29 setembro 2014

Resenha Crítica: "Attila Marcel"

 Estreia de Sylvain Chomet na realização de longas-metragens em live action, "Attila Marcel" não se centra no personagem do título, embora este tenha uma influência bastante directa na vida de Paul (Guillaume Gouix), o seu filho e protagonista da obra cinematográfica. Este parece uma figura muito próxima de um pierrot, de olhar triste e algo vazio, que raramente fala ou exprime sentimentos, algo resultante dos traumas da sua infância, na qual assistiu à morte do pai e da mãe. Não se recorda do episódio na totalidade, embora este não seja a causa principal para o seu trauma, mas sim a possibilidade do seu pai poder ter sido um indivíduo violento que agredia a sua mãe, uma situação visível nos pesadelos que tem durante a noite. O seu próprio andar indica uma rigidez e incapacidade de se soltar, com os traumas do passado a reflectirem-se no presente. Vive com as suas tias controladoras, Anna (Hélène Vincent) e Annie (Bernadette Lafont), duas vivazes professoras de dança, ajudando as mesmas nas sessões ao tocar piano. Paul é um exímio pianista, com a larga sala da sua casa a ser ocupada por um piano envelhecido onde este pratica, por vezes por gosto, por vezes quase obrigado pelas tias. Nesse sentido, o acto de tocar piano faz parte da sua enfadonha rotina quotidiana, bem como comprar bolinhos (chouquettes) e ficar sentado no jardim a observar este espaço verdejante marcado por vezes pela presença da Madame Proust (Anne Le Ny), a sua vizinha do quarto andar, uma mulher que toca ukelele e anda quase sempre acompanhada por Mimi, a sua cadela surda, já de idade avançada. Seja em casa ou na rua, Paul pouco fala, deixando recados no quadro da casa quando tem de sair. O passado e as vagas recordações que tem do mesmo atormentam-no, mas será que estas memórias estão certas? Sylvain Chomet aproveita logo o início do filme para apresentar uma citação de Marcel Proust, quase que nos avisando que vai abordar questões relacionadas com o tempo e a memória, algo que cumpre durante o enredo de "Attila Marcel", uma obra na qual a cidade de Paris é apresentada de forma real mas ao mesmo tempo tão fantasiosa, habitada por personagens algo extravagantes ou peculiares, parecendo querer evocar a atmosfera de "Le fabuleux destin d'Amélie Poulain". Chomet também parece querer evocar Jacques Tati e o seu Sr. Hulot (note-se a influência que as obras de Tati e este magnífico actor e realizador tiveram em "L'Illusionniste", um filme de animação realizado por Sylvain Chomet a partir de um argumento que nunca chegou a sair do papel, elaborado por Jacques Tati), embora os personagens apresentem largas distinções, apesar de ambos serem duas figuras pouco comunicativas que parecem ter alguma dificuldade em adaptar-se à sociedade e realidade que os rodeia, com muitos dos risos a serem provocados não tanto pelas suas pessoas, mas pela sua interacção com aqueles que estão à sua volta. Veja-se desde logo a festa de aniversário de Paul, onde este conta com a presença das tias e de alguns amigos destas, bem como várias prendas relacionadas com o piano, desde um aparelho para treinar os dedos, passando por uma maqueta, com o Sr. Coelho a distinguir-se ao oferecer um objecto decorado com um galo de Barcelos (algo representante do facto deste ser descendente de portugueses ou português, embora nunca nos seja esclarecido).

