03 setembro 2014

Resenha Crítica: "Kwaidan" (1964)

  Um dos elementos que mais sobressai em "Kwaidan" centra-se no enorme cuidado no trabalho das imagens em movimento, com a cor e a iluminação a serem exploradas de forma exímia e meticulosa ao serviço da narrativa. No primeiro segmento sobressaem os tons algo azulados/acinzentados e frios da casa da primeira mulher do protagonista que contrastam facilmente com a manta vermelha que decora parte do cenário. No segundo segmento, intitulado "The Woman of the Snow", voltamos a ter as tonalidades azuis associadas à frieza, mas também alaranjadas nos momentos de maior calor humano até a narrativa revelar a sua verdadeira face. Já em "Hoichi the Earless" encontramos as tonalidades alaranjadas e avermelhadas dos céus, quase a parecerem uma pintura, com o segmento a contar ainda com tons frios associados ao espaço do cemitério onde se desenrola parte do enredo, mas também o mar marcado pela cor vermelha, simbolizando o sangue derramado pelos soldados. Diga-se que este terceiro segmento é onde fica mais expresso a expressionista utilização das cores, não faltando tonalidades vermelhas, laranjas, azuis, entre outras, com Masaki Kobayashi a transportar para o grande ecrã o seu interesse pela pintura. Por fim, "A Cup of Tea" é o segmento onde a paleta cromática surge mais sóbria, mas nem por isso menos relevante para atribuir um tom algo inquietante aos acontecimentos. Estamos perante um dos filmes de terror mais relevantes da História do Cinema Japonês, com Masaki Kobayashi a realizar uma obra marcada por quatro segmentos distintos, que sobressaem pela tensão gradual que o cineasta coloca nos acontecimentos, mas também na oposição entre o mundo material e o mundo espiritual. Mais do que sustos gratuitos, muito sangue ou situações espalhafatosas, Masaki Kobayashi opta pela discrição, por um ritmo algo contemplativo, dando tempo para criar uma atmosfera inebriante ao longo destas quatro histórias que tiveram como base o livro "Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things" de Lafcadio Hearn. Esta obra literária reuniu vários contos da cultura popular japonesa, algo visível no segmento "The Woman of the Snow" que nos apresenta a Yuki-onna, uma figura feminina fantasmagórica que habita regiões marcadas pela neve. Neste segmento, somos apresentados a Minokichi (Tatsuya Nakadai) e Mosaku, dois lenhadores que costumam embrenhar-se regularmente por um território florestal. Estes logo são travados por uma enorme tempestade de neve, com o cenário a surgir marcado por tonalidades frias, azuladas, até Mosaku, o elemento de mais idade, ser eliminado por Yuki-onna (Keiko Kishi), um demónio que deixa Minokichi vivo na condição do jovem adulto não revelar o que aconteceu.
A narrativa avança um ano, surgindo marcada por céus alaranjados e até com traços de cor de rosa, com o cenário a parecer aparentemente idílico, até Yuki aparecer na vida de Minokichi, embora este não se recorde da mesma. Iniciam uma relação da qual resultam três filhos e uma aparente felicidade, pelo menos até Minokichi se recordar do célebre episódio que conduziu à morte do amigo. Exacerbado por uma cinematografia cuidada, "The Woman of the Snow" surge como aquele que provavelmente é o segmento melhor conseguido de "Kwaidan". Os close-ups (muitas das vezes) surgem exímios a explorar uma certa malícia no olhar da personagem interpretada por Keiko Kishi, com esta a dar vida a uma mulher misteriosa, que aparenta uma enorme doçura embora seja um ser letal. Os filtros azuis, associados aos close-ups extremos, adensam e muito os momentos de maior tensão que envolvem Yuki e Minokichi, um casal que noutras condições até poderia ser feliz mas vê a relação deteriorar-se por completo devido à revelação deste último. Minokichi é interpretado por Tatsuya Nakadai, um colaborador habitual de Masaki Kobayashi, que é capaz de expor alguma da inocência do seu personagem, incluindo na forma como efectua a revelação sobre o seu suposto sonho à esposa, algo que contrasta com o cinismo inicial do protagonista de "The Black Hair". O primeiro segmento, intitulado "The Black Hair", teve como base o conto "The Reconciliation", inserido na obra "Shadowings" de Lafcadio Hearn. A história centra-se num samurai (Rentaro Mikuni) caído em desgraça que se vê na pobreza devido à ruína do seu senhor. Este decide abandonar a sua esposa (Michiyo Aratama) e a sua habitação em Quioto, deixando-a num pranto, num cenário marcado pela frieza (num enredo a fazer recordar a história de Genjuro em "Ugetsu Monogatarai"). Pouco depois, este casa com uma mulher (Misako Watanabe) de ricas posses, de forma a ganhar outro estatuto social, indo trabalhar com um Governador, até gradualmente aperceber-se do grave erro que cometeu. Inicialmente tudo parece correr bem, algo indicado pelos solarengos cenários exteriores, mas a nova esposa do protagonista logo se revela fútil e pouco dada a grandes demonstrações de amor, algo que conduz este a perceber que continua a amar a primeira mulher. Preso às memórias do passado e a um presente infeliz, este antigo samurai decide ir visitar a antiga esposa. Voltamos à casa inicial, marcada por elementos decorativo de madeira, tons algo frios e demonstrações de algum afecto entre ambos os personagens, pelo menos até a personagem interpretada por Michiyo Aratama expor de forma paradigmática que nem tudo está como antes. Este é um segmento que atribui desde logo o tom a "Kwaidan", sobressaindo por um cuidado trabalho de câmara, de composição dos planos, uma clara noção de mise en scène por parte de Kobayashi, mas também um conjunto de interpretações que claramente incrementam o enredo e personagens que lidam com fenómenos sobrenaturais. 

