parte financeira, com estranhas manias, fã de ópera, alvo de troça de Harvey embora este até o respeite. Chega de explicações, mas já que andei a ver os episódios de "Suits" à bruta sem que escrevesse o que quer que fosse sobre os mesmos (algo que vai ser corrigido a partir deste episódio), sinto que é necessária uma breve introdução ao universo narrativo que envolve esta poderosa firma de advocacia de Nova Iorque. Cheguemos então a "This is Rome", o episódio que culmina os eventos de uma quarta temporada que se tem revelado mais sólida do que a anterior. Se na segunda temporada Daniel Hardman era a principal ameaça, já na terceira temporada o caso de Ava Hessington ocupou boa parte do enredo e deixou marcas em todos os envolvidos. Foi no final dessa temporada que Mike decidiu aceitar a oferta de Jonathan Sidwell (Brandon Firla) e trabalhar na firma de investimento do mesmo, evitando assim o risco de ser descoberto como uma fraude, abandonando temporariamente a advocacia. Harvey fica algo abalado com a notícia, Jessica aliviada, enquanto Rachel passa a assumir as funções de Mike. 

 Um dos primeiros casos de investimento coloca Harvey e Mike frente a frente, uma situação nova na série, dando espaço para os dois amigos digladiarem-se e provarem o seu valor, com Patrick J. Adams a expor um lado distinto do seu personagem, com o argumento a dar espaço para que este elemento evolua, mesmo que para isso tenha de cometer vários erros pelo caminho. Nesse sentido, quando bem arquitectadas, as séries, mesmo as relativamente acima da média como "Suits", conseguem vencer o cinema ao terem tempo suficiente para desenvolverem os personagens ao longo de vários episódios. No caso de "Suits", existe uma aposta em não mexer muito na estrutura da série, com o enredo base a sofrer alguns abanões embora quase sempre tudo volte à normalidade. Nem por isso deixamos de nos entusiasmar a ver Harvey Specter, Mike e companhia a enfrentarem Daniel Hardman, Eric Woodal, Edward Darby, Cameron Dennis, entre outros que se colocaram no caminho dos dois primeiros mas sem grandes resultados práticos. A dupla é praticamente imbatível e os showrunners sabem disso, pelo que esta reviravolta nos primeiros seis episódios da série permite atribuir uma lufada de ar fresco à mesma, enquanto a dupla de actores parece realmente estar a divertir-se a colocar estes dois personagens em confronto. O negócio do investimento que colocou Harvey e Mike em confronto foi resolvido em parte devido a Louis Litt, que faz um negócio marcado por ilegalidades com Charles Forstman (Eric Roberts), tendo em vista a beneficiar o seu cliente, Logan Sanders, um indivíduo que colocou a relação entre Rachel e Mike em perigo, bem como para ganhar o respeito de Harvey e Jessica, contando com a ajuda de Katrina (Amanda Schull), a sua fiel ajudante. Escusado será dizer que Louis cria um problema e acaba por ser despedido. É neste ponto que se encontra "This is Rome" e, apesar de todas as suas manias, e de muitas das vezes os colegas e até nós os espectadores não o levarmos a sério, este decide ir para a arena lutar. Harvey ainda tenta arranjar dois empregos para Louis, incluindo em Boston para o ex-colega tentar reatar a sua relação com Sheila (Rachael Harris), mas a rejeição desta conduz a que este falte à entrevista. Mike tenta que Robert Zane, o pai de Rachel, contrate Louis para a sua firma, mas o segundo só aceita o caso se o personagem interpretado por Rick Hoffman roubar/conquistar um cliente à "Pearson Specter", algo que este ainda tenta com a Versalife. A decisão não é lá muito do agrado de Rachel, com o casal a procurar recompor-se da recente crise, após esta ter beijado Logan Sanders (Brendan Hines), o seu ex-namorado e rival de Mike. No entanto logo Harvey e Mike tratam de vencer o caso, com o segundo a provar mais uma vez a Jessica a mais-valia que é para a empresa. A vitória da dupla acaba por ser algo pírrica, com Mike a cometer um erro: ao entrar na casa de Louis para lhe dar os seus objectos não reconhece uma chave, um dos três objectos que representam a entrada na Ordem da Coifa, dos licenciados com distinção em Harvard. Louis inicialmente não desconfia de nada e tudo parece calmo, até este finalmente se aperceber do segredo de Mike, algo que promete incendiar o primeiro, com Rick Hoffman a ter provavelmente aquela que é a sua melhor interpretação até ao momento na série. 

 Da desilusão desesperada por ter sido traído por Donna, até ao ressentimento furioso para com Jessica, Louis procura incendiar este coliseu com a sua fúria e parece disposto a tudo para finalmente conseguir concretizar os seus objectivos na firma, naquele que é um dos melhores episódios de "Suits". Apesar da relação entre Rachel e Mike ter sido deixada algo de lado, voltamos a ter o exímio trabalho em conjunto do segundo e Harvey, o humor muito próprio da série, a procura de Donna em convencer Harvey a ajudar Louis, entre vários outros momentos marcantes. Não falta emoção ao episódio, com a reviravolta final a prometer trazer graves repercussões para todos os envolvidos, embora Jessica Pearson seja conhecida por não gostar de tomar decisões quando está com o "gatilho apontado à cabeça". Provavelmente o problema ainda se irá arrastar durante mais alguns episódios, mas se existe algo que "Suits" nos ensinou é que as mudanças que parecem definitivas nunca duram muito tempo. Existe uma aposta latente na continuidade ao longo de "Suits", algo que em certa medida me tem mantido preso à série. Sejam as referências cinematográficas, televisivas e desportivas utilizadas pelos personagens, seja a personalidade vincada e o sarcasmo de Donna, seja a confiança em si próprio de Harvey, seja a consciência de Mike, sejam as manias estranhas de Louis, seja a competência e elegância de Rachel, seja o pragmatismo de Jessica, vários são os elementos que permitem a "Suits" criar um elo de ligação com o espectador, onde quase nos sentimos parte deste universo narrativo. Pode-se falar em alguma falta de audácia, mas esta é compensada pelas dinâmicas magníficas entre os personagens, com cada um a apresentar características muito próprias e a ter intérpretes à altura. No caso de "This is Rome" o maior destaque é mesmo Rick Hoffman que, se estivesse numa série com mais hype, poderia arriscar-se a ser nomeado para um prémio de relevo, conseguindo no mesmo episódio convencer-nos que o seu personagem está completamente em baixo, indo em crescendo até ao momento de fúria final. O mais curioso em "Suits" é ver como vários dos actores, apesar de demonstrarem talento, ou pelo menos ajustarem-se bastante bem aos papéis, nem contam com um currículo tão bom quando isso. A surpreendente Sarah Rafferty é o caso mais paradigmático, com esta a provavelmente ter em Donna o seu papel de maior destaque, precisando de chegar aos 41 anos para estar no melhor momento da sua carreira. Rafferty é uma das actrizes que contribuem para tornar esta série especial. Esta interpreta com enorme vivacidade a secretária que sabe tudo à sua volta, praticamente isenta de erros, sempre pronta a ser frontal, embora também proporcione alguns momentos de humor, que o diga Mike Ross com as suas vestes a serem muitas das vezes alvo de troça. 

