26 agosto 2014

Resenha Crítica: "Sin City: A Dame to Kill For" (Sin City: Mulher Fatal)

 Confesso que a certa altura de "Sin City: A Dame to Kill For" comecei a imaginar os executivos do estúdio a falarem com Frank Miller e Robert Rodriguez a procurarem perceber o que estes tinham para dar de novo em relação ao filme anterior. Perante um rotundo nada, imagino ainda Miller e Rodriguez a acrescentarem nos rabiscos: "mostrar as mamas da Eva Green, colocar esta nua a sair da piscina, colocar a personagem desta a fornicar mais do que uma vez, deixar a actriz com um vestido transparente para se verem os seios". Perante ainda alguma indecisão estou a ver a dupla a adicionar "colocar a Jessica Alba a abanar o rabo repetidas vezes, mostrar as mamas da Juno Temple, aumentar as frases de efeito e fingir que estamos a elaborar a sequela para acrescentar algo ao filme anterior". Por muito agradável que seja ver Eva Green a exibir os seus magníficos atributos físicos (a cena na piscina até é marcada por alguma beleza) e ver Jessica Alba a exibir os talentos corporais que não apresenta para a representação, não deixa de ser notório que Frank Miller e Robert Rodriguez por vezes parecem confundir fetiches pessoais com elementos relevantes para o filme, traindo até um pouco as raízes noir da franquia, onde muito era deixado subentendido e para a imaginação do espectador nas obras deste subgénero (não era por isso que Veronica Lake, Lauren Bacall, Barbara Stanwyck, entre outras, eram menos veneradas, bem pelo contrário). Diga-se que deveria de existir uma regra de ouro obrigatória que obrigasse cada elemento do elenco de um filme, o seu argumento e realizador a estarem à altura de Eva Green. Em "300: Rise of an Empire" foi Eva Green quem contribuiu maioritariamente para elevar um pouco um filme algo desequilibrado. Em "Sin City: A Dame to Kill For", Eva Green contribui para dar alguma classe e carisma a uma sequela por vezes marcada pela vulgaridade que não acrescenta praticamente nada ao filme original (não falamos desta em "Penny Dreadful" porque deve ser o melhor trabalho que a actriz integrou em 2014). Eva Green interpreta Ava Lord, uma mulher que utiliza o seu corpo e a sua capacidade de sedução para atrair os homens em "A Dame to Kill For", um dos quatro capítulos do filme (que repete praticamente a estrutura de "Sin City"). Não vale a pena tentar pensar nesta como uma femme fatale semelhante às dos vários filmes noir dos anos 40 e 50 (embora tenha sido inspirada nas mesmas), pois Robert Rodriguez deixa muito pouco para a nossa imaginação funcionar, mas nem por isso Eva Green deixa de conseguir atribuir algum mistério e safadeza à sua personagem. Entre os homens que esta consegue enganar encontra-se Dwight McCarthy (Josh Brolin, interpretado por Clive Owen no primeiro filme), um detective privado que encontramos inicialmente a fotografar um marido infiel (um Ray Liotta em overacting). Dwight outrora tivera um caso com Ava Lord, uma mulher que nos dias de hoje é casada com Damien Lord (Marton Csokas), um indivíduo poderoso que supostamente a maltrata.