A casa das tias de Paul é marcada pelo enorme piano (um instrumento musical que representa a infância perdida do protagonista), mas também por várias estantes com enciclopédias, quadros, reveladores dos gostos das mesmas. Mesmo na dança são fãs do minuet embora os alunos não apresentem grande interesse (veja-se o fuck minuet na entrada do estabelecimento destas), algo que não impede estas de tentarem impor os seus gostos tal como fazem com Paul. O cuidado a nível dos cenários interiores é notório, com estes a combinarem até com as personalidades dos personagens. O caso do quarto de Paul é paradigmático, guardando diversas fotos da mãe, cortando a parte do pai, apresentando objectos do tempo em que era bebé, uma época que ainda o atormenta. Já a casa de Madame Proust, um apelido muito ligado a Marcel Proust, é marcada pela presença do cão na entrada, mas também por um conjunto de plantações, parecendo ter um jardim no interior da sua casa, com a cinematografia de Antoine Roch a fazer sobressair as tonalidades verdes e coloridas que rodeiam este espaço, onde não falta a presença de um Buda sorridente. Esta vizinha prepara um conjunto de infusões que fariam inveja a qualquer xamã (é subentendido que estamos perante drogas), oferecendo a Paul a possibilidade de se recordar do passado com a ajuda das mesmas e da música. Este reluta mas acaba por aceitar, entrando em transe, e ficamos perante o sonho e a memória, com o protagonista a revisitar o passado e Sylvain Chomet a aproveitar para mesclar de forma exímia algum surrealismo e realismo, conjugando de forma exímia os momentos musicais com os momentos importantes da vida do protagonista e as imagens em movimento. As memórias deste nos anos 70 tornam-se bem reais, por vezes marcadas por muita cor, luz e ilusão (veja-se as cenas da praia), mas também algum negrume, com Paul a procurar saber mais sobre o pai e a mãe. No último terço, tal como Paul percebe que algumas memórias o podem ter atraiçoado, também nós ficamos perante o poder das imagens em movimento e de como estas podem ter diferentes significados consoante os contextos em que são inseridas. Mérito para Sylvain Chomet, mas também para o trabalho de montagem de Simon Jacquet, capaz de nos fazer crescer dúvidas sobre as recordações nos momentos dos sonhos, ao mesmo tempo que somos apresentados a Attila Marcel (Guillaume Gouix) e à sua esposa Anita (Fanny Touron). Este é um indivíduo musculado, com Guillaume Gouix a conseguir convencer-nos da dubiedade deste personagem, um indivíduo aparentemente agressivo, supostamente lutador de wrestling, contrastando com a doçura de Anita. Diga-se que também nos convence como Paul (é notável o duplo trabalho do actor), um personagem algo à parte da sociedade, embora o argumento peque um pouco na forma como tarda em conseguir fazer evoluir o personagem nas cenas do presente. Apesar da sua pouca capacidade de comunicação, Paul nem por isso deixa de formar amizade com a Madame Proust, criando com esta estranha mulher uma peculiar relação. Anne Le Ny é provavelmente um dos maiores destaques do filme, interpretando uma mulher idealista, considerada maluca por muitos mas com um enorme coração, revelando-se uma das personagens mais interessantes e intrigantes de "Attila Marcel".

Madame Proust cultiva legumes e outras ervas no interior da sua casa, tem uma personalidade expansiva, embora padeça de uma doença prolongada, surgindo como uma figura quase maternal para Paul. Já Bernadette Lafont e Hélène Vincent também apresentam o seu espaço de destaque. A primeira provavelmente é bem mais conhecida pelo seu papel extravagante em "Paulette", formando em "Attila Marcel" uma boa dupla com Vincent, proporcionando alguns gags divertidos durante as sessões de dança, onde não apresentam problemas em reclamar com os alunos. Berram, chateiam-se, procuram cuidar de Paul, tendo num sem-abrigo uma figura atenta ao que se passa nas suas aulas, com este a ser alguém relevante no passado do protagonista, embora a sua presença no presente seja algo esquecida a partir do momento em que é efectuada uma descoberta importante. As próprias aulas de dança, inicialmente marcadas por algum humor, por vezes tornam-se repetitivas, parecendo que Sylvain Chomet poderia ter sido mais sagaz e eliminado algumas cenas redundantes que apenas expõem o óbvio. Já os sonhos de Paul contribuem e muito para elevar o nível do filme, mas também explorar de forma meio fantasiosa as questões ligadas com a memória e a psicanálise. Não guardamos nós todos memórias a partir do nosso ponto de vista? Paul poderá não se ter recordado bem de tudo do seu passado, com o filme a efectuar um movimento circular, com o seu final a conjugar-se imenso com os seus momentos iniciais, qual ciclo da vida que se completa, onde assistimos a uma constante procura do personagem em descobrir aquilo que se encontrava oculto nas brumas da sua memória. Temos ainda alguns personagens secundários com algum relevo, tais como o senhor Coelho, um indivíduo invisual que afina o piano de Paul e é cliente das infusões de Proust, para além de Michelle (Kea Kaing), uma violoncelista asiática, filha adoptiva de um amigo das tias do protagonista que se interessa pelo personagem interpretado por Guillaume Gouix. O argumento de Sylvain Chomet é eficaz a permear o enredo de personagens com personalidades bastante próprias, com o cineasta a destacar-se ainda pela elaboração de alguns gags que resultam, tais como o dos animais de estimação embalsamados num consultório médico, a cara de Paul antes de entrar em transe, entre muitos outros. Fantasia, realidade e memória juntam-se em "Attila Marcel", com Sylvain Chomet a realizar uma obra que por vezes se parece estender um pouco em demasia devido às suas redundâncias, mas nem por isso deixa de abordar algumas questões bastante interessantes. A começar pela memória e pela forma como nós guardamos as nossas recordações, passando pela forma como o passado pode influenciar os nossos actos do presente, ao mesmo tempo que ficamos perante um protagonista marcado por um quotidiano aparentemente enfadonho, que gradualmente começa a ganhar alguma emoção com o regresso ao passado, onde memórias coloridas e dolorosas se juntam mas permitem-lhe reconciliar-se com os episódios de outrora e finalmente amadurecer.

