30 setembro 2014

Resenha Crítica: "Au Bonheur des Ogres" (O Bode Expiatório)

 Benjamin Malaussène (Raphaël Personnaz) é um indivíduo algo bizarro, por vezes meio alienado da sociedade, que vive na sua casa com os seus dois irmãos e as suas duas irmãs mais novas em "Au Bonheur des Ogres", a segunda longa-metragem realizada por Nicolas Bary. O quotidiano de Benjamin é algo caótico, tendo um trabalho meio humilhante como bode expiatório de forma a poder sustentar o seu lar. No papel este é o controlador técnico do Au Bonheur Parisien, um grande estabelecimento comercial, enquanto na realidade é um bode expiatório que procura fazer com que os clientes tenham pena de si de forma a não prestarem reclamações. O chefe finge que o humilha, este finge que se encontra bastante culpado, enquanto os clientes ficam constrangidos ao ponto de não apresentarem a dita reclamação. É um trabalho pouco gratificante e ilegal que este procura esconder dos seus familiares, tendo na sua imaginação o palco primordial para escapar a esta realidade quotidiana contando histórias ao seu irmão mais novo que envolvem aventuras no espaço do seu trabalho e a presença de uma girafa gigante. Interpretado por Mathis Bour, o mais jovem dos irmãos de Benjamin, apresenta uma enorme curiosidade e utiliza um aparelho devido à surdez, algo que proporciona alguns gags relativamente divertidos, sobretudo quando os restantes personagens pretendem esconder palavrões. Jeremy (Adrien Ferran) é um pouco mais velho que o seu irmão com problemas de audição, aparentando estar entre o primeiro e o segundo ciclo de escolaridade, não tendo problemas em lançar palavrões e fazer experiências menos próprias para fabricar bombas caseiras. Thérèse (Armande Boulanger) é uma jovem adolescente que acredita conseguir ler o futuro nas cartas de tarot, vendo várias mortes no futuro do irmão. Nesta casa habita ainda Louna (Mélanie Bernier), uma jovem adulta que se encontra grávida. Benjamin sustenta esta gente toda devido à sua mãe estar constantemente ausente, coleccionando filhos de diferentes pais, embora nem por isso deixe de procurar novos amantes. No entanto, a vida deste indivíduo que anda quase sempre com a companhia do seu simpático cão muda por completo quando lhe pedem para mexer no interruptor de um letreiro eléctrico e é provocada uma explosão que causa a morte de um dos funcionários. Inicialmente este caso é visto como um acidente, embora a possibilidade de um atentado não esteja colocada de lado, com Benjamin a ser considerado um dos principais suspeitos. Benjamin é inicialmente interrogado pelo Inspector Carrega (Thierry Neuvic) e Coudrier (Marius Yelolo), tendo ainda de lidar com uma inspectora (Alice Pol) ligada à protecção de menores que ameaça levar as crianças para fora da sua casa devido à confusão que grassa na mesma. O protagonista ainda volta ao local de trabalho, onde se depara com uma mulher (Bérénice Bejo) que parece estar a furtar produtos, mas logo descobrimos ser uma jornalista que se encontra a investigar sobre lojas que utilizam de forma abusiva as câmaras de segurança nos locais onde os clientes experimentam as roupas. Sem saber quem esta é, Benjamin logo tenta salvar a mulher de ser apanhada pelo segurança (e cair nas boas graças da mesma), apesar de se aproximarem mais problemas. Ao colocar o seu cartão para abrir a sala de vigilância para exibir o que os vigilantes observam, ocorre mais uma explosão, com Benjamin a ser visto como o principal culpado do assassinato do funcionário, curiosamente mais um veterano do local que se encontrava prestes a reformar-se.

