16 setembro 2014

Resenha Crítica: "Pierrot le Fou" (1965)

 Existem filmes que marcam, "Pierrot le Fou" é um deles. Diga-se que a colheita de 60 de Jean-Luc Godard é pródiga em causar-nos um certo fascínio perante um conjunto de trabalhos na sua maioria magníficos ou pelo menos muito acima da média, compostos por vários momentos memoráveis, um constante quebrar de regras, audácia, muitas referências cinéfilas e literárias, personagens marcantes e um estilo acutilante do cineasta em fazer comentários sobre a sociedade do seu tempo. Em "Pierrot le Fou" não é diferente, com Godard a deixar-nos perante uma nova colaboração com Jean-Paul Belmondo (o protagonista de "À Bout de Souffle", a sua primeira longa-metragem) e Anna Karina, durante muitos anos a sua musa (e até sua esposa). Belmondo interpreta Ferdinand Griffon, um indivíduo culto, algo desiludido com o vazio da sociedade do seu tempo, amante das artes, que perdeu o seu emprego na televisão. Este é casado, tendo dois filhos e uma relação matrimonial pouco estimulante, uma situação que o conduz a escolher um modo de vida marcado pelo incerteza e crime após reatar a relação com Marianne Renoir (Anna Karina), uma ex-namorada e baby-sitter dos seus filhos, uma mulher que supostamente seria sobrinha de Frank, um amigo do casal, embora seja a amante deste indivíduo. O momento para a mudança parece ter surgido durante uma festa na casa dos pais da esposa, onde conhece Samuel Fuller (interpretado pelo próprio, com este a dar-nos a sua definição sobre o que é o cinema) e escuta um conjunto de diálogos marcados pela vacuidade de conteúdo, onde muito se fala e pouco se diz de interesse. Não deixa de estar assim tão longe de alguns eventos sociais de hoje em dia, onde nos deparamos com diálogos sobre automóveis, sobre iphones e longos momentos para se tirar fotos para colocar nas redes sociais de forma a comprovar que o evento existiu mesmo, ou melhor, para exibir o mesmo perante os outros, mesmo que tenha sido uma valente borrada. Para Ferdinand a cultura é o mais importante, tanto que deu a folga à empregada para esta ir ao cinema ver "Johnny Guitar" e assim ajudar no incremento da cultura desta, algo que nem todos os que o rodeiam parecem ter. A festa onde este se encontra é marcada ainda pelos filtros com tonalidades verdes, azuis e vermelhas, um pouco a fazer recordar o que Godard efectuou em "Le Mépris", utilizando a paleta cromática para expor os estados de espírito e afastamento de Ferdinand em relação ao local. 

Ferdinand foge com Marianne Renoir, uma mulher que lhe atribui a alcunha de "Pierrot" (uma alcunha que pode ser associada a palhaço triste), algo que este não gosta e resulta num gag recorrente ao longo do filme. Os problemas e as situações perigosas são uma constante no quotidiano de Marianne e Ferdinand. A começar quando o protagonista encontra um cadáver na casa de Marianne, tendo ainda de deixar Frank inconsciente, até decidirem fugir, roubando combustível pelo caminho, num momento que mescla na perfeição a junção de géneros no interior do filme, não faltando elementos de filme de gangster (com este casal a parecer uma versão de Bonnie e Clyde), road movie (viagem que efectuam) e até comédia (veja-se a forma como se livram dos funcionários da bomba de gasolina). Pelo caminho ainda forjam as suas mortes, furtam um carro numa bomba de gasolina, até chegarem à Riviera Francesa. Acalmam quando chegam à Riviera Francesa, onde vivem inicialmente alguns momentos aparentemente idílicos, onde Ferdinand lê muito, escreve no seu diário, fala bastante e mantém uma estranha relação com Marianne, e Godard aproveita para explorar este cenário solarengo, marcado pela presença da praia e de espaços verdes. No entanto, nem tudo é perfeito entre Marianne e Ferdinand, com as idiossincrasias entre ambos a virem ao de cima. Como Marianne salienta, Ferdinand só fala com esta "com palavras", enquanto a personagem interpretada por Anna Karina olha para o protagonista "com sentimentos". Para Ferdinand, Marianne "nunca tem ideias, só sentimentos", ao passo que esta considera que "os sentimentos contêm ideias". Diga-se que ambos parecem ter razão, enquanto se debatem com diálogos existencialistas típicos deste cineasta, enquanto este joga com as palavras escritas e faladas, com os sons e silêncios, conjugando-os com as imagens e proporcionando alguns momentos marcantes. Veja-se quando coloca em destaque algumas obras de arte, sejam estas quadros ou tiras de banda desenhada, expondo ao mesmo tempo os diálogos dos personagens, como se fossem estas obras a falar e não Marianne e Ferdinand. Temos ainda o som das metralhadoras na Guerra do Vietname encenada pela dupla de protagonistas, com Godard a não se esquecer de abordar as questões políticas ao longo das referências que incute em "Pierrot le Fou". Não faltam os elementos de pendor político, algo visível em situações como o momento em que o casal encena a guerra do Vietname para um grupo de elementos dos EUA, mas também na sala de cinema em que assistimos Ferdinand a ver um jornal com actualidades onde passavam novidades sobre esse conflito. 

