12 setembro 2014

Entrevista a Julien Maury sobre "Livide"

Na edição de 2012 do MOTELx tivemos a oportunidade de entrevistar Julien Maury, o realizador de "Livide". A entrevista esteve perdida pelos nossos arquivos e agora aproveitamos a edição de 2014 do Motelx e a presença de "Among the Living", o novo filme do cineasta, no Festival para desenterrar o texto dos calabouços do Rick's Cinema. Entrevista conduzida e transcrita por Aníbal Santiago e Hugo Barcelos.

Rick's Cinema: "Livide” é o seu segundo trabalho como realizador ao lado de Alexandre Bustillo. Pode falar-nos um pouco sobre como começou esta relação profissional?

Julien Maury: Surgiu de modo muito natural. Nós sempre sentimos que é muito melhor trabalhar acompanhados do que realizar sozinhos, porque é muito difícil realizar sozinho. Conhecemo-nos pela primeira vez em 2005, e desde então nunca tivemos uma discussão, uma luta, é o entendimento perfeito, apenas encontramos benefícios nesta relação.
Fazer um filme demora cerca de dois anos. Desde o processo da escrita até ao lançamento e é um processo recheado de batalhas e por isso quando somos dois somos mais fortes. Algumas vezes quando um está em baixo o outro ajuda-o a recuperar e vice-versa. Está a resultar bem, não vemos porque mudar.

Rick's Cinema: Como surgiu a ideia para desenvolver “Livide”?

Julien Maury: A primeira ideia foi fazer algo sobre a inveja. Fazer um filme puramente de fantasia, porque em França isso não existe. Somos grandes fãs dos filmes de terror antigos, como os filmes dos anos 60/70 e gostávamos de fazer algo semelhante em França. Foi a mesma motivação que tivemos para criar “Inside”, ou seja, perguntamo-nos: Em que tipo de filme estarei disposto a gastar dez euros? Então decidimos fazer um filme clássico gótico, de fantasia, com um monstro. A história é bastante clássica, temos o assalto, a bailarina, a dançarina na caixa de música.

Rick's Cinema: O que os nossos leitores podem esperar de Livide?

Julien Maury: Grandes coisas (risos). Não esperem ver “Inside 2”. Nós temos de enfrentar as elevadas expectativas criadas por “Inside”. O público quer ver um verdadeiro festival gore, banhos de sangue (risos) e não quisermos fazer outro filme do género, quisemos explorar diferentes áreas, diferentes desafios. Nós somos fãs de vários subgéneros de filmes de terror, tais como, filmes de monstros, slasher, survival, por isso como realizador o meu sonho é explorar os diferentes subgéneros de terror. Podem esperar um filme diferente das obras cinematográficas americanas, que tem uma estrutura narrativa diferente. Penso que o melhor aviso é para livrarem-se da ideia pré-concebida que tinham do filme e de abrirem os chakras. Queríamos criar a sensação de um sonho.

Rick's Cinema: Uma dos elementos que captou a nossa atenção em “Livide” foi a atmosfera semelhante a um pesadelo, muitas das vezes a fazer recordar 'Suspiria' de Dario Argento. O trabalho de Dario Argento é uma inspiração para si?

Julien Maury: Sim. Completamente. Nós procurámos tentar criar esse sentimento particular que existe em 'Suspiria'. A nível visual é totalmente louco e mescla vários universos diferentes, o ballet, o universo da bruxaria, nós adoramos a junção desses universos diferentes e foi isso que nós tentámos em “Inside” ao colocar uma das coisas mais puras do Mundo que é uma mulher grávida, enquanto tem de lidar com um dos piores pesadelos da sua vida. Aqui temos um “crossover” entre bailarinas, vampiros, bruxaria, crenças, mitos, uma mistura de universos diferentes, então nós mexemos tudo e esperamos pelo resultado (risos). Existe um momento de “Livide” que remete directamente para 'Suspiria'. Quando a personagem de Chloé Coulloud, descobre o diploma e podemos ver que esta se licenciou na mesma escola de ballet em Friburgo de 'Suspiria', a mesma escola da Mater Suspiriorum. Nós adorámos a ideia de criar ligações entre os filmes e a ideia que a nossa bruxa foi treinada pela Mater Suspiriorum. É algo criado por um fã.

