26 setembro 2014

Resenha Crítica: "Alphaville" (Alphaville: une étrange aventure de Lemmy Caution)

"Alphaville" surge como uma espécie de filme noir que tanto tem das películas deste subgénero, mesclando os vários elementos destas obras cinematográficas que marcaram o cinema dos EUA nos anos 40 e 50 com componentes de ficção-científica e mistério. Jean-Luc Godard deixa-nos perante uma versão alternativa do nosso futuro próximo, colocando como protagonista da sua obra Lemmy Caution (Eddie Constantine), um agente secreto que muito tem dos detectives noir, desde o seu chapéu, atitude pragmática e desafiadora das autoridades, o relacionamento complicado com as figuras femininas, a gabardina, enquanto este se envolve por Alphaville, um território distópico, dominado pelo Alpha 60, um computador criado pelo Professor von Braun (Howard Vernon) para controlar o território de forma despótica. Ninguém se pode comportar de forma inadequada, todos têm números que os catalogam, os sentimentos não podem ser exibidos, o livre pensamento está proibido, sendo que quem se mostrar contra as regras é punido com a morte. Oriundo de um território das Terras Externas, Lemmy surge em Alphaville com a identidade de Ivan Johnson, um jornalista do Figaro-Pravda, acompanhado por uma máquina fotográfica para dar alguma credibilidade à sua suposta profissão e uma M1911A1 Colt Commander para se defender. A sua primeira missão passa por encontrar o agente Henry Dickson (Akim Tamiroff), acabando inicialmente por contactar com Natacha von Braun (Anna Karina), a filha do Professor von Braum, uma jovem que desperta a sua atenção, apesar de não deixar de desconfiar da mesma. Esta convida Lemmy a ir consigo a uma recepção de gala num ministério, onde vão estar presentes vários elementos importantes, incluindo o pai desta. O professor von Braun (numa referência ao cientista Wernher von Braun) é um antigo elemento das Terras Externas, tendo sido expulso das mesmas, onde tinha o nome de Leonard Nosferatu (homenagem a "Nosferatu" de F.W. Murnau, diga-se que a homenagem a cineastas é algo comum nas obras de Godard, veja-se por exemplo a presença de Fritz Lang em "Le Mépris", mas também o trecho de "La passion de Jeanne d'Arc" de Carl Theodor Dreyer em "Vivre Sa Vie: Film en douze tableaux" e as imensas referências em “Made in U.S.A.”). Lemmy tem a missão de assassinar von Braun e destruir o Alpha 60, procurando terminar com o estatuto ditatorial desta sociedade e evitar que este se alastre além-fronteiras, algo que se encontra a acontecer, visto serem enviados elementos infiltrados para gerarem revoltas no território das Terras Externas.

