04 setembro 2014

Resenha Crítica: "The Two Faces of January" (As Duas Faces de Janeiro)

 Filme que marca a estreia do argumentista Hossein Amini como realizador de longas metragens, "The Two Faces of January" adapta a obra literária homónima de Patricia Highsmith (a mesma autora de "The Talented Mr. Ripley") e coloca-nos perante um thriller tenso e claustrofóbico, onde um encontro aparentemente casual entre um guia e um casal prepara-se para se transformar numa jornada onde as desconfianças e traições são mais do que muitas e as aparências enganam de forma paradigmática. A cinematografia de Marcel Zyskind contribui para algum sentimento de claustrofobia que se gera a partir do desenrolar da narrativa (e ainda para a criação de alguns planos de se tirar o chapéu), mas também para expor e explorar as especificidades do território grego, desde Atenas, uma cidade cheia de história, até à labiríntica procura do trio de protagonistas em chegar a Creta. Tudo começa em 1962, quando Chester MacFarland (Viggo Mortensen) e a sua esposa Colette (Kirsten Dunst), um casal elegantemente vestido, visitam a Acrópole de Atenas. Estes parecem estar a passar umas férias agradáveis no local, embora mais tarde descubramos que o personagem interpretado por Viggo Mortensen guarde uns segredos negros por revelar. Por sua vez, Rydal (Oscar Isaac) ganha a vida como guia turístico e a enganar os turistas com o dinheiro, acabando por entrar em contacto com Chester e Colette. Chester faz Rydal recordar-se do seu pai, um homem bastante rigoroso a educar o filho, incluindo no ensino de várias línguas, que faleceu recentemente. Rydal procura inicialmente seduzir uma jovem turista, acabando por ser contactado por Colette, devido a Chester achar estranho os seus olhares para a sua mesa, com o casal a acabar por marcar um jantar a quatro. Durante uma visita guiada ao mercado local, Chester adquire uma pulseira em formato de duas serpentes que não se unem, um design supostamente cretense que simboliza imortalidade, oferecendo a mesma a Colette. De regresso a casa, Colette deixa a pulseira no táxi, algo que conduz Rydal ao quarto do hotel para devolver o objecto, embora se depare com uma realidade que se prepara para mudar o seu quotidiano. Chester é um corrector da bolsa de valores corrupto, que furtou dinheiro dos seus clientes e efectuou negócios com elementos duvidosos, algo que conduz um detective a segui-lo, procurando eliminá-lo no caso deste não pagar a dívida, uma situação que compele o personagem interpretado por Viggo Mortensen a assassinar o seu interlocutor. Rydal chega quando Chester transporta o corpo, pensando que o detective se encontra apenas inconsciente, um pensamento partilhado por Colette, ajudando o casal a fugir, mediante um elevado pagamento para passaportes falsos (Chester deixara os do casal no hotel). Os documentos serão entregues em Creta, algo que conduz os personagens a terem de se deslocar por localidades mais pequenas do que Heraclião, de forma a poderem circular sem problemas. As viagens são demoradas, com as ruas estreitas por onde estes personagens muitas das vezes se movem a parecerem claustrofóbicas e os espaços mais alargados demasiado diminutos para as dúvidas que se acercam das suas almas. A notícia nos jornais da morte do detective conduz a uma reviravolta na narrativa, com Rydal a perceber que foi envolvido num caso onde terá muitas dificuldades em não parecer cúmplice, tendo ainda de lidar com o cansaço inerente a toda esta jornada.