Rick's Cinema: Teve outras inspirações para além de "Suspiria"?

Julien Maury – Sim. Tivemos muitas inspirações. Sobretudo quando ainda estamos no início da carreira profissional é claro que a nossa imaginação está feita por várias influências. Temos várias influências que vão desde livros, pinturas, filmes de terror, entre outros. Eu diria que "Suspiria" é a influência mais evidente. Existe um livre francês chamado 'Malataverne', escrito por Bernard Clavel que foi o início da nossa história. É um livro que não tem nada a ver com o filme, é uma crónica social, a história de um grupo de três jovens que decidem assaltar uma mansão antiga. Todo o livro aborda a preparação do assalto do grupo a essa mansão. No final do livro eles entram no interior da casa e termina a história do livro. Decidimos pegar nesta história muito clássica e aborda-la de modo fantasioso. Essa foi uma inspiração, bem como as pinturas, nós temos sempre influências pictóricas, como por exemplo, as pinturas de Degas, os trabalhos de Georges de La Tour, o modo deste último transmitir a escuridão, as trevas.... Estas são algumas das referências.

Rick's Cinema: Como o título “Livide” se relaciona com o filme?

Julien Maury: Em França “Livide” é uma palavra que significa ser branco como um cadáver. Costuma ser utilizada não só quando falamos de alguém está morto, mas também quando estás tão assustado que a tua pele fica branca, perde a cor, o sangue vai-se embora do teu corpo. É um bom título porque é muito bonito e poético, um título que não é muito utilizado.

Rick's Cinema: Chloé Coulloud tem um desempenho fantástico como Lucie. Como surgiu a hipótese de Chloé integrar o elenco?

Julien Maury: Nós pedimos para conhece-la. Vimo-la em alguns filmes franceses, ela não é muito conhecida em França, embora tenha feito alguns filmes. Decidimos escolhe-la assim que terminou a primeira reunião. Ela é exactamente como a Lucy que tínhamos em vista. Não é como uma modelo, não é uma Charlize Theron, é a “girl next door”, tem uma beleza natural. Na primeira reunião ela estava muito stressada e ansiosa e foi muito engraçada porque não parava de rir de forma nervosa, enquanto mostrava esconder algo. Ela conseguia exteriorizar algo e ao mesmo tempo manter algum mistério sobre o que estava mesmo a pensar, tal como a Lucy. Foi uma ligação à primeira vista. No entanto, não foi uma escolha fácil porque tivemos de lutar com os produtores para mantê-la. Esta é uma das vantagens de sermos dois a realizar o filme, tivemos a oportunidade de lutar em conjunto para que esta ficasse com o papel, nunca deixámos que os produtores interferissem nesta escolha.

Rick's Cinema: Após ter visionado o filme reparei que apresenta uma faceta menos gore em relação ao seu trabalho anterior. Foi um distanciamento propositado?

Julien Maury: Sim. Não foi como uma reação, como se não quiséssemos fazer mais filmes gore, pois somos grandes fãs dos filmes de terror. Nós procuramos decidir sobre o que desejávamos, no momento em que começámos a escrever a história e, nesse momento, só tínhamos uma coisa em mente. E pensámos que não existia este tipo de filmes em França. Temos um conjunto de lendas e mitos em França que não são utilizados no cinema. Por isso decidimos entrar nesse mundo, foi sobretudo uma questão de motivação. Temos outro argumento mais hardcore, mais próximo de “Inside”, mas deve demorar a ser desenvolvido. Penso que não conseguiríamos fazer “Inside” nos dias de hoje. Em França nenhum produtor está disposto a apostar em filmes desse género, fomos muito felizes por ter conseguido fazer esse filme em 2006. Por agora é praticamente impossível, talvez daqui a uns anos voltemos a conseguir fazer algo semelhante.

Rick's Cinema: O Julien Maury encaixa-se num grupo de cineastas franceses ligados ao cinema fantástico que tem obtido uma grande aceitação fora de França. Pode dar-nos a sua opinião sobre o estado actual do cinema de terror francês?