A história é bastante simples e marcada pelos elementos associados ao misticismo japonês, com Rentaro Mikuni a destacar-se como este elemento que descobre tarde demais o valor do amor. Este convence na mudança comportamental do seu personagem, começando a narrativa como um homem desesperado e pronto a tudo para sair da pobreza, até perceber o valor do que tinha. Já Michiyo Aratama atribui uma enorme fragilidade a esta mulher abandonada, enquanto que Misako Watanabe expõe paradigmaticamente a frieza da sua personagem. Não existe muito tempo para explorar o relacionamento do protagonista com as suas esposas, pelo que o trabalho do elenco e a atmosfera marcante criada por Masaki Kobayashi surgem como elementos essenciais para incrementarem o enredo. Essa atmosfera inebriante surge ainda brilhantemente exposta no terceiro segmento, onde os espíritos do passado regressam para atormentar a vida de Hoichi (Katsuo Nakamura), um monge cego que habita num templo em Akamageseki, especialista a tocar Biwa, em particular "A Lenda de Heike", sobre a Batalha de Dan-no-ura, que envolveu os clãs Heike e Genji, tendo resultado na derrota do primeiro. A batalha é representada de forma algo teatral, com uma expressionista utilização das cores, onde a pintura e o cinema parecem andar lado a lado, incluindo quando é exposta uma obra de arte que representa o conflito. De noite, quando se encontrava sozinho no templo, Hoichi é contactado para recitar esse episódio histórico, até os seus colegas do templo descobrirem que o protagonista pode falar com mortos, encontrando-se a tocar para os fantasmas dos elementos do clã Heike, incluindo com aquele que seria o Imperador. Os monges pintam um conjunto de palavras protectoras contra os fantasmas no corpo de Hoichi, embora se esqueçam de o fazer nas orelhas, algo que promete alguns dos momentos mais dolorosos e sangrentos do filme. A certa altura damos por nós a tocar nos nossos ouvidos, enquanto ficamos perante esta história que gradualmente vai revelando a sua faceta, muito marcada por elementos históricos, lendários e religiosos. O terceiro segmento conta ainda com um dos momentos mais icónicos do filme, com o personagem interpretado por Katsuo Nakamura a surgir com o corpo pintado, aparentemente protegido de todos, mas não do erro humano. O nevoeiro por vezes cobre os cenários deste terceiro segmento, tal como tinha acontecido em "The Woman of the Snow", enquanto ficamos perante um espaço do templo que parece incapaz de proteger um dos seus habitantes e um cemitério onde a morte não parece ser problema para travar alguns dos elementos que se encontram no local agarrado às memórias do passado.

