01 setembro 2014

Resenha Crítica: "Kuroneko" (Yabu no naka no kuroneko)

 Filme de fantasmas que sobressai mais pela sua atmosfera envolvente e inebriante do que pelos sustos avulsos, "Kuroneko" remete-nos para as lendas populares japonesas e para a boa tradição das obras nipónicas deste subgénero. Realizado por Kaneto Shindo, através do argumento do próprio, "Kuroneko" sobressai ainda como um dos elementos da boa safra de filmes de fantasmas da década de 60 no cinema japonês, colocando-nos perante Yone (Nobuko Otowa) e a sua nora, Shige (Kiwako Taichi), dois espíritos que regressam ao mundo dos vivos para se vingarem dos samurais, após terem sido violadas e queimadas vivas pelos mesmos. As cenas iniciais são violentas, com estas mulheres a serem violadas pelos samurais que entram de rompante na habitação e logo causam a destruição. A saída destes elementos surge marcada pelo fumo que invade a casa, com o fogo a consumir e destruir a habitação e queimar os corpos de Yone e Shige, até os seus cadáveres serem lambidos por um gato negro, formando um pacto com uma entidade maligna que lhes permite vingarem-se dos samurais, num filme que denuncia alguns actos pouco nobres destes elementos sobre os civis no Japão durante o período Sengoku (c.1467 – c.1573). Nesse sentido, "Kuroneko" remete-nos para os kaidan eiga onde tínhamos um yurei, um espírito vingador que regressa dos mortos para se vingar, enquanto os humanos lidam no mundo terreno com estes elementos. O primeiro terço do filme explana paradigmaticamente o quotidiano destas mulheres, com Shige a atrair os homens para a sua casa nas imediações de Rajomon, num território rural marcado pela presença de bambus, fortes nevoeiros e ventos uivantes. Os samurais logo expõem as suas facetas confiantes junto das mulheres acabando quase todos por serem eliminados, com excepção de Hachi (Nakamura Kichiemon II), um elemento que inicialmente encontramos a eliminar Kumasunehiko, um general inimigo, uma situação que o conduz a ficar nas boas graças de Raiko (Kei Sato), o Governador local. Hachi utiliza o nome de combate "Gintoki", sendo enviado para eliminar os dois espíritos que se encontram a assassinar e sugar o sangue dos samurais. A missão já parecia complicada, mas ainda fica mais intrincada quando o personagem interpretado por Nakamura Kichiemon II descobre que estes são a sua mãe e esposa. A família separou-se há três anos atrás, quando Hachi foi obrigado a abandonar Yone, a sua mãe e Shige, a sua esposa, para participar no conflito militar. Esta situação gera um conflito de interesses em ambas as partes, embora não impeça que Shige passe alguns momentos de enorme erotismo com o esposo, com estes a procurarem recuperar o tempo perdido. Não falta alguma nudez, sensualidade e estranheza, ou não estivéssemos perante uma relação entre uma mulher falecida e um elemento vivo, pelo menos até descobrirmos que esta se prepara para sacrificar a sua presença no mundo terreno para poder estar sete dias com o amado. Raiko pretende que Hachi elimine as duas familiares, algo que o deixa perante um enorme dilema, ao longo de uma obra marcada por elementos sobrenaturais, onde a morte não parece ser impeditivo para os falecidos regressarem ao mundo dos vivos e manterem alguma da sua humanidade.