Julien Maury: É muito complicado porque a audiência não vem aos cinemas ver este tipo de filmes. Não se interessa. Os filmes de terror americano até têm funcionado muito bem, sobretudo com os franchisings como “Final Destination”, “Paranormal Activity”, por isso parece-me que a audiência pensa que os filmes americanos de terror podem ser porreiros e bons. Como são franceses, têm que ser chatos. E em qualquer lado do mundo, os produtores pensam da mesma forma, ou seja, se não está a funcionar não arriscam em desenvolver os projectos. É estranho porque estes filmes de terror não têm grande orçamento e têm sempre grande sucesso fora de França. É algo complicado de compreender porque os produtores em França não apostam neste tipo de filmes. Fora de França, as pessoas sempre dizem que existe uma “new wave” de filmes de terror em França, «vocês são uns sortudos, têm liberdade» e nós dizemos que «não, experimentarem ver a data de lançamentos de cada filme». Existe um espaçamento de anos entre os filmes. E sempre que há um lançamento, todos acreditamos que esse filme vai ser “o tal”, mas nunca é bem o que acontece. E, consequentemente, cada vez que um filme deste género sai nos cinemas franceses, acabamos por ouvir dizer que vai ser o último. Que acabou. Mas há sempre alguém que consegue triunfar e fazer outro filme. Neste momento, está a ser complicado mantermo-nos em França. Encontrámos um novo produtor em França, vamos ver o que acontece no futuro. Nos dias de hoje é difícil de resistir a Hollywood, oferecem-nos argumentos em doses quase diárias, enquanto que na França não há nada, temos de andar a batalhar pelas nossas ideias.

Rick's Cinema: Somos uma blog de Portugal. Conhece o cinema português? Algum cineasta que desperte a sua atenção?

Julien Maury: Eu não conheço muito bem o cinema português. Falei com um jornalista português que falou que o cinema de terror em Portugal praticamente não existe. Eu gostava de ver filmes de terror portugueses. Ele disse que é importante que eu tenha vindo ao festival, para tentar inspirar pessoas que gostam deste tipo de filmes, para incentivar a fazer este tipo de filmes. É a altura errada para tentar-se este tipo de projectos devido à crise económica, mas penso que é importante devido ao poder deste tipo de filmes. Cada país consegue explorar as especificidades internas inerentes ao próprio país, as diferenças de cada país, não queremos fazer como os filmes americanos. É por isso que gostamos de cinema europeu, filmes que explorem as especificidades de cada país. Por exemplo, alguns realizadores italianos, da Noruega, têm sido muito activos a fazer filmes deste género, estão a desenvolver projectos totalmente nacionais, filmes nada relacionados com o studio system norte-americano.

Rick's Cinema: Uma última pergunta. Já conta com projectos para o futuro? Pode falar-nos um pouco sobre estes?

Julien Maury: Sim, estamos a trabalhar em vários projectos ao mesmo tempo, porque isto foi uma das coisas que aprendemos durante estes quatro anos entre os lançamentos de “Inside” e de “Livid”: que não nos podemos focar num único projecto de cada vez. Porque se esse projecto não avança, perdeste dois anos. E esse foi um erro que cometemos várias vezes. Por isso desta vez temos vários projectos a decorrer em simultâneo, em diferentes produtoras. Devemos assinar um contrato para um grande filme no final do mês, no fim de Setembro, um filme de ficção-científica, aventura, sobrevivência. Do mesmo modo que Pascal Laugier fez o “Tall Man”, quero dizer com isto que é uma produtora francesa, mas o filme é falado em inglês, com um elenco internacional. E estamos a manter a nossa liberdade criativa. Mas isto não é ciência, por isso vamos ver o que acontece. E estamos a trabalhar com uma produtora francesa, e vamos iniciar as rodagens na próxima primavera de um filme com um feeling semelhante ao de “Stand By Me” ou “Goonies”, sobre um grupo de miúdos, com um tema de terror, claro, não vamos enveredar pelas comédias românticas (risos), e estamos à espera da resposta dos últimos investidores. Por isso, estamos de dedos cruzados.

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