As referências não se ficam por aqui, ficando particularmente na memória quando Marianne demonstra algum desconforto quando ouve a notícia da morte de cento e quinze soldados na Guerra do Vietname, salientando que cada um destes tem um nome, embora sejam tratados como um mero número colectivo. Temos ainda o desenho deixado pela dupla de protagonistas aos turistas dos EUA, onde salientam a fidelidade a Mao, ao longo de uma obra onde Godard não esconde o seu engajamento político, algo que já tinha ficado bem presente em "Le Petit Soldat" (referido no filme através do poster no quarto de Marianne) e posteriormente com filmes como "Made in U.S.A.", "La Chinoise", entre outros. As referências não se ficam ao plano político, algo notório no que diz respeito às referências à sétima arte e à literatura, não faltando referências a "Johnny Guitar" de Nicholas Ray, a presença de Samuel Fuller, a noção de Ferdinand de que se sente um personagem de Raymond Chandler pronto a ser espancado, entre outras. No caso da referência aos personagens de Raymond Chandler, em particular aos detectives noir, até podemos dizer que o protagonista também cai no canto da sua femme fatale. Esta encontra-se a ser perseguida por dois elementos da Organisation de l'armée secrète, uma organização dissidente paramilitar, criada durante a Guerra da Argélia, tendo em vista a impedir a independência desta última. Escusado será dizer que a vida de Ferdinand fica em perigo, chegando até a ser torturado, em cenas a fazerem recordar um pouco ao que aconteceu à personagem de Anna Karina em "Le Petit Soldat", até se livrar destes elementos. Passado algum tempo volta a encontrar-se com Marianne, aceitando entrar num plano para ajudar o suposto irmão desta, algo que promete terminar da pior maneira. Marianne bem tinha dito quando se encontravam no solarengo espaço da Riviera Francesa que se encontrava algo aborrecida dos elementos "à Júlio Verne" e pretendia algo mais à filme de gangsters, uma situação que até se comprova. Não faltam reviravoltas a esta estranha relação, marcada por diálogos existenciais, alguma sedução, fugas de carro, momentos idílicos, mortes e traições. Jean-Luc Godard não poupa estes dois elementos, embora o mais fustigado pareça ser Ferdinand, o louco que resolveu largar mulher e filhos para fugir com uma ex-namorada e revoltar-se contra a sociedade do seu tempo, embrenhando-se num conjunto de actos criminosos e numa paixão que se revela explosiva. Jean Paul Belmondo e Anna Karina dominam a narrativa, concedendo carisma aos seus personagens, sendo capazes de criar duas figuras marcantes dos filmes de Godard. 

