11 setembro 2014

Resenha Crítica: "What If" (O Amor é Estúpido)

     Creio que falo por todos os críticos amadores de cinema quando digo que isto de escrever textos sobre filmes, por vezes, não é tarefa fácil de concretizar. Por exemplo, em não raras ocasiões, a complexidade com que uma obra foi escrita ou realizada obriga-nos a visioná-la por mais do que uma vez, para que possamos contemplar e compreender cada pormenor ou cada ideia do seu realizador, por mais subtil que ela seja, (ou pelo menos é o que o Aníbal costuma fazer, pois ele, ao contrário deste blogger, não é um preguiçoso). Noutras ocasiões, parece-nos difícil definir a nossa opinião sobre um filme que acabámos de ver, ou porque lhe conseguimos apontar defeitos e qualidades em igual medida, ou porque quanto mais nele pensamos mais cresce, ou decresce, a nossa admiração pelo mesmo. Noutras situações ainda, os neurónios que poupámos ao definirmos as nossas manhosas opiniões serão obrigados a um sacrifício posterior, por norma inglório e em massa, na fase em que tentamos transmitir as nossas ideias por via da escrita, que ora simplesmente não flui, ora até flui em demasia, como se de uma torneira aberta se tratasse, levando-nos a escrever introduções demasiado extensas que nada têm a ver com o filme em causa. Assim sendo, e apesar da superficialidade evidente no raciocínio que estou a tentar apresentar, pode ser uma experiência invulgarmente agradável escrever umas páginas sobre um filme simples e simpático como a “dramédia” romântica “What If”, que não é complexa nem inteligente, e que tem falhas e qualidades que são muito fáceis de discernir.
     A sua história gravita em torno de uma relação de amizade entre um tipo simpático e pouco sociável de olhos tristes (Daniel Radcliffe) e uma jovem também ela afável, de aparência mais alegre e com um olhar mais reluzente, mas igualmente pouco sociável (Zoe Kazan). A falta de sociabilidade não implica que tanto um como a outra tenham problemas em iniciar e manter conversas com outros indivíduos só porque estes lhes são estranhos, tal como não implica que, quando o fazem, as palavras não lhes fluam. São pouco sociáveis, apenas, porque pouco têm em comum com a massa de pessoas anónimas que os rodeiam; o que, por sua vez, reforça a importância da química que se estabelece entre os dois logo no início do filme, quando se encontram no meio de uma festa organizada na casa de um amigo/familiar em comum, cheia de pessoas que não lhes dizem nada e com as quais não tem intenções de interagir. Conhecem-se à entrada do evento, reencontram-se acidentalmente quando o tentam abandonar em simultâneo sem se despedirem do anfitrião, e caminham juntos para casa. A empatia entre os dois é assinalável e a naturalidade com que Daniel Radcliffe e Zoe Kazan dialogam um com o outro, mesmo quando centrados em assuntos bizarros ou triviais como fezes ou sandes de bacon, é enaltecedora. Seja como for, findo este passeio curto mas agradável, a jovem escreve o seu número de telemóvel num pedaço de papel. Refere ainda, de forma casual, que tem um namorado à sua espera em casa.
     Ultrapassado o abatimento provocado pela revelação, Wallace (o nome da personagem de Radcliffe) vai deixando os dias passar, navegando na mágoa das relações falhadas e ainda não ultrapassadas de outros tempos, picando o ponto no seu emprego manhoso de escritório, dormindo indefinidamente em casa da sua irmã e não tendo intenções de reencontrar Chantry (assim se chama a jovem de Zoe Kazan). Entretanto vai convivendo com o seu melhor amigo, que também e primo de Chantry, interpretado por Adam Driver, um tipo alto com um estilo estranho e curioso, cheio de opiniões para partilhar, por norma certas – mais ou menos a mesma personagem que o ator interpreta na série “Girls”, mas menos aprofundada. Mas é óbvio que, por mais tempo que passe, o reencontro entre os protagonistas estará para breve. Ocorre à porta de uma sala de cinema e resulta numa conversa amigável, que dura e dura, até em demasia, mas que nos faz rir e simpatizar com as personagens. Finda a noite, Chantry volta para casa, para o famoso namorado, que muito em breve nos será apresentado.