 Mesmo Gabriel Macht participou em obras cinematográficas tão desastrosas como "The Spirit", encontrando em Harvey Specter um personagem que lhe permite criar um protagonista confiante, que gosta de utilizar fatos caros, implacável na resolução de casos, tanto capaz de apresentar uma enorme frieza como de exibir alguma humanidade, com o actor a ter ainda uma grande dinâmica com Patrick J. Adams. Mike acaba por ser a pedra de toque da série, ao ser o advogado competente que nunca se licenciou, criando sempre uma aura de perigo em volta da sua pessoa, embora saibamos que mais cedo ou mais tarde o seu segredo pode ser descoberto. Claro que não convém usar e abusar desta situação para criar sempre o mesmo cliffhanger em midseasons e finais de temporada, mas até agora Aaron Kosh e a sua equipa têm apresentado alguma competência a gerir a situação. "This is Rome" é a prova como esta situação de Mike ainda pode proporcionar episódios muito acima da média na série, enquanto Roger Kumble realiza um dos episódios mais sólidos desta temporada. Não falta o drama relacionado com a saída de Louis Litt da "Pearson Specter", a dupla Mike e Harvey a demonstrar a sua competência na resolução de casos, Katrina a demonstrar a sua lealdade ao seu antigo chefe e Jessica a mostrar que é implacável perante as traições. O problema é que também Louis descobre ter sido traído nesta firma onde os personagens principais quase que parecem formar uma família disfuncional. É nessa família que os fãs da série acabam por ser integrados e tiveram em "This is Rome" um episódio que nos deixa completamente a salivar para sabermos os acontecimentos dos "próximos capítulos". "This is Rome" é também um exemplo de que bons episódios de uma série podem por vezes superar e muito vários filmes que se encontram em sala, para além de ser latente que estes dois meios exigem modos distintos do espectador encarar os mesmos. No cinema, tirando o caso dos filmes com sequelas e as franquias, geralmente tudo termina com o final dos mesmos. No caso das séries existe todo um investimento por parte do espectador que semanalmente gasta ou ganha quarenta e poucos minutos da sua vida, afeiçoa-se aos personagens, gerando-se toda uma envolvência distinta, algo que por vezes proporciona ódios tão acirrados quando as séries não terminam como os fãs pretendem. Mesmo nas minisséries com quatro ou cinco episódios parece complicado gerar a mesma afeição de uma série como "Lost", "The O.C.", entre outras que continham mais temporadas e um número maior de episódios, exigindo quase que criássemos alguma familiaridade com os personagens, que é mantida durante os vários episódios. No caso de "Suits" esse investimento de tempo é recompensado, apesar de todas as repetições que a série possa apresentar, mas é mesmo por toda essa continuidade que episódio após episódio eu gosto de ver a mesma. 

 Não temos os discursos emotivos de Alan Shore em tribunal, onde James Spader dava um espectáculo enorme de representação, mas ficamos perante uma prestigiada firma de advocacia que procura resolver os casos nos gabinetes, embora também não tenha problemas de ir a tribunais, com Harvey Specter a surgir praticamente como o elemento imbatível. Nesse sentido, foi refrescante ver Harvey e Mike em confronto no início da quarta temporada, tal como foi aprazível verificar que posteriormente tudo voltou ao normal e voltámos a poder ver o duo maravilha em acção. A série não vive só do humor, algo que "This is Rome" revela, bem como a perseguição de Sean Cahill (Neal McDonough), um advogado de acusação do SEC que procura incriminar Harvey e Mike de conluio no negócio que conduziu posteriormente ao despedimento deste último da firma de investimento. Temos ainda o romance entre Mike e Rachel, bem como a tensão sexual latente entre Donna e Harvey, embora a equipa de argumentistas pareça estar a deixar uma possível união entre os dois últimos mais para o final da série. Mas voltemos a "This is Rome", à arena de batalha onde os gladiadores andam com fatos caros e elegância a defenderem os seus clientes, embora o pior aconteça quando uma traição é descoberta no interior da família. É no interior dos escritórios da "Pearson Specter" que muito acontece ao longo da série, sejam reuniões com clientes, outros advogados, discussões, romances, despedimentos, acordos, parecerias, traições. É exactamente uma traição que despoleta um ódio reprimido em Louis, com este a pretender utilizar a vantagem que obtém a seu favor e obter o respeito e reconhecimento que até então não lhe pareciam dar. Será que "This is Rome" vai proporcionar aquilo que Louis finalmente pretende, ou seja, ter o seu nome na firma e o mesmo estatuto de Harvey Specter? Ou teremos novamente Jessica a mostrar que ninguém lhe dispara o gatilho? Resta esperar até ao próximo episódio, que apenas chegam no início de 2015, com o som da música principal da série, “Greenback Boogie” dos Ima Robot a ser aguardada, surgindo após um breve aperitivo de cada capítulo. Longa espera esta que nos resta. Mas se "Suits" já demonstrou alguma coisa, é que é capaz de fazer compensar estas esperas e o tempo que despendemos a ver os seus episódios. Capaz de apresentar um argumento forte, uma interpretação portentosa de Rick Hoffman, muita tensão e algumas reviravoltas, "This is Rome" é a prova que a série continua bem viva e pronta a não deixar o seu império abalar perante alguns terramotos. 

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