09 setembro 2014

Resenha Crítica: "Begin Again" (Num Outro Tom)

 John Carney procura recuperar vários dos elementos que contribuíram para o sucesso de "Once", uma das obras marcantes de 2006, em "Begin Again". Não falta a utilização paradigmática da música ao serviço da narrativa e para nos contar acontecimentos da mesma, uma dupla de protagonistas com carisma e enorme dinâmica, mas também um notório sentido de ritmo e uma capacidade assaz interessante de conseguir transformar momentos aparentemente banais em algo de único. Sobre "Once", Roger Ebert disse "It's one of those films where you hold your breath, hoping it knows how good it is, and doesn't take a wrong turn. It doesn't. Even the ending is the right ending, the more you think about it". A descrição para "Begin Again" não anda muito distante desta efectuada por Roger Ebert a "Once", surgindo como um feel good movie bem construído, marcado por um argumento simples, mas bastante eficaz na construção dos personagens e dos seus relacionamentos. A música é fulcral para o filme, não só para ritmar o mesmo, mas também para expressar sentimentos dos personagens, avançar com momentos do enredo e incrementar uma obra que nos deixa perante Dan Mulligan (Mark Ruffalo) e Gretta (Keira Knightley), dois personagens cujas vidas já conheceram melhores dias. A primeira vez que encontramos Dan e Gretta estes encontram-se num bar em East Village, um local conhecido desde os anos sessenta pela contracultura, onde vários artistas procuravam lançar as suas carreiras. Gretta sobe ao palco de um bar a contragosto, a pedido de Steve (James Corden), o seu melhor amigo. Quase todos parecem tomar pouca atenção à música de Gretta, com excepção de Dan, que fica encantado com o trabalho da mesma. O filme logo segue para dois flashbacks que nos apresentam aos acontecimentos que conduziram Dan e Gretta até ao bar. Dan encontra-se num farrapo, vivendo num apartamento barato, tão desarrumado como as suas ideias, dado ao consumo excessivo de álcool, que se encontra separado da sua ex-mulher, Miriam (Catherine Keener), e tem uma relação complicada com Violet (Hailee Steinfeld), a sua filha adolescente. A sua vida profissional também não se encontra melhor, tendo sido despedido da Distress Records, a empresa de produção musical que ajudou a criar com Saul (Mos Def), após várias divergências, incluindo continuar a não aceitar as mudanças no mundo da música e não apresentar um novo talento em sete anos. Enfrasca-se em grande, tendo na bebida uma forma de entorpecer os seus fracassos até ouvir Gretta, sozinha, acompanhada pela sua viola, a cantar, imaginando-a acompanhada por todo um conjunto de instrumentos, vendo nesta um enorme potencial. Não tem problemas em contactá-la, apesar de já não ser um produtor musical, embora esta recuse a proposta para um teste. Gretta chegou a Nova Iorque acompanhada por Dave Kohl (Adam Levine), um cantor de sucesso que colecciona fãs, procura marcar concertos, procura trabalhar com uma grande produtora, tendo inicialmente a companhia da personagem interpretada por Keira Knightley a seu lado. Gretta é uma compositora, toca guitarra e tem sido um apoio fundamental de Dave, mas uma traição deste conduz ao separar de ambos. Esta vai viver temporariamente com Steve, que logo a convence a ir ao bar, onde encontra Dan e este lhe faz a proposta.

No dia seguinte a rejeitar a proposta, Gretta liga a Dan e aceita reunir-se com Saul, com este a ficar pouco impressionado com o desempenho da protagonista. É então que Dan e Gretta decidem algo diferente, com o primeiro a produzir o álbum com os recursos e conhecimento que tem à disposição, aproveitando os vários locais de Nova Iorque para gravarem as músicas. Esta parece relutante em acreditar no seu talento, mas Dan vê nesta um enorme potencial, com a dinâmica entre Keira Knightley e Mark Ruffalo a ser fundamental para o filme funcionar. Keira Knightley tem um daqueles rostos marcados por enorme graciosidade, transmitindo uma enorme fragilidade, mas também alguma confiança e carisma, parecendo ter algo de Audrey Hepburn. Perdoem a comparação, entre a diva e Knightley, mas ambas parecem capazes de nos convencer e encantar com pequenos pormenores aparentemente tão banais, que em outras actrizes passariam despercebidos, surpreendendo ainda pela sua capacidade para cantar. Facilmente acreditamos na dor amorosa sofrida pela personagem, mas também o seu amor pela música e os seus valores em relação à mesma, procurando manter a sua personalidade, sempre com um pouquinho de sarcasmo, formando com Dan uma relação de enorme amizade. Por vezes parece que ambos se amam, mas a preocupação maior é o disco. John Carney prefere não uni-los numa relação amorosa, procurando antes explorar a forma como mutuamente ajudam a superar a falta de confiança pela qual passavam e a "lamber feridas mútuas", enquanto vivem alguns momentos memoráveis. A certa altura do filme ouvem "As Time Goes By", música associada a "Casablanca", um dos filmes preferidos da protagonista (mais uma boa razão para gostarmos desta), remetendo para o poder da música em conseguir transformar cada momento em algo de diferente e único. Os momentos em que Dan e Gretta procuram gravar o disco são realmente únicos, são os momentos de Paris de Ilsa e Rick, mas acima de tudo são o bálsamo que estes precisavam para as suas almas. Estes são dois personagens que amam e sentem a música, algo que sentimos, com John Carney, tal como em "Once", a convencer-nos do encanto da sua dupla de protagonista pela sua actividade. Diga-se que em "Once" também tínhamos a gravação de um conjunto de músicas, mas muito menos diálogos, com "Begin Again" a procurar ser mais ambicioso a nível narrativo, procurando explorar mais o relacionamento da dupla com as suas caras metades, com os elementos interpretados por Adam Levine e Catherine Keener a terem alguma relevância, para além de conter um maior número de personagens. Nota-se ainda que Carney conta claramente com um orçamento maior à sua disposição. Esta situação permite-lhe não só ter duas estrelas como protagonistas, mas também filmar por um conjunto diverso de locais, transformando Nova Iorque numa personagem e cenário, tal como fizera com Dublin em "Once". Somos apresentados aos clubes nocturnos, às empresas discográficas, às suas ruas e bares, aos seus apartamentos e dicotomias, mas também aos seus edifícios marcantes e até à estação de metro, onde os personagens procuram gravar com entusiasmo as suas músicas. Aos poucos juntam-se mais elementos a Gretta e Dan, com "Begin Again" a associar a elaboração do CD com o cicatrizar de feridas do passado pela parte da dupla de protagonistas, enquanto estes procuram seguir em frente com as suas vidas. 