A missão é perigosa, com Lemmy a procurar cumprir a todo o custo os desideratos que lhe foram incumbidos, encontrando pelo caminho o agente Dickson, um elemento que aparentemente foi corrompido, enquanto Natacha parece fazer balançar a sua pessoa. Este acaba por ser descoberto pelo Alpha 60, que logo o interroga, procurando trazer o agente secreto para o seu lado ou eliminá-lo no caso deste rejeitar a proposta, ao longo de um futuro não muito distante, com Jean Luc-Godard a utilizar os cenários parisienses para nos deixar perante um local onde o livre pensamento é tudo menos uma realidade. Todos são formatados para corresponder aos padrões do Alpha 60, incluindo a bela Natacha, com esta a não conhecer sentimentos como o amor e a desconhecer a poesia, algo que o protagonista lhe vai apresentar. Interpretada por Anna Karina, Natacha apresenta inicialmente um certo vazio, embora os seus gestos indicassem que facilmente poderia ceder aos sentimentos, com Godard mais uma vez a usar os close-ups de forma exímia, permitindo exibir toda a expressividade da actriz e a demonstrar uma enorme adoração pela sua face. O rosto de Anna Karina é único na forma como é capaz de dar uma dimensão imensa às palavras proferidas pelas personagens que interpreta, quase que nos hipnotizando, com esta a voltar a colaborar com Jean-Luc Godard, um cineasta com quem foi casada e com quem trabalhou em várias obras cinematográficas. Esta surge muito bem acompanhada por Eddie Constantine, com o actor a interpretar um personagem muito ao jeito dos detectives noir, algo desencantado com a vida, que tem nesta missão uma procura para destronar um estado despótico. Constantine interpretara o detective Lemmy Caution em obras de série b, embora Godard se tenha apropriado do personagem para "Alphaville", inserindo várias matizes noir, num cenário distópico, embora bem real, onde a liberdade está longe de existir. Godard aproveita para efectuar um comentário político e social, explorando o lado negro dos estados ditatoriais, ao mesmo tempo que parece efectuar uma crítica ao caminho que a cultura do seu país está a levar. Como salienta Andrew Sarris, "His whole theme, imagination versus logic, is consistent with his deployment of Paris as it was in the ’60s—or at least, those portions of Paris which struck Godard as architectural nightmares of impersonality", algo que remete exactamente para a crítica à sociedade do seu tempo através dos elementos de ficção científica, numa obra muito ao seu jeito (nos anos 60). Não faltam os close-ups utilizados de forma paradigmática, os personagens a olharem directamente para a câmara, a presença e os comentários sobre a arte, os travellings, referências cinéfilas, literárias (o livro de poemas “Capitale de la douleur” de Paul Éluard que o protagonista dá a Natacha) e da cultura pop (Dick Tracy), uma banda sonora a preceito, personagens a fumarem muito, mas também os diálogos marcantes.

O Alpha 60 prima por um mundo que se distingue daquilo que Godard procura nos seus filmes, com o cineasta a procurar jogar com as regras cinematográficas e quebrar as mesmas, amando a sua arte e tendo consciência do legado que o antecedeu. Os elementos noir são exemplo disso, com o personagem interpretado por Eddie Constantine a parecer saído dos filmes negros protagonizados por actores como Humphrey Bogart, Dana Andrews e Robert Mitchum, pronto a narrar alguns dos seus pensamentos e experiências, mas também pela utilização assertiva das sombras (o filme também parece ter tirado inspiração das obras do chamado expressionismo alemão), com o trabalho de fotografia de Raoul Coutard a beneficiar mais uma vez as películas de Jean-Luc Godard. O cineasta volta ainda a abordar questões sobre a condição humana e a arte, criticando a tecnocracia e elogiando o livre pensamento, citando José Luís Borges e deixando Anna Karina e Eddie Constantine brilharem. Os personagens interpretados pela dupla formam uma relação de proximidade que inicialmente parecia improvável, ao longo de uma obra de ficção-científica praticamente sem efeitos especiais, com o tom futurista a estar no argumento e na forma como os cenários são explorados, remetendo até para um passado recente, em particular a II Guerra Mundial, numa sociedade que até tem um pouco de "1984" de George Orwell. Nesse sentido, Jean-Luc Godard e a sua equipa são bastante eficazes na criação de um universo narrativo credível, marcado por um cenário primordial onde tudo e todos são controlados, não faltando prostitutas prontas a satisfazerem os desejos sexuais dos clientes, execuções colectivas (sejam em salas de teatro ou piscinas), robôs controladores, tudo isto associado à história do protagonista, algo que nos permite ainda contar com algumas perseguições e muita tensão. Tudo ao jeito de Jean-Luc Godard, nome de relevo da Nouvelle Vague, que tem aqui uma obra onde fica latente, tal como em filmes como "À Bout de Souffle", a sua capacidade em explorar e subverter elementos de cinema do género, criando um filme noir com nuances de ficção-científica ou vice-versa, onde mais uma vez elabora algo de único e muito recomendável.

Título original: "Alphaville: une étrange aventure de Lemmy Caution".
Título em Portugal: "Alphaville". 
Realizador: Jean-Luc Godard.
Argumento: Jean-Luc Godard.
Elenco: Eddie Constantine, Anna Karina, Akim Tamiroff, Howard Vernon.

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