13 agosto 2014

Resenha Crítica: "To Have and Have Not" (1944)

 Humphrey Bogart e Lauren Bacall apresentam uma química notável em "To Have and Have Not", uma obra que reuniu pela primeira vez aquele que se viria a tornar um dos casais mais memoráveis de Hollywood. Bacall tem aqui uma estreia maravilhosa, surgindo como a mulher Hawksiana que se destaca num espaço dominado por homens, pronta a disparar falas sardónicas, carismática, conquistando tudo e todos com o seu olhar, com Howard Hawks a explorar a iluminação para lhe atribuir uma faceta ainda mais enigmática e sedutora, quase a fazer recordar o fascínio de Josef von Sternberg por Marlene Dietrich. Essa situação fica paradigmaticamente representada quando esta se encontra a ser interrogada ao lado do personagem interpretado por Humphrey Bogart e em alguns momentos as sombras dominam os cenários e a luz realça o seu rosto. Fuma muito, seduz os homens, canta como poucas e deixa marca em Harry Morgan (Humphrey Bogart). Diz "You know you don't have to act with me, Steve. You don't have to say anything, and you don't have to do anything. Not a thing. Oh, maybe just whistle. You know how to whistle, don't you, Steve? You just put your lips together and... blow.", deixando Steve embasbacado e sorridente, bem como o espectador, com a falta de confiança da actriz a não se fazer notar na confiante "Slim". Marie ganha esta alcunha pela parte de Steve, um marinheiro que no início do filme encontramos com a sua equipa a levar Johnson (Walter Sande), o seu cliente a pescar. Na equipa de Harry encontra-se Eddie (Walter Brennan), um marinheiro beberrão, que Steve mantém na sua tripulação devido à longa amizade entre ambos, mesmo quando elementos como Johnson o questionam sobre a necessidade deste estar no barco quando se encontra alcoolizado. Esta situação demonstra um enorme sentimento de lealdade por parte de Harry (permitindo a Howard Hawks voltar a explorar a camaradagem entre os personagens masculinos, algo visível em obras como "Only Angels Have Wings"), um personagem aparentemente cínico, muito ao jeito de Rick Blaine, o protagonista de "Casablanca". O sucesso de "Casablanca" conduziu a que Humphrey Bogart fosse posteriormente convidado para interpretar vários personagens do género, algo visível em "To Have and Have Not", "Sirocco", entre outros. "To Have and Have Not" recupera e muito a atmosfera de "Casablanca". Não falta a II Guerra Mundial como pano de fundo, um protagonista cínico e aparentemente neutro a nível político, parte do hotel onde o protagonista se encontra a habitar conta com um bar semelhante ao Rick's Café Américaine, voltamos a ter um grupo da resistência a procurar a ajuda do personagem principal, entre vários outros elementos. O romance destinado ao fracasso dos personagens interpretados por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman fica de lado, com Howard Hawks a optar por colocar o protagonista com alguém semelhante a nível de personalidade, com "Bogie" e Bacall a formarem um casal memorável, onde as falas trocadas pelos seus personagens revelam enorme cumplicidade e à vontade de parte a parte, ao mesmo tempo que assistimos à dupla a apaixonar-se na vida real e no grande ecrã.

Deixemos de falar temporariamente de Bogart e Bacall, é difícil ser objectivo a escrever de um filme que tanto mexe com sentimentos e tanto nos inquieta, mas voltemos ao enredo, nomeadamente, quando Harry procura recuperar os 825 dólares que Johnson lhe deve. "Slim" rouba a carteira a Johnson, algo que desagrada a Steve, que logo entra em contacto com esta mulher, descobrindo que o personagem interpretado por Walter Sande pretendia escapar sem pagar a dívida. Johnson acaba morto pelos elementos ligados à França de Vichy, que entram de rompante no bar em busca de elementos da resistência, irrompendo aos disparos, acertando nos alvos mas também em quem não interessava. Harry protege Slim, mas cedo vai a interrogatório com esta. Estamos em Martinica, em pleno Verão de 1940, com as autoridades francesas ligadas à "França de Vichy" a surgirem representadas por elementos como o Capitão M. Renard (Dan Seymour), pretendendo capturar os elementos da resistência que se encontram no local. Harry é convidado por Gerard (Marcel Dalio), o dono do hotel onde habita, para transportar dois elementos da resistência, a troco de uma avultada quantia, algo que este rejeita, pelo menos inicialmente, revelando algum cinismo até gradualmente começar a aderir à causa. O interesse em conseguir os fundos para "Slim" regressar aos EUA são uma motivação, bem como o dinheiro extra, embrenhando-se pelas águas envolvidas por nevoeiro com Eddie, até conseguir transportar Helene (Dolores Moran) e Paul de Bursac (Walter Surovy), um casal ligado à resistência. A presença da mulher não agrada a Harry, supersticioso como boa parte dos marinheiros, embora o pior seja mesmo a ameaça inimiga, conseguindo escapar, embora Paul seja ferido. Paul foi incumbido de resgatar Pierre Villemars, um famoso membro da resistência que se encontra preso na Ilha do Diabo, embora não pareça ter o perfil necessário para cumprir a missão com sucesso, correndo perigo de ser descoberto. Harry e Slim também ficam perante um controlo mais apertado das autoridades, procurando escapar-se das mesmas, ao mesmo tempo que iniciam uma relação amorosa. O estilo aparentemente cínico e frontal de ambos conjuga-se na perfeição, com cada um a ter no seu par um elemento à altura, enquanto Bogart e Bacall exibem uma dinâmica e química raras de encontrar. Bogart é um actor magnífico, capaz de atribuir enorme carisma e dimensão aos seus personagens, tendo na estreante Bacall uma colega de elenco surpreendente. Fumam, trocam falas marcadas por alguma ironia, beijam-se, envolvem-se pelas sombras mas facilmente parecem apresentar sentimentos luzidios um para com o outro. Howard Hawks teve em Lauren Bacall uma das grandes descobertas da sua carreira, contribuindo também para a actriz sobressair, filmando-a com um engenho capaz de sobressair o misto de candura e confiança exibidos pelo rosto da mesma, embora conste que tenha ficado com ciúmes da relação desta com "Bogie".

A cinematografia de Sidney Hickox também se destaca, com o filme a contar com uma cuidada utilização da luz e das sombras, quase que nos remetendo para os filmes noir e os filmes do expressionismo alemão. Veja-se o já falado interrogatório onde se encontram Harry e Slim, mas também quando se encontram em espaços fechados, onde o contraste entre luz e sombras é efectuado de forma notável. Notável é também a forma como Hawks explora uma história que tira muito de filmes como "Casablanca", mas nem por isso nos chega como um produto reciclado, com Hawks a elaborar um filme capaz de mesclar aventura e romance de forma bastante competente e com uma classe notória. As cenas em que Bogart e Bacall estão juntos facilmente ficam na memória, mas também quando esta se encontra a cantar junto do pianista do hotel interpretado por Hoagy Carmichel, com este último quase a ter o papel de Sam em "Casablanca". Não é só a dupla de protagonistas que sobressai do elenco, valendo a pena destacar o veterano Walter Brennan como Eddie. De andar algo desengonçado, alguma ingenuidade, alcoólico, esquecido e fiel a Harry, Eddie facilmente irrita vários elementos pela sua personalidade faladora, embora até forme uma boa relação com Slim, uma mulher capaz de se destacar no interior desta narrativa maioritariamente dominada pelos homens. Slim domina, mas também Howard Hawks, capaz de conjugar de forma sublime o romance entre esta personagem e Harry, mas também as cenas de maior tensão, em particular quando Harry tem de resgatar o casal Bursac e o último terço. A história que surgiu como base para o sólido argumento (escrito por Jules Furthman e William Faulkner, embora a fala mais recordada, a do assobio, tenha sido criada por Hawks) foi inspirada em "To Have and Have Not", embora muito tenha sido alterado, constando que Howard Hawks terá apostado com Ernst Hemingway que efectuaria uma boa adaptação do seu pior livro. Também "Casablanca" certamente inspirou o filme, com Bogart a interpretar o elemento cínico dos EUA que gradualmente adere à causa aliada, com "To Have and Have Not" a contar com as suas doses de subtil propaganda. Apesar de todos os seus trunfos e várias qualidades, "To Have and Have Not" destaca-se na sua maioria pela química arrebatadora de Humphrey Bogart e Lauren Bacall, uma dupla apaixonante e apaixonada que facilmente nos arrebata para o interior desta obra que facilmente nos marca.

Título original: "To Have and Have Not".
Título em Portugal: "Ter ou Não Ter".
Realizador: Howard Hawks.
Argumento: Jules Furthman e William Faulkner.
Elenco: Humphrey Bogart, Walter Brennan, Lauren Bacall, Dolores Moran, Hoagy Carmichael.

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