Chester parece pouco agradado pela presença de Rydal, este último parece demonstrar um interesse em Colette, enquanto a personagem interpretada por Kirsten Dunst demonstra um enorme desgaste com toda esta situação e pelas mentiras guardadas pelo marido. Diga-se que Colette até parece ser a mais inocente de toda esta situação, com "The Two Faces of January" a deixar-nos perante dois personagens masculinos longe de serem um exemplo moral, prontos a enganar e trair para conseguirem os seus objectivos. Embora em alguns momentos pareça que se vá perder pelos caminhos labirínticos por onde coloca os seus personagens, Hossein Hamini consegue elaborar um thriller competente, sobressaindo sobretudo a dinâmica entre os elementos interpretados por Oscar Isaac e Viggo Mortensen. Oscar Isaac como este guia oriundo dos EUA, bem falante, que se move pelo submundo do crime com a mesma facilidade que Harry Smith em "Sirocco", embora se envolva num caso que muito parece ter de Michael O'Hara em "The Lady From Shanghai". Não faltam traições, identidades trocadas, casos de aparente facilidade que facilmente incriminam o elemento errado, enquanto a paradisíaca Atenas turística facilmente se transforma num local onde o lado mais negro da sua história também é apresentado. Em certa parte é uma tragédia grega, onde Kirsten Dunst até pode não vir a ter o destino mais favorável, sendo desejada por ambas as figuras masculinas e apresentando uma personalidade algo frágil, embora nem por isso pareça questionar inicialmente de onde chegam os seus luxos. Rydal deseja-a, embora nem sempre o mostre de forma directa, com ambos os personagens a sentirem desejo mútuo apesar de nem sempre o exibirem. A cena em que dançam juntos ou saem quando Chester se encontra a dormir exibe um pouco da intimidade entre ambos, algo que não agrada em nada ao personagem interpretado por Viggo Mortensen. Chester bem se irrita. Está furioso. Tudo lhe corre mal. Os negócios obscuros foram descobertos. É perseguido pelos seus clientes e eliminou um homem. Encontra-se num local estranho que pouco domina. A sua esposa pode cair nos braços do único homem que o pode ajudar. Ah, lá "The Two Faces of January" mostra que não é uma obra assim tão simples e até é capaz de nos agarrar, sendo capaz de criar uma tensão crescente entre este trio de personagens reunido por razões pouco adequadas. Como se vão livrar deste imbróglio? Nem nós sabemos durante boa parte do filme, embora o final até seja um bocadinho moralista, quando se pedia um pouco mais de malvadeza. Nem Rydal, nem Chester são figuras propriamente agradáveis. Ambos enganam clientes embora a uma escala diferente, apesar do personagem interpretado por Oscar Isaac até parecer apresentar um pouquinho mais de valores morais e de lealdade. O argumento atribui alguma dimensão a estes personagens e ao seu passado, não esquecendo a relação complicada de Rydal com o pai, algo que explica um pouco a relação complexa deste com Chester, ou este último não o fizesse recordar do progenitor. Viggo Mortensen atribui algum mistério e malvadeza ao seu personagem, tal como Oscar Isaac é capaz de nos convencer como o "sacana simpático", enquanto Kirsten Dunst procura não ficar na sombra da figura destas figuras masculinas. É quase só sobre estes três que se concentra a narrativa, embora a morte do detective e uma morte posterior sejam elementos-chave de uma obra capaz de aproveitar de forma exímia os cenários exteriores por onde deambulam os personagens.

"The Two Faces of January" não poupa em alguns lugares históricos que não poderiam faltar numa obra filmada em locais belíssimos, mas também se aventura pelas ruas isoladas, pelos locais menos luxuosos, transportando-nos ainda para a Turquia embora aí já muito pareça ter sido perdido. Chester e Rydal são personagens bem humanos e não têm problemas em exibir esse nosso lado mais obscuro, embora o de ambos seja bem mais latente. Poderiam ter feito tudo de outra forma, mas escolheram os caminhos mais difíceis, sobretudo Chester, que não tem problemas em mentir a tudo e a todos e lixar o próximo, desde que quem se salve seja ele próprio. No final, uma confissão pode valer de muito mas não repõe o que já se perdeu, numa obra que conta com uma aparente sobriedade que não a impede de criar alguns momentos intensos. A meio do filme, por vezes parece que "The Two Faces of January" cai num impasse, mas gradualmente começamos a perceber que esta parceria entre o trio encontra-se cada vez mais a embrenhar em caminhos perigosos. Ou é o passaporte que tarda a chegar, ou é uma notícia inesperada, ou é o caminho a percorrer que é mais difícil, ou um ataque de ciúmes que termina da pior maneira. Chester e Rydal sabem quem são e como agem, surgindo como dois elementos muito semelhantes, dos quais muitas das vezes esperamos o pior. Eles também esperam e no final têm de lutar pelas suas vidas, mas longe estão aqueles momentos idílicos e solarengos no início de "The Two Faces of January". A luz e o calor deram o lugar à sombra, a Acrópole foi substituída pelo cemitério e a ascensão social de forma fácil parece estar longe de não ter perigos. O título do filme remete para o Deus Romano Janus, algo explicado na página do IMDB do filme "The month of January is named after Janus, the Roman god of transitions,beginnings, gates, doors, doorways, passages and endings, and as suchis usually portrayed with two faces, one looking to the future and the other to the past", ou seja uma metáfora que serve na perfeição na narrativa, ou não ficássemos também perante um início de uma relação complicada, portas que se fecham e outras que se abrem, mas também duas faces distintas (Rydal e Chester) que não são assim tão diferentes. O facto de ter como pano de fundo o início da década de 60 conduz a que o figurino tenha algum cuidado a respeitar a época, apresentando uma elegância que é partilhada em alguns momentos pela sua cinematografia, mas também pela adequada banda sonora de Alberto Iglesias. "The Two Faces of January" não é o melhor thriller que já se viu por aí e provavelmente não vai mudar a vida de ninguém, mas nem por isso deixa de nos colocar perante alguns momentos inquietantes e um duelo de vontades magnífico entre os personagens interpretados por Viggo Mortensen e Oscar Isaac, dois actores talentosos que exibem aqui alguns dos seus recursos, ao mesmo tempo que Hossein Amini pode dizer que conseguiu estrear-se com sucesso na realização de longas metragens.

Título em Portugal: "As Duas Faces de Janeiro". 
Título original: "The Two Faces of January".
Realizador: Hossein Amini.
Argumento: Hossein Amini.
Elenco: Viggo Mortensen, Kirsten Dunst, Oscar Isaac.

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