11 setembro 2014

Resenha Crítica: "Once" (No Mesmo Tom)

 Existem filmes que nos conquistam pela sua aparente simplicidade. "Once" é um desses casos, onde ficamos perante uma relação de amizade construída por acaso, onde a música tem um papel de relevo. Ele (Glen Hansard) toca viola e canta nas ruas de Dublin como hobbie, enquanto ela (Markéta Irglová) vende revistas e flores nas ruas, sendo oriunda da República Checa. Conhecem-se quando esta ouve uma música original do cantor e procura saber para quem é que ele escreveu a canção, e também por que é que de dia só toca músicas conhecidas e à noite músicas originais escritas pelo próprio. Ele parece meio incomodado por algumas questões, mas aos poucos vão conversando e a meio da conversa esta descobre que o protagonista conserta aspiradores na loja do pai. Perante esta descoberta, a personagem interpretada por Markéta Irglová compromete-se a trazer o seu electrodoméstico avariado para o cantor arranjar, algo que permite um novo encontro entre os dois. Aos poucos estes dois elementos que nunca nos revelam os seus nomes começam a conhecer-se. São figuras algo isoladas, comuns, tão banais como qualquer um de nós, vivendo um dia de cada vez, tendo os seus hobbies, enquanto procuram ser felizes. Ele a cantar e tocar viola, compondo músicas sobretudo sobre desgosto amoroso, tendo sido traído pela sua ex-namorada, uma mulher que se mudou para Londres e este pretende reconquistar (temos um momento belíssimo, recheado de melancolia em que este observa vídeos que tinha na companhia da ex-namorada enquanto canta). Ela tem uma filha ainda bastante jovem, tendo-se separado do marido que se encontra a viver na República Checa, tocando piano numa loja durante a hora de almoço. Ele decide tocar uma música com esta num desses intervalos, enquanto os acordes de ambos parecem unir-se de forma sublime, quase perfeita, tal como as suas personalidades parecem conjugar-se na perfeição. O personagem interpretado por Glen Hansard ainda tenta um avanço falhado, apesar da amizade entre ambos não acabar, com este a visitar a casa dela, conhecendo a mãe da mesma e a filha. Não sabia que esta tinha uma filha e era casada, algo que parece travar os seus planos amorosos, existindo quase sempre ao longo do filme o sentimento que estes personagens se amam mas temem tomar o passo decisivo. Antes de partir para Londres, o protagonista decide gravar um disco com esta, onde ele toca viola e canta, ela acompanha como cantora secundária e ao piano, trazendo ainda mais um conjunto de cantores de rua. Será o caminho para o sucesso? Acima de tudo a gravação do disco já parece um sucesso, mas também a reunião destas almas isoladas, com John Carney a elaborar um romance musical marcado por enorme candura e simplicidade. Não temos uma cinematografia portentosa ou uma narrativa desafiante, mas sim vários momentos para recordar, que facilmente nos conquistam (veja-se quando os protagonistas se encontram isolados a cantar as suas canções), com a música a ter um papel fulcral no avançar da narrativa. Ajuda Glen Hansard e Markéta Irglová serem músicos e já terem trabalhado juntos no "The Swell Season", tendo composto as músicas originais do filme, que facilmente ditam muito da personalidade de cada personagem, mas também dos episódios sobre o seu passado e o futuro. Ambos são cantores com vozes apelativas, com as suas músicas meio indie-rock e rock-folk a funcionarem na perfeição, com "Falling Slowly" a chegar a vencer o Oscar de Melhor Canção Original em 2007. A própria dinâmica entre esta dupla de cantores convence-nos, com ambos a evidenciarem a solidão dos seus personagens, mas também a forma como cada um dos mesmos conseguiu influenciar a vida um do outro.

Esperamos a qualquer momento o romance entre a dupla, mas John Carney não nos dá. Oferece-nos antes alguns momentos que parecem saídos de "Before Sunrise", onde também um casal se conheceu de forma improvável. O romantismo e os diálogos delicados também existem em "Once", mas John Carney evita, por vezes para nosso desgosto, reunir os dois numa relação amorosa. Ela espera voltar a reunir-se com o marido, ele quer reencontrar a ex-namorada, enquanto pelo meio vão ajudando a curar as feridas um do outro e a dar um rumo às suas existências que pareciam barcos perdidos no meio deste enorme oceano que é o destino. Este é também um dos casos de sucesso de um filme de baixíssimo orçamento onde quase tudo parece correr bem, tendo sido filmado ao longo de dezassete dias, com um orçamento de cerca de 150 mil dólares, uma simplicidade que se nota na obra, mas nem por isso a impede de nos conseguir a espaços emocionar e compelir a seguir a história destes dois personagens. São dois seres solitários, unidos por muito em comum. Veja-se que ele vive com o pai após a mãe ter falecido (e após o próprio protagonista ter estado afastado do território), ela vive com a progenitora e a filha, ambos têm empregos pouco emotivos e um enorme dom para a música. Aos poucos ela também começa a compor e tocar a sua música, mas também a trocar alguns momentos de maior intimidade, algo visível na cena em que estes se encontram num espaço algo florestal e esta revela pormenores sobre a sua relação com o ex-marido. Os cenários que os rodeiam são simples, com a possível frieza a nível de temperatura de Dublin a ser contrastada com o calor dos sentimentos que "Once" evidencia, contando com alguns momentos musicais de encher o coração. Não é um filme perfeito nem o tenta ser, procurando apenas exibir a história de dois jovens adultos que se conectam, tendo na música algo em comum, uma paixão para a qual apresentam enorme talento. Já John Carney sabe jogar com as limitações do filme, mas também com a química entre a dupla de protagonistas, criando um conjunto de números musicais sóbrios, sobressaindo não só a cena em que ela toca com o protagonista sozinha no piano na pausa das gravações, mas também quando este se encontra no autocarro a tocar sobre a sua história, entre muitos outros. A música não é acessório mas sim elemento fulcral, num filme onde o sentimento raramente fica de fora, apesar do final não ser provavelmente aquele que os românticos mais desejam. A própria cidade de Dublin surge como uma personagem relevante, desde a rua onde o personagem toca, passando pelas lojas, incluindo a de instrumentos musicais, o estabelecimento de conserto de aspiradores do pai do protagonista, os seus prédio, jardins (veja-se quando o protagonista procura correr atrás de Anton, um viciado em droga, para recuperar a mala roubada), sendo tudo apresentado não como um cartão postal, mas sim como parte integrante da vida destes dois personagens que facilmente nos transportam para as suas vidas e até para alguns momentos inesperados. Aos poucos torcemos para que estes tenham sucesso a nível profissional e que consigam cumprir os seus sonhos, enquanto somos envolvidos pelas suas belíssimas músicas que ajudam a avançar com a narrativa e a incrementar a mesma, numa obra onde o romantismo raramente deixa de estar presente, seja este numa canção, num gesto, numa palavra, embora a dupla de protagonistas provavelmente nunca chegue a viver uma paixão como Jesse e Celine. No entanto, algo parece certo: viveram momentos em conjunto que marcaram as suas vidas provavelmente de forma tão forte como a da dupla de protagonistas da trilogia iniciada em "Before Sunrise".

Título original: "Once".
Título em Portugal: "No Mesmo Tom".
Realizador: John Carney.
Argumento: John Carney.
Elenco:  Glen Hansard e Markéta Irglová.

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