     A partir daqui não há muito para dizer. Se a entrega destes três atores nos faz pensar que estamos a observar uma “dramédia” muito diferente do habitual, o argumento de Elan Mastai faz questão de nos bombardear com todos os lugares comuns que já vimos a pulular em comédias românticas nas nossas carreiras de alegados cinéfilos. O desfecho do filme é não só lógico, como óbvio. A narrativa mostra-nos que o namorado de Chantry não é mau tipo, mas depois faz questão de o mandar para a Irlanda, em trabalho, por seis (seis!) meses. Os dois protagonistas fraternizam sem preocupações e sem infidelidades, apesar de nós sabermos o que lhes está na mente. Convivem sozinhos ou em conjunto, vão ao cinema e saem à noite, embebedam-se em bares e dançam em discotecas e até chegam a ir praia e a verem-se nus. Sabemos, como tal, não obstante as tímidas tentativas do realizador Michael Dowse para nos enganar, que Wallace e Chantry estão apenas a adiar o inevitável. Aliás, o maior defeito de “What If” é o facto de em momento algum duvidarmos do seu desfecho – porque se a narrativa até enveredou invariavelmente por um rumo pouco ousado e original, é lógico que o seu culminar também não provocará qualquer espanto ou admiração.
     Também não é fácil ignorar um ou outro aspeto causador de distração e por vezes de incómodo: é o caso dos esporádicos momentos em que Dowse introduz alguns trechos de animação no meio da obra, que visam refletir o estado de espírito de Chantry. Percebe-se que há quem os aprecie, mas este blogger achou-os pirosos e inadequados. É certo que estão de alguma forma relacionados com o emprego da protagonista numa empresa de animação, mas a sua introdução esporádica e caprichosa é inútil e distrativa, principalmente se tivermos em conta a diminuta atenção dada pelo argumento à atividade da personagem de Zoe Kazan. Outros detalhes de índole duvidosa ressaltam ocasionalmente: é o que sucede numa ou noutra cena sobrecarregadas de diálogos, ou num ou noutro diálogo que transmite ideias estranhas e um pouco difusas. A dada altura do filme, não temos a certeza se a personagem de Adam Driver está a defender ou a desculpar a infidelidade; ou se a resposta à questão colocada no início do filme, se um homem conseguirá ser amigo de uma mulher sem se apaixonar por ela, é negativa como se depreende pela história em causa.
     Apesar de tudo, e independentemente dos seus vários defeitos, é-me quase impossível antipatizar com “What If”. Critico-o, mas afligido por sentimentos de culpa. Porque mesmo com uma história previsível e preguiçosa, e não obstante um ou outro exemplo de incoerência do argumento e da realização, os protagonistas são fortes e cativantes, e o excesso de diálogos entre os dois lá fortalece a sua relação. Apegamo-nos às personagens, principais e secundárias (principalmente Adam Driver e respetiva namorada, que formam um par adorável), e vamos torcer continuamente por elas. Junta-se a isto uma banda sonora adequada, de música alternativa escrita pelo talentoso A. C. Newman. Assim sendo, e voltando ao primeiro parágrafo, “What If” acaba por ser uma obra simples de caracterizar. Recapitulemos: é uma “dramédia” simples e despretensiosa, previsível e com problemas de criatividade, mas com atores talentosos e cheios de química. Tem momentos estranhos e duvidosos e outros chanfrados e de bom humor. Apesar de tudo, entretém – providencia-nos uns momentos agradáveis numa sala de cinema e a possibilidade de lhe escrevermos um texto demasiado extenso mas bem intencionado.

Ficha técnica:

Título original: "What If"
Título em Portugal: "O Amor é Estúpido"
Realização: Michael Dowse
Argumento: Elan Mastai
Elenco: Daniel Radcliffe, Zoe Kazan, Megan Park, Adam Driver, Mackenzie Davis, entre outros.

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