Belmondo como este indivíduo angustiado perante a falta de cultura e conhecimento daqueles que o rodeiam, um indivíduo algo impulsivo, um dos personagens leitores das obras de Godard, amantes da literatura e donos de boa oratória. Fica enfastiado pela festa na casa dos pais da mulher, onde se fala de temas como carros, desodorizantes e penteados, dominando o supérfluo, com "Pierrot le fou" a esboçar uma crítica ao capitalismo e aos valores vazios da sociedade, algo que já tinha ficado latente quando Ferdinand salienta que "Depois de Atenas, após o Renascimento, estamos agora a entrar na civilização do traseiro!", num tom jocoso a comentar a cinta adquirida pela esposa. A crítica fica ainda mais directa quando encontramos um elemento militar associado ao colonialismo a beber Coca-Cola, símbolo do capitalismo e da cultura yankee. A entrada de Marianne na existência de Ferdinand vem trazer alguma imprevisibilidade à mesma, com ambos a serem procurados por assassinato e crimes vários, enquanto vagueiam pelas estradas (qual road movie tresloucado), vivem momentos aparentemente idílicos, falam com os espectadores e protagonizam episódios marcantes. O facto dos protagonistas dirigirem-se aos espectadores a darem explicações e olharem directamente para a câmara de filmar não é novidade nos filmes de Jean-Luc Godard, algo visível em obras como "À Bout de Souffle", "Made in U.S.A.", entre outras. Temos ainda vários elementos das obras do cineasta, que volta a mostrar um tom muito próprio, incutindo referências literárias (genial o momento em que Ferdinand questiona "Também esqueceu Balzac?", para além dos diálogos onde são expostos os nomes de Joseph Conrad, Robert Louis Stevenson, William Faulkner, Jack London e Raymond Chandler, mas também referências políticas (Guerra da Argélia, Guerra do Vietname, Mao Tsé-Tung), cinematográficas ("Johnny Guitar", Samuel Fuller, Laurel e Hardy, "Le Petit Soldat"), entre outras, enquanto assistimos a um notável trabalho das imagens e das palavras. No caso das palavras, podemos dividir entre aquelas que são sentidas e aquelas que são apenas proferidas ou citadas, com Ferdinand a citar e ler muitos livros em voz alta mas a parecer por vezes faltar-lhe o sentimento de Marianne. 

Marianne é interpretada por uma sublime Anna Karina, uma das maiores descobertas e arriscamos a dizer que criações de Jean-Luc Godard. Com um olhar felino, magnético e expressivo, Anna Karina surge exposta com delicadeza e veneração pela câmara de filmar (veja-se os certeiros close-ups), convencendo como esta mulher misteriosa, capaz de matar e amar, sentir e destruir. Se Ferdinand é um homem dado à contemplação, pronto a gastar o dinheiro em livros, já Marianne é uma mulher de acção, encontrando-se envolvida com perigosos elementos de grupos criminosos, surgindo dada aos prazeres extemporâneos e a viver a vida no limite. Veja-se quando esta interpreta uma vietnamita, embora também não tenha problemas em utilizar vestes dos soldados dos EUA, em momentos que por vezes parecem não fazer muito sentido, embora no contexto das obras de Godard sejam certeiros e marcados por alguma mordacidade. O cuidado colocado na elaboração do filme também é visível na decoração da casa de Marianne, composta por elementos como armas, um poster de "Le Petit Soldad" e alguma frieza. Esta procura pelo suposto irmão, enfada-se nos momentos "à Júlio Verne", é algo sonhadora mas pragmática o suficiente para matar e trair. Não tem ainda problemas em cantar, com "Pierrot le Fou" a deixar-nos perante alguns momentos musicais de Marianne, por vezes a parecer uma forma de parodiar e subverter este género de filmes. O argumento, baseado muito livremente no livro "Obsession" de Lionel White", é inteligente, sobressaindo o facto de ter sido elaborado durante parte do processo de filmagens e contar com muitas improvisações, enquanto Jean-Luc Godard demonstra mais uma vez o seu enorme talento e singularidade. Existe ainda algum humor e situações rocambolescas a rodearem estas situações, para além do habitual recurso às elipses para avançar o enredo, enquanto ficamos perante uma dupla de protagonistas notável, cujas palavras para os tentar descrever e interpretar pecam sempre por escassas. Expoente máximo da Nouvelle Vague francesa, Godard tem em "Pierrot le Fou" uma das suas obras mais populares e marcantes, pronta a desafiar as nossas expectativas, deixando-nos perante um casal em direcção a um destino incerto e marcado por momentos memoráveis.

Título original: "Pierrot le Fou". 
Título em Portugal: "Pedro o Louco".
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Anna Karina, Graziella Galvani, Dirk Sanders, Jimmy Karoubi. 

Sem comentários: