02 setembro 2014

Resenha Crítica: "Onibaba" (1964)

 Composto por algum erotismo, misticismo e drama humano, "Onibaba" transporta-nos para o Japão do Século XIV, um território marcado por conflitos militares e gentes que procuram sobreviver a todo o custo. Entre essas gentes encontram-se a esposa (Jitsuko Yoshimura) e mãe (Nobuko Otowa) de Kichi, um elemento que foi obrigado a servir no conflito militar (estamos perante o Japão do período Nanboku-cho), deixando estas em grandes dificuldades para sobreviverem. Estas habitam num local rural, marcado pela presença de ervas salientes (mais especificamente as Miscanthus sinensis), o rio e as mortes que as duas provocam. As personagens interpretadas por Jitsuko Yoshimura e Nobuko Otowa ganham a vida a eliminar samurais, vingando-se dos elementos que perpetuam a guerra, ao mesmo tempo que aproveitam para furtar os bens destes e vendê-los a Ushi (Taiji Tonoyama), um mercador que troca os produtos roubados, sobretudo armas e armaduras, por comida. Os corpos são atirados para um interior de um buraco com elevadas dimensões, após as duas protagonistas cometerem actos de alguma brutalidade sobre as suas vítimas. A chegada de Hachi (Kei Sato), um elemento que conseguiu fugir do conflito (desertar), após ter combatido no mesmo ao lado do esposo da personagem interpretada por Jitsuko Yoshimura, promete mudar o quotidiano das protagonistas. Hachi salienta que o familiar destas duas mulheres faleceu no conflito, ficando próximo destas, sobretudo devido ao interesse que a viúva lhe desperta. Estamos perante as margens da guerra, onde o conflito não é visto regularmente nas imagens em movimento mas repercute-se nos elementos civis, algo visível no trio de protagonistas de "Onibaba". As duas mulheres matam para viverem e vingarem-se, enquanto aguardam por notícias sobre o familiar, enquanto Hachi também não tem problemas em furtar e assassinar para ter algumas condições mais aprazíveis para a sua existência, sendo um dos vários personagens de "Onibaba" cuja personalidade é visivelmente afectada pelo conflito, com esta guerra a fazer surgir o lado negro do ser humano, mas também a sua capacidade de sobrevivência perante a adversidade. A própria relação entre Hachi e a viúva surge marcada pela urgência em sentir, pelo prazer sexual e a incerteza em relação ao dia de amanhã que rodeia estes dois personagens. A cinematografia do filme contribui para o erotismo que rodeia esta relação, sendo criada uma atmosfera envolvente onde é visível o desejo entre Hachi e a personagem interpretada por Jitsujo Yoshimura, algo visível quando a câmara foca os gestos das ancas e traseiro desta última quando avança com um balde com água enquanto o seu pretendente a observa em enorme desejo. Temos também as enormes correrias que ambos fazem. Hachi para controlar os seus ímpetos, enquanto que a viúva procura correr até ao local onde este se encontra alojado. 

As cenas de sexo entre Hachi e a viúva são marcadas pela união dos corpos despidos e pelo desejo, numa relação carnal que não agrada em nada à mãe do falecido. Até então a relação entre a sogra e nora tinha sido marcada por alguma união e entreajuda, por vezes a fazer recordar a relação das duas protagonistas de "Kuroneko", um magnífico filme de fantasmas realizado por Kaneto Shindo, quatro anos depois de "Onibaba". Em "Onibaba", Shindo volta a colocar-nos perante um Japão do passado que reflecte problemas do seu tempo, explorando as consequências de um conflito militar nos elementos mais desfavorecidos, apresentando um foco particular nas duas figuras femininas. Estas vivem com poucas condições de vida, utilizando vestes que exibem parte do seu peito, numa obra que não tem problemas a lidar com a nudez e o corpo da dupla de protagonistas, com Kaneto Shindo a atribuir algum erotismo ao filme. A casa de ambas é um espaço algo diminuto, quase claustrofóbico, algo visível nas cenas nocturnas, onde o calor é visível, numa habitação que rapidamente se torna pequena para os sentimentos que estas mulheres se preparam para expressar. As duas mulheres surgem unidas a um nível inicial, mas a mais jovem logo cede à tentação carnal, enquanto a mãe do falecido também parece sentir alguma atracção pelo elemento masculino que rompe com o quotidiano de ambas. Essa situação é particularmente visível, quando a personagem interpretada por Nobuko Otowa, durante algum tempo a musa de Shindo, esfrega o seu corpo junto a uma árvore, mas também quando se oferece ao desertor. A chegada de um samurai com uma máscara semelhante às utilizadas nas peças de teatro Noh logo permite à personagem interpretada por Nobuko Otowa eliminar o mesmo e roubar a máscara. Esta procurar assustar a viúva, fingindo ser um demónio que a persegue pelos seus pecados, embora se esqueça que a utilização deste objecto pode trazer consequências desastrosas. Nobuko Otowa e Jitsuko Yoshimura estão longe de interpretarem mulheres completamente inocentes, bem pelo contrário. Estas matam, roubam, apresentam dificuldades em controlar os ímpetos sexuais, com as actrizes a sobressaírem pela forma credível como dão vida a esta dupla que gradualmente se afasta. Já Kei Sato atribui alguma malícia a Hachi, um homem que procura a todo o custo fugir ao conflito e seduzir a viúva do amigo, ao longo de um filme onde os close-ups são muitas das vezes fulcrais para exacerbar os sentimentos dos personagens interpretados pelo trio de protagonistas. Veja-se desde logo quando Hachi conta às duas mulheres os acontecimentos militares do território e o episódio que conduziu à morte do familiar destas, com os rostos de ambas a exibirem um turbilhão de sentimentos. Esta não é a única cena que sobressai. Temos desde logo os momentos em que encontramos as duas mulheres a dormirem, de seios descobertos, com a viúva a não esconder alguma incapacidade em se controlar perante a possibilidade de poder fazer sexo com Hachi. Os lábios de Jitsuko Yoshimura contribuem para a sensualidade da sua personagem, ao longo de um filme onde ficamos perante alguns sentimentos quase selvagens entre os vários elementos. Procuram sobreviver e sentir prazer num Japão em guerra, onde os líderes se digladiam pelo poder e os elementos dos escalões sociais mais baixos se encontram em situações para as quais muitas das vezes não contribuíram. 

A máscara Hannya vem contribuir para um clima associado às lendas e ao misticismo, tendo sido inspirada na parábola budista "yome-odoshi-no men", num objecto que, de acordo com o realizador, os seus efeitos secundários simbolizam as desfigurações provocadas pelos bombardeamentos a Hiroxima e Nagasáqui. A mensagem política e social de "Onibaba" não é deixada de lado, algo que fica evidente deste os momentos iniciais quando é salientado que "Esta história apoiada numa velha lenda sobre guerras e tragédias, mostra o aspecto primitivo que há sob a civilização. Um buraco negro e profundo, cuja escuridão dura desde tempos remotos até à actualidade". No caso de "Onibaba", o enredo desenrola-se no Japão do Século XIV, pouco tempo depois da Batalha de Minatogawa, um conflito que contribuiu para o adensar de uma Guerra Civil que colocou em conflito os homens do Imperador Go-Daigo e os elementos apoiantes do clã Ashikaga. Hachi salienta a presença do conflito ao comentar: "Agora há dois imperadores. Kusunoki luta pelo imperador do Monte Yoshino. Ashikaga pelo do Kyoto. Quer dizer, os dois imperadores estão em guerra". Este desertou da guerra, tendo combatido pelo exército de Kusunoki, com o filme a explorar os efeitos dos conflitos militares nos seres humanos, uma temática que Kaneto Shindo voltaria a abordar em "Kuroneko", mas também em filmes como "Children of Hiroshima", ou não fosse este, tal como um dos seus mestres, Kenji Mizoguchi, um elemento preocupado com questões relevantes da sua sociedade. O cineasta volta ainda a utilizar de forma exímia a banda sonora (o som dos tambores) e os silêncios, mas também a trabalhar as imagens em movimento, criando uma obra filmada a preto e branco, marcada por uma atmosfera onde o desejo, a morte e a miséria surgem muito presentes. Encontrar um género para catalogar "Onibaba" é tarefa difícil, com o filme a deambular entre o drama e alguns elementos associados ao terror, embora remeta para as obras de fantasmas japonesas dos anos 60 que sobressaíam pela atmosfera criada e não pelos sustos avulsos. Mesclando elementos associados ao misticismo com temáticas bem reais, "Onibaba" explora eficazmente as consequências da guerra nos indivíduos, ao mesmo tempo que nos proporciona alguns momentos de cinema que facilmente ficam na memória.

Título original: "Onibaba".
Realizador: Kaneto Shindo.
Argumento: Kaneto Shindo.
Elenco: Nobuko Otowa, Jitsuko Yoshimura, Kei Satō.

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