O protagonista é interessante, mas também todo o universo narrativo que Sylvain Chomet cria em volta do mesmo, algo visível na representação fantasiosa da cidade de Paris, os cenários interiores decorados com rigor, os personagens secundários com relevo no enredo. Já muito do que funcionava em vários dos filmes realizados por Jacques Tati, tais como "Mon Oncle", "Les Vacances de Monsieur Hulot" resultava da criação de um universo narrativo que permitisse o personagem sobressair diante do mesmo. Em "Attila Marcel", Sylvain Chomet deixa-nos perante um adulto algo desintegrado da sociedade que o rodeia, sem amigos aparentes, mas um enorme talento para o piano, embora os seus sentimentos sejam um enigma e a sua relação com as mulheres algo complicada. Como salienta Sylvain Chomet no press kit do filme "Deep down, the film is the story of Paul’s relationship with women - his mother, his aunts, Madame Proust, with whom he forges a genuinely loving bond and who is a sort of universal woman, and, of course, with Michelle, the young Asian cellist". Esta é uma relação difícil, com as tias a procurarem ter no protagonista um pianista de excepção, esquecendo-se muitas das vezes de procurar compreender a sua personalidade e atitudes. Nesse sentido, a presença de Madame Proust acaba por trazer alguma frescura à narrativa, enquanto Michelle permite a Paul conhecer o seu primeiro amor. A relação entre os dois é típica de alguma da bizarria que envolve o filme, proporcionando alguns risos pelo caminho, ou não fossem estes duas figuras algo solitárias com dificuldades em comunicarem de forma certeira. Os olhos do protagonista são vitais para Paul se expressar, ao longo de uma obra que recupera um pouco a atmosfera de obras de animação do cineasta como “The Triplets of Belleville”, onde os personagens pouco falavam, mas muito se expressavam. Curiosamente, ou talvez não, nesse filme também tínhamos um órfão como um dos personagens principais, bem como uma presença portuguesa, a Madame Souza, a mãe de Champion, uma senhora que não tem problemas em cantar “Uma Casa Portuguesa”, enquanto Sylvain Chomet exibe uma capacidade de criar personagens de idade avançada capazes de criarem interesse, algo que repete em “Attila Marcel”. Vale ainda a pena realçar que título do filme remete para a música homónima presente em ''The Triplets of Belleville'', um dos filmes de animação de Sylvain Chomet, constando em "Attila Marcel". No final, "Attila Marcel" resulta como uma boa estreia de Sylvain Chomet em filmes com actores reais, deixando-nos com alguma curiosidade em relação aos seus próximos trabalhos.

Título original: "Attila Marcel". 
Realizador: Sylvain Chomet.
Argumento: Sylvain Chomet.
Elenco: Guillaume Gouix, Anne Le Ny, Bernadette Lafont, Hélène Vincent, Luis Rego.

Sem comentários: