12 setembro 2014

Resenha Crítica: "Mauvais Sang" (Má Raça)

 Para onde corremos? O que queremos sentir? Seremos capazes de ter um namoro ou casamento sem amor? Quem somos e qual o nosso lugar neste planeta onde somos tão pequenos? Estas questões certamente (ou talvez não) terão ocorrido a Alex (Denis Lavant), o protagonista de "Mauvais Sang", a segunda longa-metragem realizada pelo controverso Leos Carax. Alex é um enigma. Mestre na arte de movimentar as cartas como Michel (Martin LaSalle) era para roubar as carteiras, parece saído de um filme de Jean-Luc Godard, embora a Anna Karina de Carax seja Juliette Binoche. Ambos os personagens interpretados pela dupla relacionam-se e não se relacionam, dialogam muito e exibem os seus sentimentos. Quando não exibem os sentimentos pelos gestos, desabafam entre si e connosco. Já sentiram a necessidade de falar algo com alguém? Claro que sim. No caso de Alex e até de Anna (Juliette Binoche), por vezes, os espectadores são os seus melhores ouvintes, embora nem sempre compreendamos os seus comportamentos. Mesmo estes nem sempre se parecem compreender a si próprios. Alex ainda parece em busca da sua própria identidade. Apresenta interesse em duas mulheres, é ventríloquo amador, corre, vive ao som da música da rádio e do seu ritmo, andando loucamente ao som de "Modern Love" de David Bowie, naquela que é uma das cenas marcantes do filme e um momento importante da vida do personagem. Recebe com algum desprezo a notícia da morte do seu pai, apresentando uma frieza que adensa em alguns momentos a sua alienação em relação ao mundo que o rodeia, parecendo desintegrado do mesmo. Deixa Lise (Julie Delpy), a sua namorada, de forma algo abrupta, embora esta não aceite bem a decisão e o protagonista ainda a ame, procurando tomar mais um passo para a mudança de rumo na sua vida. Ganha dinheiro com pequenos truques com as cartas, ou seja, golpes onde engana apostadores, esteve preso durante quinze meses, ainda nutre sentimentos por Lise, é solitário embora geralmente esteja rodeado de gente. Fuma muito. Quase todos os personagens de "Mauvais Sang" apresentam este vício e prazer, muito ao jeito dos filmes noir, de onde este filme também parece ter tirado inspiração (o espaço urbano marcado pelo crime, os personagens de carácter dúbio, um protagonista com propensão para se envolver em problemas, as narrações, entre outros elementos). Vício incessante, que pode matar, tal como o destino e o estilo de vida que estes personagens levam. Alex conhece Anna depois de ser contactado por Hans (Hans Meyer), a pedido de Marc (Michel Piccoli), dois gangsters de idade avançada, que bem poderiam ter saído de "Touchez Pas au Grisbi", "Du rififi chez les hommes" ou "Bob le Flambeur", que eram amigos e parceiros de Jean, o pai do personagem interpretado por Denis Lavant, um elemento que foi supostamente eliminado pela "americana" (Carroll Brooks, uma actriz que também esteve presente em “Boy Meets Girl”, a primeira longa-metragem de Carax) devido a dívidas contraídas para com esta. Marc e Hans também estão com as suas vidas em perigo, encontrando na procura de assaltar o laboratório Darley Wilkinson a única forma de conseguirem pagar a dívida. No laboratório, encontra-se um vírus isolado do STBO que pode resultar na cura dos infectados desta doença que ataca amantes que fazem amor sem sentimento. O antídoto está ao alcance de poucos, pelo que o roubo permitiria a Marc e Hans conseguirem valores elevados para pagar a dívida à americana, vendendo o retrovírus isolado a outro laboratório, uma situação que os conduz a pedir a ajuda de Alex. Não parece ser uma decisão consensual, mas ambos acabam por conseguir convencer este jovem perante a promessa de uma avultada quantia. Junto destes encontra-se ainda Anna, a bela e jovem namorada de Marc, uma mulher que vai despertar a atenção de Alex e do espectador.

Leos Carax não poupa na atenção ao pormenor do rosto de Juliette Binoche, filmando-a com uma reverência quase semelhante à que Godard filmou Anna Karina, embora em alguns momentos até nos deixe perante momentos que parecem saídos do cinema mudo e esta se transforma numa estrela dos anos 20 (com Carax a parecer evocar alguma nostalgia em relação ao cinema desses tempos). A sua cara é algo pálida, sobressaindo os lábios rosados e muitas das vezes a camisola vermelha que utiliza, cor quente, de paixão e sedução. Inicialmente, Carax esconde-nos a cara desta mulher, desfocando-a, parecendo saída de um sonho que não nos lembramos bem, até a exibir em toda a sua plenitude. Binoche tem um desempenho magnífico. É sempre isso que esperamos dela. Consegue explorar as contradições da sua personagem, uma mulher atraída por um homem mais velho, embora não rechace por completo os avanços de Alex, protagonizando com este alguns momentos de romance mas também de enorme criancice, como se fossem dois irmãos a viverem uma infância perdida. Veja-se quando este a enche de espuma de barbear ou quando esta cobre o corpo de Alex de batom, correndo pela casa que os abriga enquanto esperam pelo grande dia do roubo, mas também quando o protagonista efectua alguns truques de magia. Leos Carax por vezes parece estar-se completamente a lixar para o assalto e para o plano. Prefere antes explorar as especificidades, personalidades e estados de espírito dos seus personagens, abordar os seus relacionamentos perante este território urbano parisiense marcado por enorme calor devido à passagem do cometa Halley. Os personagens masculinos, muitas das vezes, andam de tronco nu devido ao calor exacerbado, embora Carax tarde é em despir-lhes a alma. No final, ficamos a conhecer Alex, ou não? É um personagem que Denis Lavant cria com enorme engenho, explorando todas as suas bizarrias mas também alguns momentos de maior candura, parecendo sempre alguém em mutação e indeciso. Não esquece totalmente Lise, mas o seu coração bate mais forte por Anna. O nosso também. Existe algo de estranho nesta mulher que atrai Alex e nos atrai, enquanto "Mauvais Sang" os deixa durante algum tempo a falar um com o outro, mas também consigo próprios, por vezes praticamente virados para a câmara, quais personagens de Godard a falarem com o espectador (ou a fazerem recordar as longas falas de Mireille e Alex em "Boy Meets Girl"). A influência de Jean-Luc Godard em "Mauvais Sang" é latente. Não só no próprio protagonista, um personagem leitor (veja-se o seu quarto cheio de livros, apesar de não ler jornais), complexo, pronto a expressar algumas falas marcadas por profundidade e existencialismo, mas também nas próprias referências cinéfilas (veja-se a referência a Dana, um dos homens da "americana", provavelmente em referência a Dana Andrews, a menção a Jean Cocteau, mas também o Inspector Mouchette em referência a "Mouchette" de Robert Bresson), o papel fulcral da música e sobretudo do som (veja-se quando os sons exteriores interrompem os diálogos), para além do próprio instituto nos remeter para um espaço muito "Alphaville", embora não tenhamos um Lemmy Caution. Apesar de todas estas semelhanças, vale a pena realçar que Leos Carax está longe de nos apresentar uma colagem a Godard e até a Robert Bresson (os tiques com objectos quase a treinar os movimentos das cartas fazem-nos recordar o protagonista de "Pickpocket", mas também a atenção dada por este cineasta ao gesto, como em filmes como "Lancelot du lac", "Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut", entre outros), criando uma obra que muito tem de sua.

As relações complicadas e marcadas por estranheza são algo que marca "Boy Meets Girl", primeiro filme do cineasta (onde tínhamos Denis Lavant, também como Alex, como um aspirante a realizador que se apaixona por uma mulher depressiva), mas também "Mauvais Sang" e até "Les Amants du Pont-Neuf" (onde recupera a magnífica dupla formada por Juliette Binoche e Denis Lavant). Não faltam as longas conversas, marcadas por alguma humanidade, romantismo, estranheza e existencialismo, onde nem sempre tudo faz sentido com excepção dos sentimentos, existindo ainda alguma irracionalidade (algo comum aos vários filmes de Carax, com aquela louca e memorável corrida de Alex ou a sua procura de levantar um carro a não serem assim tão distantes de Merde a comer flores em "Holy Motors"). Denis Lavant, actor predilecto de Carax, eleva estas obras e eleva "Mauvais Sang", interpretando um personagem que parece chegar tardiamente à idade adulta, embora também contemos com um elenco secundário bem composto. Veja-se Michel Piccoli como Marc, um indivíduo já de alguma idade, que deveria até ter juízo, mas continua a planear assaltos e namora com uma jovem que o ama e admira. Anna por vezes questiona-se sobre o estado da enigmática relação de ambos, enquanto Marc mostra esporadicamente algum afecto pela mesma e temor em relação ao futuro. O seu personagem quer assaltar o laboratório, embora o plano seja preparado de forma bastante pueril, com quase tudo a recair no jovem Alex. O protagonista pende entre as duas mulheres da sua vida, embora Anna pareça inatingível e o futuro na Suíça esteja nos seus planos, procurando um recomeçar após anos de vários erros. Temos ainda Carroll Brooks como a "americana", uma mulher misteriosa, aparentemente fria que, com poucos diálogos, vê a sua personalidade forte ser bem estabelecida. Vale ainda a pena realçar uma jovem Julie Delpy como Lise, a ex-namorada do protagonista que o segue em momentos relevantes do enredo, mas também Hans Meyer como Hans, numa obra que procura ainda explorar metaforicamente o flagelo da SIDA. Essa situação é visível no sexo sem amor, simbolizando a falta de protecção, mas também quando vemos a personagem interpretada por Julie Delpy a colocar um preservativo no protagonista, existindo uma procura didáctica de sensibilizar o espectador, embora não tratando o mesmo como idiota. Temos ainda a atenção de Leos Carax ao pormenor, seja este um fio de telefone, o chão quente, a barba que vai para o ralo, a face dos seus protagonistas, usando e abusando dos close-ups extremos, criando uma obra de apaixonante estranheza. A montagem e o trabalho de câmara dinamizam a narrativa, que raramente nos enfada e muito nos estimula, quase que pedindo para a revisitarmos vezes sem conta e percebermos cada vez mais sobre estes personagens. No final, o assalto. Irá realizar-se? Será efectuado com sucesso? Não iremos aqui revelar e diga-se que Carax cedo nos mostra que essa não é a sua maior preocupação. É um assalto feito para ganhar dinheiro e não propriamente para curar os doentes, um crime que não pode deixar de ser punido, embora a maior transgressão que estes personagens parecem cometer é não conseguirem definir aquilo que pretendem. São desalinhados, tal como é Leos Carax, que tem em "Mauvais Sang" um filme longe de ser de "Má Raça", mas sim de boa colheita.

Título original: "Mauvais Sang". 
Título em Portugal: "Má Raça".
Realizador: Leos Carax. 
Argumento: Leos Carax
Elenco: Michel Piccoli, Juliette Binoche, Denis Lavant, Julie Delpy, Hans Meyer.

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