18 setembro 2014

Resenha Crítica: "À Bout de Souffle" (1960)

 Admirador de Humphrey Bogart, fumador, apaixonado por uma aspirante a jornalista dos EUA, criminoso, a espaços acompanhado por óculos escuros, pouco dado a seguir regras, Michel (Jean-Paul Belmondo) apresenta um estilo de vida desregrado, protagonizando um conjunto de momentos memoráveis ao longo de "À Bout de Souffle", a primeira longa metragem realizada por Jean-Luc Godard. Crítico de cinema que resolveu colocar "as mãos na massa", Jean-Luc Godard é um dos cineastas mais influentes da História do Cinema e da chamada Nouvelle Vague, contribuindo para um movimento de ruptura no cinema francês. Este rompe com as convenções, usa e abusa dos jump-cuts para cortar com a continuidade da narrativa, coloca os personagens a falar com os espectadores, deixa-os de costas para nós, expõe as suas expressões em close-ups (por vezes extremos) precisos, apresenta um universo narrativo a espaços algo pessimista em relação aos destinos dos seus personagens que parecem partilhar uma ambiguidade muito própria dos filmes noir. A influência de Humphrey Bogart em Michel é visível (tal como este posteriormente servirá de exemplo para algumas obras dos EUA), com este a fazer recordar os cínicos detectives interpretados por Bogie em obras como "The Maltese Falcon" e "The Big Sleep" e até os gangsters que o icónico actor interpretou nos anos 30 e 40. Ainda é feita referência a "The Harder They Fall", com Godard a não poupar nas referências a Humphrey Bogart, enquanto o personagem interpretado por Belmondo exibe constantemente a sua enorme apetência para se envolver em problemas. Este cometeu um crime violento que o promete conduzir à desgraça, tendo roubado um carro em Marselha e assassinado um polícia, pretendendo fugir para Roma, mas apenas com a companhia de Patricia (Jean Seberg), uma aspirante a jornalista que vende jornais do New York Herald Tribune nas ruas de Paris. Com o cabelo curto, descomplexada, bela, algo insegura em relação aos seus sentimentos para com Michel, esta é um enigma por decifrar (uma situação comum a várias personagens femininas dos filmes de Godard nos anos 60) que troca com o criminoso vários momentos de cumplicidade, quer no quarto onde o protagonista mostra a sua obsessão para tirar a roupa à amada (e mexer no seu traseiro), quer nos cenários exteriores, com tudo a ser colocado em perigo devido ao estilo errático de Michel. Este procura fugir da polícia e por vezes até de si mesmo, partilha momentos de intimidade com a amada no quarto, mas não parece ter grande rumo, dando a Jean-Paul Belmondo uma oportunidade para explorar o seu talento.

Jean-Paul Belmondo tem em Michel mais um personagem marcante, um indivíduo duro, fã de Humphrey Bogart, mordaz, por vezes violento e obsessivo, para quem "Os carros são para andar, não para parar", que procura ainda receber o dinheiro que um indivíduo lhe deve, sendo apaixonado por Patricia. Este tem um conjunto de falas mordazes, por vezes marcadas por algum cinismo, sendo capaz de roubar uma ex-namorada, procurando conquistar Patricia, enquanto é perseguido pelas autoridades. Já Jean Seberg não se deixa ofuscar pelo colega, interpretando uma personagem que apresenta laivos de procura pela independência, bela e sensual, que nem sempre compreende as expressões e os gestos dos franceses, deixando-se conquistar por este indivíduo imprevisível. A cidade de Paris também é personagem fundamental, com Jean-Luc Godard a apresentar-nos as suas ruas e estradas, os seus monumentos (não falta a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo) e até as suas gentes pouco heróicas, incluindo Michel. Este não é o típico personagem por quem estamos habituados a nutrir simpatia, mas gradualmente desperta a nossa atenção, um indivíduo que ama viver no limite, não parece saber o que quer da vida e parece reflectir um sentimento da França da época. A história foi livremente baseada num artigo "The News in Brief" encontrado por François Truffaut, que escrevera a primeira versão do argumento ao lado de Claude Chabrol, tendo como base a história verídica de Michel Portail, um indivíduo que roubara um carro para visitar a sua mãe que se encontrava doente, acabando pelo caminho por assassinar um polícia. Godard escreveria o argumento daquele que seria um dos filmes definidores da chamada Nouvelle Vague, com este movimento de ruptura em relação ao cinema francês que se fazia na época a ter em "À Bout de Suffle" uma das suas obras definidoras, tal como seriam filmes como "Hiroshima Mon Amour" de Alain Resnais, "Les 400 Coups" de Truffaut, entre outras. Em "À Bout de Souffle" a câmara de filmar segue o protagonista, treme, é sentida e transmite sentimentos, ao mesmo tempo que Godard nos apresenta a uma história aparentemente simples mas tão cheia de sentimento, marcada por diálogos que deambulam entre o existencialismo e temas banais, passando pelo sexo, as relações amorosas, o papel da mulher e os carros. 

Muitos dos diálogos foram improvisados e o argumento até chegou a ser escrito durante o dia das filmagens, algo comum a vários filmes do cineasta, com quase tudo a funcionar ao longo desta obra onde já podemos encontrar vários traços que vão ser transversais aos trabalhos cinematográficos de Jean-Luc Godard desta fase da sua carreira. Nesse sentido, encontramos não só elementos como os personagens a dirigirem-se para a câmara de filmar, os jump-cuts, a recomendável cinematografia de Raoul Coutard, mas também as várias referências cinéfilas. Entre as várias referências cinéfilas, aquela que mais se destaca é a Humphrey Bogart, mas também o momento sublime em que Michel critica os americanos por gostarem de Maurice Chevalier, o qual, ao lado de la Fayette, são considerados como "justamente os mais cretinos de todos os franceses". Temos ainda outros elementos que marcam as obras de Godard deste período, tais como as referências literárias (William Faulkner e Dylan Thomas), o exacerbamento dos sons dos cenários que envolvem os personagens, tais como buzinas de carros, para além de uma banda sonora magnífica, capaz de dar um toque de classe a um filme memorável. Ao longo do filme, muito se dialoga, muito se sente e muito se vive, apesar da vida ser tão efémera como o fumo dos cigarros solto por Michel, embora "À Bout de Souffle" pareça condenado a conquistar a imortalidade e a ganhar novo valor a cada visualização.

Título original: "À Bout de Souffle". 
Título em Portugal: "O Acossado". 
Título em Inglês: "Breathless". 
Realizador: Jean-Luc Godard. 
Argumento:  Jean-Luc Godard. 
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean Seberg, Daniel Boulanger, Henri-Jacques Huet, Roger Hanin, Jean-Pierre Melville.

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