 Gretta pode ou não voltar a reunir-se com o ex-namorado, parecendo certo que ainda se amam, com esta a apresentar um momento musical digno de nota. Dan procura voltar a dar-se com a filha e com a ex-mulher, com os dois elementos da dupla de protagonistas a procurarem lidar com as mudanças ocorridas nas suas vidas e a perceberem que só existe um caminho: seguir em frente. Esse seguir em frente pode significar deixarem de lado as suas antigas caras metades ou procurarem recuperar as relações e assumir que os erros acontecem, com o filme a sobressair pela sua humanidade na abordagem destas temáticas. John Carney repete com sucesso vários elementos que contribuíram para o êxito de "Once", tendo em "Begin Again" um filme onde a música tem um papel fulcral, com o realizador a parecer realmente interessado na mesma e na forma como esta pode ajudar a obra cinematográfica. Existem vários momentos musicais marcantes, que vão desde a célebre cena inicial no bar, passando pelo "As Time Goes By", por Gretta a deixar uma música na caixa de mensagens do iphone do namorado, mas também um concerto onde Dave mostra que nem tudo está perdido entre si e a protagonista. A certa altura do filme, o personagem interpretado por Mark Ruffalo diz que a lista de músicas de uma pessoa diz muito sobre a mesma, algo que em certa parte é bastante verdade, mas também se aplica ao filme, capaz de apresentar o poder das canções, e também a reverência do cineasta para com as mesmas. Tal como em "Once", John Carney dá um dos papéis de relevo a um músico, neste caso a Adam Levine. Este convence muito mais nos momentos musicais do que a interpretar, embora esteja longe de desiludir, conseguindo por vezes até ironizar um pouco com a sua pessoa musical, ou não fosse este um músico de sucesso. No entanto, o elemento masculino que mais sobressai do elenco é Mark Ruffalo, como este homem que inicia o filme no "fundo do poço" e gradualmente vai recuperando uma alegria pela sua profissão, pela sua vida e por estar junto com a sua família. Temos ainda elementos secundários que conseguem sobressair como Hailee Steinfeld (sobretudo quando a sua personagem se integra com Gretta e Dan), James Corden (o desbocado amigo da protagonista), bem como um surpreendente CeeLo Green como Troublegum, um músico que foi ajudado por Dan no passado e agora procura ajudar o produtor a regressar ao sucesso. Vale ainda a pena realçar um comentário sobre as produtoras e a forma pouco justa como o lucro é distribuído entre os artistas e a empresa que produz os seus discos, com "Begin Again" a exibir ainda o meio de distribuição online como um meio que pode ser benéfico para o artista, com Carney a expor mais uma vez a sua reverência para com o trabalho dos músicos. Tudo parece simples, mas John Carney é capaz de atribuir sentimento a "Begin Again", de fazer-nos acreditar nos seus personagens, de fazer-nos vibrar com as canções que conseguem gravar, de sorrir perante cada nova vitória que conquistam, enquanto a música se alastra dentro de nós e facilmente fica gravada na memória, bem como diversos momentos do filme. Não é propriamente o melhor filme do ano, mas é um feel good movie despretensioso que facilmente nos encanta, aquece a alma e faz passar alguns bons momentos na sala de cinema, com Keira Knightley e Mark Ruffalo a terem interpretações de relevo e John Carney a repetir o êxito de "Once", elaborando uma obra onde o poder da música e da Sétima Arte se reúnem.

Título original: "Begin Again".
Título em Portugal: "Num Outro Tom".
Realizador: John Carney.
Argumento: John Carney.
Elenco: Keira Knightley, Mark Ruffalo, Adam Levine, Hailee Steinfeld, James Corden.

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