22 agosto 2014

Resenha Crítica: "Wish I Was Here" (Dava Tudo Para Estar Cá)

 Se em "Garden State" o personagem interpretado por Zach Braff procurava acordar de um latente estado de entorpecimento, devido ao consumo de lítio e calmantes, já Aidan Bloom (Zach Braff), o protagonista de "Wish I Was Here", encontra-se preso aos seus sonhos do passado onde sonhava ser um super-herói oriundo do espaço, e a um presente onde procura sem sucesso ser actor. Aidan é casado com Sarah (Kate Hudson), uma empregada de escritório, de quem tem dois filhos, Grace (Joey King, uma das boas surpresas do filme) e Tucker (Pierce Gagnon), duas crianças que são educadas de forma tradicional num colégio para judeus ortodoxos (yeshivá). A notícia de que o pai de Aidan, Gabe (Mandy Patinkin), padece de cancro vem mudar o quotidiano já por si complicado destes personagens. Gabe tem de deixar de financiar o colégio dos netos, devido a investir as suas poupanças num tratamento que poderá ou não curar a sua doença, algo que conduz a jovem Grace e Tucker a terem de sair da escola. Grace é uma jovem recatada e dada aos valores tradicionais da sua religião, que procura lidar com as dúvidas próprias da adolescência. Tucker ainda apresenta a irreverência infantil típica da sua jovem idade. Tendo em vista a evitar que Tucker e Grace vão para uma escola pública, cujas condições não agradam ao casal, Aidan decide cuidar da educação dos filhos em casa, algo que vai gerar alguns problemas. Aidan encontra-se na casa dos seus trinta anos, sem grandes perspectivas de emprego, indo a algumas audições embora tarde em conseguir um trabalho como actor, parecendo pouco preocupado em procurar outras soluções. Diz muitas asneiras, procura lidar com a possível morte do pai, sonha com grandes feitos mas tarda em concretizá-los, apercebendo-se ao longo do filme que é uma das muitas pessoas que precisam de protecção e não de salvar os outros elementos, com "Wish I Was Here" a explorar questões ligadas com a fé que nem sempre resultam da melhor maneira. Aidan é irmão de Noah (Josh Gad), um indivíduo também na casa dos trinta anos, que vive numa roulotte e continua sem uma profissão definida. Quer investir na actividade de blogger, prepara um fato para utilizar na Comic-Con, apresentando notórios problemas de relacionamento com o pai e até com o irmão. É um falhado e sente-se como tal, apresentando problemas em encarar e enfrentar a realidade. Aidan e Noah brincavam na infância a fingirem ser super-heróis, mas no presente tardam em conseguir ganhar coragem para resolverem os problemas reais, algo que remete mais uma vez a capacidade de Zach Braff em explorar temáticas que tanto dizem a alguns sectores do público. Embora o discurso religioso e espiritualista do filme raramente me tenham convencido, "Wish I Was Here" consegue apresentar um retrato sincero sobre algumas das dificuldades encontradas com a entrada na casa dos trinta anos (o protagonista tem trinta e cinco anos), sobretudo quando olhamos para trás e verificamos que não conseguimos realizar nem metade daquilo que pretendíamos. 