 Benjamin e Julia saem do local e iniciam um caso de forma algo extemporânea, que não começa a correr da melhor maneira, embora esta venha a ter um papel fulcral na exposição da profissão ilegal do protagonista, bem como na revelação do assassino. O personagem interpretado por Raphaël Personnaz tem como um dos seus maiores amigos Stojil (Emir Kusturica), um segurança nocturno que vive atormentado pelos erros do passado, tendo desaparecido três crianças quando este se encontrava a fazer vigilância, há vários anos atrás, um caso que pode ter ligação com os atentados do presente. Enquanto isso, Sainclair (Guillaume de Tonquedec), o director do Au Bonheur Parisien, procura dar entrevistas e expor a "boa saúde" do seu estabelecimento, apesar de guardar alguns segredos por revelar. Este é o herdeiro do Au Bonheur Parisien, um negócio gerido pelo seu pai durante largos anos, contando no espaço com vários funcionários contratados pelo falecido. As mortes no estabelecimento não se vão ficar pelos dois elementos citados, ao longo de um filme para toda a família marcado por algum mistério, humor, fantasia e romance. Nem tudo funciona, mas também são muitos os momentos de bom humor do filme, que nos conquista não só pela sua simplicidade e na forma como nos apresenta as peculiares relações dos personagens, mas também pela forma fantasiosa com que nos expõe a cidade de Paris. É filme sem grandes pretensões e não nos engana nos seus objectivos, surpreendendo pela dinâmica de Benjamin com as irmãs e os irmãos, bem como estes últimos entre si, mas também a química do protagonista com a jornalista interpretada por Bejo, com estes dois a serem dos personagens em maior destaque. Raphaël Personnaz destaca-se como Benjamin, um personagem que conta com uma profissão humilhante, mas nem por isso perde o sentido de humor, procurando sustentar e unir a família como pode. Este é a peça principal da unidade familiar, o cimento que reúne todas as diferenças desta peculiar família, onde não faltam jovens com tendências bombistas, uma grávida, uma vidente e um jovem um pouco surdo mas bastante curioso. Benjamin não tem problemas em utilizar um pijama azul bebé com uns cães, envolver-se em situações rocambolescas, acabando por inesperadamente conquistar a "Tia Julia", com Raphäel Personnaz a conseguir credibilizar algumas destas situações completamente caricatas. Julia é uma jornalista intrépida, pronta a investigar casos complicados e a coleccionar casos amorosos que é rapidamente integrada junto dos Malaussène, ou melhor, são estes que se integram na sua vida. Muito do que resulta ao longo do filme é a capacidade do realizador Nicolas Bary em conseguir atribuir alguma coesão a estes relacionamentos, mas também algum humor. Veja-se os momentos de maior intimidade entre Benjamin e Julia, a relação caótica entre os irmãos mais novos do “bode expiatório”, os gags com a surdez do jovem elemento dos Malaussène, para além das próprias situações inerentes ao trabalho do protagonista. O estabelecimento comercial onde Benjamin trabalha é o caso paradigmático do trabalho meritório a nível de design dos cenários interiores, com os vários departamentos a terem sido elaborados de propósito para o filme, com Nicolas Barry a evitar a preguiça do CGI e a fazer-nos sentir que estávamos perante um verdadeiro espaço comercial, habitado por diversos funcionários e clientes, embora muitas das situações que por lá ocorram sejam devidamente exageradas ao serviço da narrativa.

 Se o Au Bonheur Parisien é marcado por enorme cuidado na sua decoração, já o cenário exterior parece saído de outros tempos, com a paleta cromática a contribuir para a exposição de uma Paris que tanto tem de real mas ao mesmo tempo de fantasiosa, onde uma girafa pode surgir num estabelecimento comercial e um atentado ocorrer no mesmo local. Nicolas Bary nem sempre consegue conciliar a vertente mais séria e cómica do filme, algo paradigmaticamente representado quando estamos perante uma explosão e morte em simultâneo com uma cena romântica, com o cineasta a procurar conciliar o irreconciliável, embora este momento até contribua para o tom meio surreal do filme. É uma comédia para quase toda a família, onde os perigos para o protagonista parecem ser mínimos e raramente acreditamos que a sua vida ou inocência esteja em causa, com Nicolas Bary a dar-nos praticamente tudo o que esperamos. Isso não implica que não tenhamos alguns bons momentos a ver o filme, bem pelo contrário, com este a conseguir despertar alguns risos, fazer-nos apreciar a dupla formada por Benjamin e Júlia, embora o enredo não sustenha o fôlego devido à sua excessiva previsibilidade. A própria investigação policial desenvolvida pelos agentes da polícia raramente é levada a sério ou revela-se capaz de despertar totalmente o nosso interesse, mesmo as explosões não envolvem uma violência capaz de nos chocar (embora surjam imbuídas de um delicioso humor negro), para além de nunca duvidarmos da inocência de Benjamin, com tudo a parecer ter sido feito para conseguir agradar a adultos e crianças. O resultado final é previsível e algo desequilibrado, mas os actores conseguem elevar esta adaptação cinematográfica do primeiro volume da saga literária dos Malaussène, criada por Daniel Pennac. A saga conta com seis livros, com o filme a adaptar o primeiro volume da mesma, uma obra literária que foi um sucesso de vendas em França, conseguindo gerar um enorme apelo junto do público de todas as idades, algo que Nicolas Bary procura recuperar na película. Nesse sentido consegue ter algum sucesso, com "Au Bonheur des Ogres" a ser marcada por uma procura de chegar a vários tipos de públicos, conciliando a própria complexidade da vida do protagonista: liderar os irmãos e irmãs mais novas embora por vezes seja tão infantil como estes, iniciar um romance com uma intrépida e fogosa jornalista e procurar provar a sua inocência no meio de vários atentados. Ou seja ficamos perante romance, humor, acção, mistério, onde o real e o irreal se juntam e o protagonista vive uma série de peripécias num curto espaço de tempo. Se Raphaël Personnaz sobressai pela positiva como Benjamin, já Guillaume de Tonquédec surge demasiado em modo cliché e caricatural, interpretando o herdeiro do espaço comercial, um negócio gerido com sucesso durante anos pelo seu pai. O seu personagem pouco se parece preocupar com o local, tendo no protagonista o "bode expiatório" perfeito para os erros nos diversos sectores da loja.