Após uma tórrida noite de sexo, Dwight depara-se com o facto de Manute (Dennis Haysbert), um segurança de Damien, transportar esta para casa. Pensando que Ava se encontra a ser alvo de maus tratos, Dwight embebeda Marv (Mickey Rourke) para despertar o lado mais violento deste e invadir a casa do marido da femme fatale, acabando por eliminar Damien e descobrir que foi enganado pela amada, algo que coloca a sua vida em perigo. Este é provavelmente o segmento de maior relevo do filme, com Eva Green a destacar-se como esta mulher cujos olhos verdes e lábios pintados de vermelho sobressaem numa obra maioritariamente a preto e branco. Robert Rodriguez e Frank Miller voltam a utilizar a cor para realçar alguns elementos deste filme a preto e branco, repetindo algo elaborado no primeiro filme, tal como voltam a utilizar cenários criados a nível digital, procurando evocar uma atmosfera dos espaços citadinos marcados pela insegurança dos filmes noir, embora nem sempre consigam alcançar esse desiderato. Nos filmes noir tínhamos personagens cínicos e algo solitários, diálogos mordazes, femme fatales misteriosas, alguma imoralidade, espaços citadinos marcados por uma atmosfera de malaise, mas muito era sugerido ao espectador, deixando a imaginação do mesmo a funcionar. Não tínhamos cenas de sexo explícitas, mas nem por isso estas deixavam de ser sugeridas, criando-se algum mistério e incutindo classe a um conjunto de obras em que por vezes até o fumo dos cigarros tinha um papel de relevo na narrativa. Veja-se em "Out of the Past" em que o fumo dos cigarros por vezes até chega a traduzir um estado de espírito dos personagens, algo que não acontece em "Sin City: A Dame to Kill For", onde o fumo surge mais para dar estilo e evocar essa aura noir do que propriamente para servir o enredo. "Sin City: A Dame to Kill For", tal como o seu antecessor, procura evocar a estética das graphic novels de Frank Miller, nas quais foram, em parte, baseados os filmes da franquia, explorando a sua faceta pulp noir, numa obra cinematográfica onde não faltam personagens atormentados, mortes violentas, órgãos decepados, violência explícita, sexo, mulheres fatais, prostitutas, autoridades corruptas, muita pancadaria e tiroteios. Parte destes elementos são encontrados em "A Dame to Kill For", onde Josh Brolin também consegue ter algum destaque, mas também nos restantes segmentos. Em "Nancy's Last Dance", Nancy Callahan (Jessica Alba) lida com as consequências dos acontecimentos do primeiro filme, incluindo o suicídio de Hartigan (Bruce Willis), o seu protector, um indivíduo que lhe aparece nas suas alucinações. Nancy continua a trabalhar como stripper, com Robert Rodriguez a repetir variadas vezes o gesto da personagem a abanar o rabo, permitindo a Jessica Alba expor os talentos físicos (se os tivesse de igual modo para a representação teríamos aqui uma boa actriz). A personagem interpretada por Jessica Alba procura vingar-se do Senador Roark (Powers Boothe), um político corrupto e influente que procurou incriminar Hartigan pelos crimes cometidos pelo seu filho em "Sin City".

Nancy conta com a ajuda de Dwight, com o personagem interpretado por Mickey Rourke a ser uma desilusão neste filme. Se em "Sin City" procurava vingar a morte de Goldie (Jamie King), em "Sin City: A Dame to Kill For" é um brutamontes pronto para a pancadaria, surgindo como um personagem caricatural que regrediu em relação ao primeiro filme. Diga-se que em "Sin City: A Dame to Kill For" pouco contribuiu para um maior conhecimento ou crescimento dos personagens que permaneceram do filme anterior. Essa situação é visível com Nancy, Gail (Rosario Dawson), Hartigan, Roark (Powers Boothe), entre outros. Os homens são expostos como personagens atormentados e solitários, embora estejamos longe de ter um Marvin a procurar descobrir o assassino de uma prostituta em "Sin City" ou um Hartigan a procurar proteger uma jovem de um violador mesmo que para isso tenha de enfrentar tudo e todos. Nesse sentido, um dos elementos que mais fracassa em "Sin City: A Dame to Kill For" é a sua incapacidade de criar histórias com algum interesse, com excepção de "A Dame to Kill For". Falta alguma da densidade e das motivações fortes dadas aos personagens masculinos do primeiro filme que, na maioria dos casos, procuravam defender as figuras femininas. É por esta situação que "A Dame to Kill For" acaba por funcionar e, apesar de todas as liberdades, respeitar mais o universo noir no qual se integra o filme. Dwight procura defender a femme fatale mas acaba por ser traído por esta, acabando por posteriormente ter de lutar pela sobrevivência e vingar-se de quem o traiu. Já no segmento protagonizado por Jessica Alba e Mickey Rourke, ficamos imenso tempo para uma história que se resume a esta se encontrar atormentada pela morte de Hartigan e procurar eliminar Roark, enquanto Marv surge como o seu protector. As mulheres, com excepção da personagem interpretada por Eva Green (e mesmo esta é tratada como um objecto de desejo, embora esteja quase sempre no controlo), surgem quase todas representadas como prostitutas ou strippers, num universo narrativo marcado pela corrupção das almas e dos corpos, onde a imoralidade se encontra na ordem dia. Entre essas "mulheres-objecto" encontra-se Marcy (Julia Garner), uma stripper que é considerada um amuleto no jogo por Johnny (Joseph Gordon-Levitt), um jogador competente que procura vencer o senador Roark no póquer, despertando a ira deste político poderoso. Joseph Gordon-Levitt atribui alguma confiança e carisma a Johnny, concedendo alguma dimensão a este personagem que habita esta narrativa violenta, sendo alvo de tortura e envolvendo-se em situações deveras perigosas. Temos ainda "Just Another Saturday Night", um pequeno capítulo onde Marv tem de lidar com a incapacidade de se recordar de alguns acontecimentos recentes e enfrentar um grupo de jovens violentos. 

