24 setembro 2014

Resenha Crítica: "Joi Baba Felunath" (O Deus Elefante)

 Satyajit Ray volta a trazer ao grande ecrã o seu popular detective Feluda (Soumitra Chatterjee), naquela que é a segunda obra cinematográfica baseada no personagem. Feluda é um detective competente, perspicaz, atento aos pormenores e fumador, transmitindo quase sempre uma enorme calma ao espectador e aos elementos que o rodeiam. Este foi um personagem criado por Satyajit Ray, tendo como inspiração Sherlock Holmes, tal como Tapesh, o seu ajudante, teve inspiração no Sr. Watson. A primeira aparição de Feluda aconteceu em 1965, no conto "Feludar Goyendagiri" (Feluda's Investigation), escrito por Satyajit Ray, tendo gerado uma série literária protagonizada pelo personagem, com "Joi Baba Felunath" a surgir como a adaptação do décimo primeiro livro/conto da saga. Diga-se que Sandip Ray viria posteriormente a adaptar o detective Feluda ao grande ecrã em cinco filmes, para além de terem sido elaborados vários telefilmes inspirados no mesmo, algo que evidencia de forma paradigmática a popularidade deste personagem na Índia. Em "Sonar Kella", a primeira adaptação do célebre personagem, o detective tinha de seguir uma criança que dizia saber elementos sobre a vida passada, tendo relatado a existência de uma fortaleza dourada onde constavam jóias, algo que despertou a atenção de dois criminosos. Em "Joi Baba Felunath", voltamos a contar com diversos elementos destinados ao público mais jovem, mas também muita intriga, reviravoltas, algumas mortes e vários elementos ligados à cultura e religião indiana. Diga-se que voltamos a encontrar uma das grandes qualidades de Satyajit Ray que passa por este conseguir mesclar temáticas completamente universais, tais como a investigação desenvolvida pelo detective e os seus dois ajudantes, com elementos muito próprios da cultura do seu país, explorando a diversidade da mesma, embora estejamos longe de obras maiores como "Charulata". Nem parece ser intenção de Satyajit Ray criar um filme com a densidade dos seus trabalhos de maior relevo, procurando antes elaborar uma obra de investigação capaz de prender o espectador ao caso principal, longe de apresentar grandes explorações da psicologia dos personagens, ao mesmo tempo que exibe o talento do protagonista para o seu ofício. No início de "Joi Baba Felanuth" encontramos Maganlal (Utpal Dutt), um homem de negócios moralmente corrupto, a tentar negociar uma estatueta de Ganesh, o Deus Elefante, composta por ouro, um diamante na coroa, rubis e esmeraldas na base, com Umanath Ghoshal (Haradhan Bandopadhyay), o filho do proprietário da mesma, a recusar a oferta. Umanath recusa vender o objecto, não só por afeição pessoal e a sua valia, mas também por este vender "os tesouros do país a estrangeiros". Este episódio acontece no prólogo, repercutindo-se posteriormente nas férias de Feluda em Kashi, onde este se encontra em conjunto com Topshe (Siddartha Chatterjee), o seu sobrinho e assistente, bem como Jatayu (Santosh Dutta), um escritor de livros policiais que conheceu o protagonista no filme anterior e desde então segue o mesmo em busca de material para as suas histórias e para ajudá-lo. Estes encontram-se em Kashi para visitarem as festividades que servem para honrar as várias divindades, num local que conta com trinta e três templos. É então que Feluda é contactado por Umanath Ghosal, tendo em vista a descobrir a estatueta de Ganesh que entretanto fora roubada.  A investigação prepara-se para ser intrincada, embora o suspeito mais óbvio pareça ser Maganlal, apesar do detective não colocar de fora a possibilidade de elementos como o jovem Ruku (Jit Bose), o filho de Umanath, saber mais informações do que revela, mas também Bikash (Biplab Chatterjee), um dos empregados da família Ghosal. O patriarca e dono da estátua pede para conhecer o protagonista e os seus dois ajudantes, sendo um ávido leitor de policiais, acabando por ficar convencido pelos mesmos, enquanto estes se embrenham na investigação.

Estes encontram-se instalados no Hotel Calcutá, um espaço que tem um papel semelhante à casa do circuito do primeiro filme, com o trio a conhecer Bishosri, um culturista que passa boa parte do tempo em tronco nu e a mostrar os seus músculos, mas também Machhli Baba, um líder espiritual fraudulento que é seguido por uma vasta multidão, apresentando alguma apetência para o crime. Feluda, Topshe e Jatayu acabam por ser chamados por Maganlal, com este a oferecer duas mil rupias para estes se afastarem do caso, com o primeiro a desconfiar e a rejeitar a proposta. A partir daqui somos confrontados com um momento de enorme tensão, com Maganlal a deixar-nos perante um espectáculo onde um lançador de facas testa a sua perícia em Jatayu, numa obra que a espaços surge marcada por alguma emoção, embora seja relativamente previsível. A estrutura acaba por ser algo semelhante à do primeiro filme, com Satyjavit Ray a conseguir mesclar com sucesso uma investigação intrincada com elementos associados à cultura do seu país. Desta vez não falta a exibição de réplicas das divindades locais, mas também a própria diversidade cultural, embora a resolução seja demasiado pueril. Estamos perante um filme para toda a família, capaz de provar a versatilidade de Satyajit Ray como realizador, tanto capaz de elaborar dramas que se desenrolavam maioritariamente em espaços fechados como "Charulata" onde tínhamos um triângulo amoroso, mas também filmes marcados por algum humor como "Mahapursh", para além de filmes de investigação como "Sonar Kella". Em "Joi Baba Felunath", Soumitra Chatterjeeum, um colaborador habitual de Ray, volta a atribuir alguma credibilidade a este detective, sempre atento aos pormenores e aos detalhes, sendo praticamente impossível duvidar que este não vai resolver o caso com sucesso. Temos ainda alguns actores secundários como Santosh Dutta e Siddartha Chatterjee que conseguem sobressair. Dutta como o escritor entusiasmado com as aventuras e investigações que está a viver, enquanto que Siddartha destaca-se como o ajudante fiel, qual Mr. Watson pronto a auxiliar Sherlock Holmes. Vale ainda a pena salientar o jovem Jit Bose como Ruku, uma criança que parece fascinada pelos heróis da cultura ocidental, com Satyajit Ray a voltar a exibir a influência da mesma na Índia. A estragar a pintura estão figuras caricaturais como o culturista que praticamente apenas serve para introduzir a subtrama do fascínio que os seus músculos exercem no escritor, que encontra ali um potencial personagem para o seu livro. O próprio antagonista interpretado por Utpal Dutt está longe de poder vir a ser uma ameaça série a Feluda, embora prometa trazer-lhe alguns problemas. Já a realização de Satyajit Ray sobressai não só por conseguir manter a investigação minimamente cativante, mas também pela utilização dos cenários exteriores, em particular a cidade de Benares, onde o cineasta já tinha filmado em "Aparajito", algo salientado em "Satyajit Ray - The Inner Eye - The Biography of a Master Film-maker" de Andrew Robinson, "The possibility of shooting Benares in colour, twenty years or so after Aparajito – during the first half of 1978 – appealed to Ray, as did the opportunity to depict the ethos of Bengalitola, the area of the city where a large population of Bengalis live, some of them in extraordinary mansions tucked away between narrow alleys". Diga-se que Ray explora bastante bem este território, desde os eventos, passando pelas suas ruas labirínticas, pelos locais superpovoados, enquanto coloca o protagonista e os seus ajudantes em perigo de vida para resolver o caso. O cineasta volta ainda a aproveitar de forma eficaz os cenários interiores ao serviço da narrativa, tais como a casa da família de Umanath e o local onde Maganlal recebe o trio, existindo algum cuidado na decoração destes espaços, algo que incrementa e muito o enredo. Filme de investigação pronto a exibir a versatilidade de Satyajit Ray, "Joi Baba Felunath" cumpre a manter-nos minimamente presos à investigação e a entreter-nos ao longo de cerca de duas horas, embora também esteja longe de entusiasmar e surpreender.

Título original: "Joi Baba Felunath". 
Título em Portugal: "O Deus Elefante".
Realizador:  Satyajit Ray.
Argumento:  Satyajit Ray.
Elenco: Soumitra Chatterjee, Santosh Dutta, Siddartha Chatterjee, Utpal Dutt, Haradhan Bandopadhyay, Biplab Chatterjee,

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