 A representação destas mulheres é bastante típica dos filmes de fantasmas japoneses deste período. Cabelos negros bastante longos, face pálida, sobrancelhas cortadas e pintadas, quimono vestido, para além de habitarem numa casa que na realidade não existe, sendo apenas o produto de uma ilusão causada por estas. A casa é marcada pelos cortinados esvoaçantes, que atribuem algum mistério aos episódios que se desenrolam no seu interior, algo visível não só quando o primeiro samurai é eliminado, mas também na cena em que Shige e o esposo se entregam um ao outro. Esta estrutura habitacional surge ainda marcada por uma arquitectura que a espaços nos faz recordar um palco, remetendo para alguma inspiração de "Kuroneko" no teatro japonês, ao mesmo tempo que este espaço se torna um antro da morte para os samurais, tal como a casa de Shige e Yone fora um local de morte para estas mulheres no início do filme. Se em "Ugetsu" as duas mulheres demónios com quem Genjuro habita temporariamente não pareciam pretender causar-lhe grandes estragos, já Yone e Shige procuram eliminar todos os samurais, agarrando-se violentamente aos seus pescoços de forma a sorver o seu sangue, num acto ainda associado ao vampirismo. Estas fizeram um acordo com uma entidade maligna para regressarem ao mundo dos vivos, apresentando alguns elementos felinos, embora não escondam os sentimentos por Hachi. Estamos perante uma família destroçada pela guerra, com um elemento a ter sido obrigado a cumprir serviço militar e as duas mulheres a serem eliminadas, algo que deixa marcas profundas nas suas existências. Shige ainda ama o esposo, apesar de já não poder estar com este da forma como esperava, uma situação espelhada de forma exímia por Kiwako Taichi, uma actriz que tem neste espírito uma das grandes personagens da sua carreira. Tanto é capaz de surgir letal perante os samurais, como frágil e com alguma candura junto de Hachi, efectuando a transição a nível comportamental desta personagem sem grandes problemas. Já Nakamura Kichiemon II tem um desempenho credível como este indivíduo que se vê no dilema entre ter de obedecer ao seu superior ou ceder aos laços familiares. Será possível deixar de amar alguém depois da morte? As dúvidas de Shige evidenciam que esta questão não é de fácil resposta, com o protagonista a acabar por ceder ao amor pela esposa. A atmosfera que os envolve é marcada pelos elementos sobrenaturais, realçada ainda mais pela magnífica cinematografia de Kiyomi Kuroda, mas também pelo trabalho a nível de cenários e aproveitamento dos mesmos. Veja-se desde logo as cenas nos bambus, onde encontramos Shige com o primeiro samurai, mas também o já salientado momento em que os personagens interpretados por Kiwako Taichi e Kichiemon Nakamura se entregam aos prazeres carnais. Temos ainda os nevoeiros salientes, prontos a adensarem o mistério em volta dos acontecimentos da narrativa, algo muito comum nestes filmes de fantasmas japoneses deste período. O Japão que nos é apresentado surge marcado pelo conflito militar e pelas consequências que este tem nas suas gentes, um retrato que pode servir para espelhar as repercussões de outras guerras contemporâneas, ao longo de uma obra marcada por algum misticismo e mistério.

Mais do que provocar sustos gratuitos, Kaneto Shinoda parece procurar despertar o medo, quer nos personagens, quer nos espectadores, embora estes receios estejam muito relacionados com a perda de elementos que nos são próximos, uma situação visível na história do trio de protagonistas. Existe ainda uma tensão gradual em volta dos acontecimentos da narrativa, com os destinos dos personagens a surgir incerto e a prometer não ser agradável para todos. Kaneto Shinoda é exímio a ritmar a narrativa, mas também a construir os personagens e a criar uma atmosfera que facilmente nos envolve para o interior deste território japonês. A narrativa mescla elementos bem reais associados ao passado do Japão, mas também sobrenaturais e fantasiosos, com estes dois últimos a serem conjugados na perfeição com o realismo atribuído por Shinoda. Embora seja um cineasta com uma carreira algo variada a nível de temáticas das suas obras cinematográficas, Shinoda já tinha dado mostras do seu talento para filmes de terror em "Onibaba", voltando a dar atenção ao papel das mulheres na sociedade através destes dois espíritos trágicos. Nesse sentido recupera também algumas das temáticas de "Ugetsu" de Kenji Mizoguchi, mas também alguns temas de outras obras deste brilhante cineasta, com Shinoda a fazer recair a sua simpatia nas duas mulheres, em particular na mãe de Hachi. Já os homens nem sempre são representados da forma mais simpática, em particular os elementos mais favorecidos como Raiko, um elemento cujos maiores feitos na maior parte dos casos fazem parte das lendas e não da realidade, vivendo no luxo quando boa parte da população se encontra em situações pouco adequadas (num comentário social claro de Shinoda). Raiko não tem problemas em mandar Hachi averiguar o caso dos dois espíritos que eliminam os samurais, expondo a sua pouca coragem ao mesmo tempo que demonstra temer pela sua vida. Hachi trabalha junto dos elementos que provocaram a morte da sua esposa e da sua mãe, mas não parece disposto abandonar a função de samurai, algo que certamente seria complicado, embora não deixe de evidenciar paradigmaticamente os sentimentos pelas familiares. No final, mãe e filho encontram-se, embora ambos pareçam ter muito a perder, numa obra capaz ainda de abordar temáticas relacionadas com os laços familiares. O comentário social fica ainda paradigmaticamente representado na cena em que Yone elimina um samurai e os elementos mais desfavorecidos acorrem de imediato para ficarem com os bens, quais pombos a procurar por pedaços de milho, sendo exibida alguma da miséria destes elementos. Entre gatos pretos, espíritos que regressam dos mortos, figuras espectrais, uma paixão à prova da morte, nevoeiros inquietantes, sons de tambores e silêncios inquietantes, "Kuroneko" sobressai como um marcante filme onde o fantástico e o real colidem.

Título original: "Yabu no naka no kuroneko".
Título em inglês: "Kuroneko".
Realizador: Kaneto Shindo. 
Argumento: Kaneto Shindo.
Elenco: Kichiemon Nakamura, Nobuko Otowa, Kiwako Taichi. 

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