Na maioria dos casos, todos nós temos sonhos e objectivos para cumprir, sejam estes mais estapafúrdios ou idiotas, mas são as metas que estabelecemos para nós próprios. A vida real muitas das vezes facilmente contraria esses sonhos e é exactamente isso que nos é exibido em "Wish I Was Here". Aidan e Noah pretendiam cumprir grandes sonhos. Noah até era considerado um génio quando era mais novo. No presente, um vive às custas da mulher e do pai, enquanto o outro vive numa roulotte e mal sai da sua precária habitação. Enfrentar a realidade parece ser a tarefa mais difícil para Aidan, algo exibido de forma bastante sincera por "Wish I Was Here", com o cineasta a voltar a dotar a obra de elementos pessoais, algo que se nota ao longo do filme e que este já tinha efectuado em "Garden State". As comparações entre ambos os filmes são inevitáveis, não só pelas temáticas em comum mas também por muitas das vezes parecer que estamos a ver material reciclado, tirando o efeito surpresa causado em "Garden State", embora seja notório que Zach Braff está a procurar colocar um cunho pessoal nas suas obras. Ainda é difícil saber se este vai sobressair como cineasta ou irá para sempre ficar recordado por ser o realizador de "Garden State" e o protagonista de "Scrubs", embora “Wish I Was Here” mostre que será difícil superar a sua obra de estreia. "Wish I Was Here" não tira as dúvidas e surge como um produto menor em relação a "Garden State". Não só por muito parecer "reciclado", mas também por Zach Braff nem sempre conseguir explorar devidamente as suas ideias e não ter o pragmatismo para cortar o que não interessa no filme. Tive um professor meu que antes de começarmos a elaborar um trabalho para a cadeira de Roma Império colocou no quadro: Interessante e Interessa. Riscou o interessante e reforçou que aquilo que realmente interessa é que deveria constar no trabalho e ser devidamente abordado. Zach Braff deveria ter seguido esse lema, sobretudo em cenas que parecem estar no filme por devaneio pessoal ou amizade a elementos do elenco. As cenas meio surreais do personagem a sonhar ser um cavaleiro espacial são bonitas mas a sua repetição apenas lhes tira força. A cena de Noah na San Diego Comic-Con é outras das tais que não está ali a fazer rigorosamente nada a não ser para Zach Braff piscar o olho aos fãs do evento e conseguir promover um pouco mais "Wish I Was Here". A presença de Ashley Greene é um dos casos que parece estar relacionado com a possível amizade entre Braff e a actriz, com a personagem desta a ter uma dimensão quase nula (que até tira tempo para abordar questões mais relevantes, como o caso do assédio que um colega efectua a Sarah no trabalho, ou a procura do protagonista em reunir o irmão e o pai). Depois existem casos esporádicos, como Jim Parsons que em poucas cenas consegue destacar-se, interpretando um actor que Aidan encontra nos castings, remetendo para a sua curta mas hilariante participação em "Garden State". 

No elenco principal, quem acaba por sobressair mais é Zach Braff, interpretando um personagem que parece uma versão ficcional de si próprio. Braff consegue explorar eficazmente a incapacidade do seu personagem em lidar com várias das situações com que se depara, embora procure ser um bom marido e pai de família. A relação de Aidan com os filhos é marcada por muitas das vezes este ser tão infantil como os mesmos, tendo ainda de lidar com questões ligadas com o crescimento dos dois jovens. O relacionamento de Aidan com Sarah, apesar de não convencer totalmente, também não desilude, com Kate Hudson e Zach Braff, amigos na vida real, a exibirem alguma cumplicidade como este casal de classe média que se encontra a lidar com algumas adversidades. Hudson interpreta uma mulher que tem um trabalho pouco motivante, onde é alvo de comentários menos próprios do seu colega de escritório, procurando manter a estabilidade da casa e apoiar o sonho do marido, algo que nem sempre consegue efectuar com sucesso. A certa altura do filme ouvimos o seu chefe dizer que esta tem algo que muitos queriam ter (a certa altura parecia que vinha aí uma piada de cariz sexual): um emprego. Esta situação exibe bem as dificuldades da chegada à idade adulta e das responsabilidade, da capacidade de termos de conciliar as obrigações profissionais e os nossos desejos pessoais, com os segundos a muitas das vezes perderem para os primeiros. Ter um trabalho é essencial, Sarah sabe disso, mas nem por isso quer dizer que seja feliz no mesmo, com o filme a abordar questões relevantes e aparentemente simples do dia a dia, mas que tanto conseguem chegar a nós, sobretudo quando já passámos por situações idênticas. No entanto, um dos elementos em maior destaque no filme é mesmo Mandy Patinkin como o pai de Aidan e Noah, um antigo professor de biologia, rigoroso em relação aos filhos, que parece desprezar o sonho do primeiro em ser actor, sendo notório que a relação deste com os rebentos nem sempre foi a melhor. Aidan procura visitar regularmente o pai, enquanto Noah parece ter receio em lidar com o familiar e a possível morte do mesmo. Noah e Aidan outrora perderam a mãe, com quem se pareciam dar com maior à vontade, tendo na doença do pai um momento de dor nas suas vidas, que promete colocá-los a repensar o seu quotidiano. O argumento é relativamente eficaz a explorar os relacionamentos familiares, com Zach Braff a voltar a deixar-nos perante famílias disfuncionais e personagens que procuram "acordar para a vida", algo que já tinha efectuado em "Garden State". Volta ainda a seleccionar um conjunto magnífico de músicas, não faltando temas dos The Shins, Bon Iver, Cat Power e Coldplay, entre outros que se adequam, na maioria dos casos, relativamente bem ao enredo, para além de algumas referências a elementos da cultura popular, entre os quais à série "Game of Thrones" (como tinha efectuado a "Everybody Loves Raymond" em "Garden State"). Temos ainda as questões religiosas, com Aidan a parecer procurar um caminho para responder às suas dúvidas, embora esta temática nem sempre seja introduzida de forma harmoniosa na narrativa. 