Um dos elementos que me agradou em "Sin City" foi a sua capacidade de transportar de forma relativamente competente a estética das graphic novels e a atmosfera pulp noir para o grande ecrã, sempre sem procurar grandes realismos e até a procurar o choque junto do espectador devido à sua violência exacerbada. Em "Sin City: A Dame to Kill For" esse factor de novidade já não existe e Robert Rodriguez e Frank Miller não parecem ter recursos para nos dar algo que não pareça um produto reciclado que praticamente não acrescenta nada ao filme original, perdendo até alguma da irreverência do mesmo. A violência estilizada está lá, os personagens problemáticos também, para além de uma atmosfera negra latente, mas o argumento parece bastante mais frágil e a espaços o aparente estilo de "Sin City: A Dame to Kill For" torna-se mais entediante do que entusiasmante, faltando muitas das vezes tensão e vida aos seus segmentos. A falta de subtileza de Robert Rodriguez e Frank Miller nem é o maior dos problemas, sobretudo se pensarmos que o primeiro filme estava longe de ser uma obra que primasse pela mesma, mas sim o argumento que nos dá quatro capítulos dos quais apenas um realmente parece devidamente trabalhado e pensado (ou será que Eva Green e Josh Brolin nos enganam?). Falta ainda a estes segmentos alguma da extravagância do primeiro filme (e capacidade de se assumir como algo que não podemos levar totalmente a sério), onde tínhamos Elijah Wood como um psicopata canibal, Nick Stahl como um frio violador e assassino de tez amarela, para além de um aproveitamento da Antiga Cidade dominada pelas prostitutas onde assistimos a uma chacina sangrenta. A dupla desperdiça ainda nomes do elenco secundário, tais como Rosario Dawson (que até tinha alguma relevância no segmento "The Big Fat Kill" do primeiro filme), Ray Liotta, Marton Csokas, Juno Temple (está lá para mostrar os seios), entre outros. Já Eva Green brilha mais alto do que todos os elementos, elevando o nível de uma sequela que está longe de ser uma nulidade, mas nem por isso deixa o amargo sabor de pouco acrescentar ao filme original. É certo que voltamos a ter um universo narrativo pulp noir violento, imoral, personagens atormentados, mas falta a frescura daquele que foi uma interessante adaptação de uma graphic novel ao grande ecrã. Temos ainda a narração dos protagonistas que procura evocar os filmes noir, mas Robert Rodriguez esquece-se mais uma vez que esta técnica tem de acrescentar algo e não ser redundante e a espaços intrusiva, algo que acontece mais do que deveria ao longo deste filme que repetidamente nos procura exibir que a cidade do título é um local capaz de corromper tudo e todos. "Sin City: A Dame to Kill For" entretém em alguns momentos, mas raramente justifica a sua existência, limitando-se a dar mais do mesmo, algo que não é péssimo apesar de estar longe de satisfazer por completo, embora a interpretação de Eva Green por si só justifique em pleno o preço do bilhete de cinema. Pelo lado positivo, Frank Miller já pode terminar a carreira na Sétima Arte e dizer que não teve "The Spirit" como último trabalho cinematográfico.

Título original: "Sin City: A Dame to Kill For". 
Título em Portugal: "Sin City: Mulher Fatal".
Realizador: Robert Rodriguez e Frank Miller.
Argumento:  Frank Miller.
Elenco: Mickey Rourke, Jessica Alba, Josh Brolin, Joseph Gordon-Levitt, Rosario Dawson, Bruce Willis, Eva Green, Powers Boothe, Dennis Haysbert, Ray Liotta, Jaime King, Christopher Lloyd, Jamie Chung, Jeremy Piven.

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