 O filme conta ainda com alguns actores secundários de relevo, tais como Emir Kusturica, com o actor e cineasta a regressar às lides da representação para interpretar um homem atormentado pelo passado. A sua relação de amizade com o protagonista nem sempre é bem explorada (e os flashbacks para explicarem a sua história parecem completamente desnecessários, repetindo aquilo que depois é exposto no presente e pelos diálogos), mas nem por isso Kusturica deixa de criar um personagem algo soturno mas capaz de gerar algum interesse e simpatia. O elenco mais jovem também consegue cumprir naquilo que se pede, convencendo como um núcleo familiar, numa obra na qual ainda não podemos deixar de destacar o guarda-roupa. A certa altura do filme encontramos Benjamin a receber os dois polícias vestido com um pijama azul bebé decorado com cães. Numas simples vestes de dormir fica bem expresso o carácter despreocupado, algo infantil e sonhador do protagonista, um indivíduo cuja inocência é colocada em causa por alguns personagens. Por sua vez, Julia surge vestida com roupas práticas que não deixam de evidenciar a sua beleza, feminilidade e forte personalidade, com a Bérénice Bejo a claramente elevar uma personagem relativamente simples, atribuindo uma enorme dinâmica e expressividade a esta ruiva, algo que até contrasta com a passividade do protagonista. A relação entre Benjamin e a "Tia Julia" é relativamente esperada, mas nem por isso deixamos de gostar de os ver juntos no meio destes caóticos e belos cenários parisienses. Regressando ao trabalho dos cenários interiores, vale ainda a pena destacar as casas destes dois personagens. A casa de Benjamin completamente desarrumada e cheia de tralha. A habitação de Julia com fotografias das conquistas desta com flores na mão, apresentando uma organização que até espelha bem o pouco tempo que passa em casa e a sua vida de solteira. Com uma banda sonora adequada ao tom por vezes fantasioso do filme, um conjunto de cenários interiores elaborados com primor e um protagonista capaz de despertar a nossa atenção, "Au Bonheur des Ogres" raramente nos surpreende mas nem por isso nos aborrece, surgindo como um filme marcado por algum humor, fantasia, tensão e romance, onde por vezes imaginamos o que poderia ter resultado desta obra se o cineasta tivesse corrido mais riscos (ou se tivesse sido realizado por Jean-Pierre Jeunet, uma clara fonte de inspiração de Bary, ou um Michel Gondry nos seus momentos mais inspirados). Nicolas Bary prefere não arriscar e realiza uma obra agradável, bem intencionada, com alguns desequilíbrios a nível do argumento (a resolução do caso parece "colada com cuspo" e as constantes explicações dadas pelos personagens são alguns exemplos), mas capaz de proporcionar alguns momentos de escapismo e de não dar o nosso tempo por perdido, embora o cineasta tivesse material para nos dar ainda muito mais do que aquilo que nos conseguiu oferecer.

Título original: "Au Bonheur des Ogres". 
Título em Portugal: "O Bode Expiatório".
Realizador: Nicolas Bary.
Argumento:  Jérôme Fansten, Nicolas Bary, Serge Frydman.
Elenco: Raphaël Personnaz, Bérénice Bejo, Emir Kusturica, Guillaume de Tonquedec, Mélanie Bernier.

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