O papel da memória é fundamental ao longo dos quatro segmentos do filme, sejam as memórias do passado do protagonista de "The Black Hair", a memória do assassinato do amigo em "The Woman of the Snow", as memórias que os espíritos guardam do passado em "Hoichi the Earless" e as recordações que o protagonista de "In a Cup of Tea" guarda das suas obras. Existe uma aura algo tenebrosa e macabra a rodear os acontecimentos do terceiro segmento, mas também no último capítulo de "Kwaidan", onde o narrador faz questão de remeter para as obras literárias inacabadas japonesas, deixando-nos perante um escritor a elaborar uma história sobre um guarda do Lorde Nakagawa Sado. Este encontra a face de um indivíduo numa taça com água, uma situação que se torna mais bizarra quando este surge e o protagonista fica numa situação desesperante. O estranho supostamente chama-se Shikibu Heinai, desaparecendo misteriosamente, enquanto deixa o protagonista em sobressalto, num segmento que facilmente nos deixará a pensar duas vezes antes de olharmos para recipientes com água. Ficamos assim perante quatro segmentos inspirados em elementos associados à cultura popular japonesa, onde o mito e o rito se encontram e a desgraça pode chegar de forma inesperada. Masaki Kobayashi procura criar gradualmente o medo no espectador, ao longo de uma antologia que sobressai sempre mais pelo cuidado nas imagens em movimento e na construção da narrativa do que nos sustos avulsos, algo que atribui a "Kwaidan" um valor que ultrapassa e muito a única visualização, visto não estar dependente de reviravoltas inesperadas e sustos sem aviso. Existe alguma poesia e delicadeza a rodear o filme, algo nem sempre visível nos filmes de terror, com "Kwaidan" a exibir a enorme capacidade de Masaki Kobayashi em criar algo que surpreende pelo cuidado colocado na elaboração da obra. É certo que pode ser acusado de por vezes ter um ritmo lento, mas esta suposta lentidão é essencial para o cineasta criar a tensão necessária e dar tempo para observarmos com atenção aquilo que tem para nos dar, sabendo despertar os nossos sentidos, sem que para isso nos tenha de inquietar incessantemente. Mais do que um filme de terror per se, estamos perante um conjunto de histórias de "fantasmas", associados às lendas japonesas, expostas com alguma finura, onde o trabalho de câmara é muitas das vezes essencial para exacerbar os acontecimentos, mas também o acertado trabalho de sonoplastia, com o som a contribuir e muito para esta atmosfera marcada pelo misticismo de "Kwaidan". Vale ainda a pena salientar os cenários cuidadosamente criados em estúdio, ao longo de quatro contos baseados nas colecções de Lafcadio Hearn, um escritor natural de Lefkadia que teria um papel fundamental na recolha destas obras associadas ao folclore japonês. O título original de "Kwaidan" remete para kaidan, ou seja, histórias de fantasmas, um subgénero muito popular nas décadas de 50 e 60 no Japão, bem como os kaiju eiga (ou daikaju eiga), com os primeiros a colocarem-nos perante elementos sobrenaturais a envolverem-se no mundo terreno, enquanto os segundos deixam-nos perante monstros gigantes, tais como Godzilla. No caso de "Kwaidan" ficamos ainda perante elementos das peças de teatro Noh e de teatro Kabuki, associadas ao sobrenatural, mas também aos espíritos que prometem imiscuir-se no quotidiano dos vivos. O resultado final é um filme que mescla elementos de fantasia e terror marcado por uma enorme finura, onde os planos com aprumo, as histórias marcadas por algum misticismo e a paleta cromática utilizada de forma sublime.

Título original: "Kaidan".
Título em inglês: "Kwaidan".
Realizador: Masaki Kobayashi.
Argumento: Yôko Mizuki.
Elenco: Rentarō Mikuni, Keiko Kishi, Michiyo Aratama, Misako Watanabe, Tatsuya Nakadai.

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