Aidan é oriundo de uma família de judeus, tendo no pai um homem ligado aos valores tradicionais e no irmão alguém que não se acredita em nada, ficando num imbróglio entre o pragmatismo e a  religiosidade. Inicialmente apresenta um carácter agnóstico, mas gradualmente levanta algumas dúvidas sobre as suas ideias, ao longo de uma obra que por vezes exagera na exposição de algumas situações para atribuir algum humor a um enredo marcado pelo drama, mas também por algumas doses de humanidade e alguns bons diálogos. Em "Garden State", Zach Braff deu-nos uma obra marcante onde surpreendeu pela humanidade e sinceridade a abordar várias das temáticas. Em "Wish I Was Here" parece que assistimos a um reciclar do material utilizado, com Zach Braff a procurar definir a sua voz como cineasta embora não tenha conseguido apresentar uma evolução em relação ao seu trabalho anterior na realização cinematográfica. O filme foi ainda alvo de debate devido ao seu modo de financiamento, com actor/realizador/argumentista a ter recorrido ao Kickstarter, uma plataforma de Crowdfunding, onde conseguiu que os fãs dos seus anteriores trabalhos contribuíssem para que "Wish I Was Here" saísse do papel. Criticar o filme negativamente por esta razão faz tanto sentido como elogiar só porque teve boa bilheteira ou tem uma nota alta no Rotten Tomatoes, visto ter sido um meio legítimo para um actor e realizador tirar um projecto escrito por si e pelo seu irmão do papel, existindo uma troca entre o fã que investe num projecto que lhe diz algo e um cineasta que proporciona alguns bons momentos ao espectador. O passado televisivo de Zach Braff também será certamente apontado para criticar alguns elementos negativos do filme e compará-lo com uma sitcom, como se nos dias de hoje as séries televisivas fossem algo de fraca qualidade, sobretudo quando já encontramos cineastas como Steven Soderbergh a escolherem este meio pelas liberdades criativas que lhes permite, pelo que este estigma deveria começar a ser repensado. Apesar de estar longe de ser uma obra coesa ou uma evolução em relação a "Garden State", "Wish I Was Here" promete dizer algo ao nicho de público a quem se dirige, com Zach Braff a ter noção que se está a dirigir a um número diminuto de espectadores: "(...) Who’s making a movie about Jews looking for spirituality? Find me the studio that’s making that movie". A história de "Wish I Was Here" não é inovadora, algumas temáticas não são devidamente exploradas e a questão da espiritualidade nem sempre é eficazmente abordada, mas nem por isso deixamos de estar perante uma obra sincera na abordagem dos temas e que tanto nos consegue dizer. Não supera "Garden State", mas continua a deixar-nos curiosos para saber qual será o próximo passo de Zach Braff na realização cinematográfica.

Título original: "Wish I Was Here".
Título em Portugal: "Dava Tudo Para Estar Cá".
Realizador: Zach Braff. 
Argumento: Zach Braff e Adam Braff.
Elenco: Zach Braff, Josh Gad, Ashley Greene, Kate Hudson, Joey King, Mandy Patinkin.

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