06 agosto 2014

Resenha Crítica: "The Simpsons Movie" (2007)

 Adaptar uma série televisiva ao grande ecrã não é tarefa fácil, algo que explica a demora dos famosos personagens de "The Simpsons" chegarem ao grande ecrã. Realizado por David Silverman, um cineasta encarregue da direcção de vários episódios da série desde os primórdios da mesma, "The Simpsons Movie" começa desde logo por nos colocar perante os célebres personagens Itchy e Scratchy, enquanto Homer e a sua família assistem à adaptação dos mesmos ao grande ecrã. Homer logo demonstra o seu desagrado por estar a pagar para ver no cinema algo que pode ver de graça na TV, algo que arrasa desde logo com as possíveis críticas a "The Simpsons Movie" neste sentido, ao mesmo tempo que mostra a irreverência típica da saga. Nesse sentido, não vão faltar elementos provocadores como piadas em relação a homossexuais, negros, à Religião, Bíblia (o livro que nunca dá respostas a Homer), Governo dos EUA, ao mesmo tempo que a extensão da narrativa a cerca de uma hora e vinte permite ao filme abordar temáticas relacionadas com os valores familiares e a preservação do meio ambiente. Temos ainda as várias referências a elementos da cultura popular, não faltando uma cena em que Homer e Marge são despidos por animais e ficamos perante algo muito semelhante a uma atmosfera Disney (logo quebrada quando os personagens se envolvem na cama), a "Titanic", a Al Gore, "Grand Theft Auto", "Spider-Man", entre muitas outras, para além dos célebres convidados especiais, sobressaindo em particular Tom Hanks a dar voz a Tom Hanks, bem como os Green Day que são eliminados logo nos momentos iniciais do filme. No entanto, todo o elenco vocal principal de "The Simpsons" voltou, algo que mantém um tom muito próximo da série, bem como o estilo de humor e os gags, sendo ainda de salientar um notório incremento no trabalho de animação, visível na boa utilização da paleta cromática e até nas sombras a envolverem os personagens. A história por vezes parece um episódio estendido do melhor que a série tem para nos dar, algo que não é um elogio negativo, bem pelo contrário, ou não estivéssemos (na data em que este texto é escrito) a caminhar para a vigésima sexta temporada de "The Simpsons", um programa que influenciou e de que maneira a televisão contemporânea.

 Tal como na série, "The Simpsons Movie" concentra maioritariamente as suas atenções na família Simpson, composta por Homer, Marge, Bart, Lisa e Maggie, com o primeiro a contribuir e de que maneira para um episódio decisivo que muda o rumo da narrativa. Durante a ida à Igreja, onde a família chega atrasada e Homer logo salienta que ninguém se vai aperceber porque "Aqueles idiotas estão muito ocupados a conversar com o seu falso Deus", logo o avô Simpson tem um ataque que conduz a uma revelação sobre uma possível desgraça. Pelo caminho, assistimos Homer e Bart a efectuarem as habituais brincadeiras perigosas entre ambos, que incluem este último andar de skate nu devido a uma aposta com o pai. O relacionamento entre estes dois é explorado com maior profundidade do que na maioria dos episódios da série, com Bart a sentir que o pai não lhe dá atenção e Homer a provar constantemente que está longe de ser um exemplo como progenitor. Nesse sentido, Bart começa a desenvolver uma certa simpatia pelo vizinho Ned Flanders e a forma como este trata os filhos de forma carinhosa, algo que não acontece com Homer, com este último a preocupar-se mais com o carismático porco que adopta. Desde Spider-Pig (onde temos o delicioso gag com Homer a fazer o porco caminhar no tecto e a cantar Spider-Pig) passando por Harry-Plopper, entre vários outros nomes, este animal é uma componente relevante da narrativa. Perante o excesso de fezes do porco de estimação, Homer deita as mesmas no lago que se encontrava com enorme poluição, algo que conduz ao espaço ficar com uma poluição brutal, tornando a cidade de Springfield como a mais poluída dos EUA. Lisa já tinha prevenido esta situação junto dos elementos da cidade, apresentando "Uma Verdade Irritante" (numa clara alusão ao documentário com argumento de Al Gore), em conjunto com Colin, um jovem irlandês que se mudou recentemente para a cidade. Colin é um jovem ambientalista, interessado pela música, que logo desperta a atenção de Lisa. Todos foram proibidos de atirar lixo para o lago, uma regra que é quebrada por Homer, uma situação que vai conduzir o presidente Schwarzenegger (Harry Shearer), a seguir o conselho de Russ Cargill (Albert Brooks), o líder da EPA (Environmental Protection Agency), algo que passa por colocar uma cúpula em Springfield.

 Com a cúpula colocada, a cidade fica à parte de tudo e todos, uma situação que conduz os habitantes a procurarem o culpado por ter atirado lixo para o lago, enquanto as condições de vida destes elementos se começam a degradar cada vez mais. Homer logo é descoberto (por ter colocado no silo "Devolver a Homer Simpson"), tendo de fugir com a família, em momentos bastante aparatosos, embora com algum humor, até os Simpsons se verem na obrigação de salvarem o dia. Pelo meio temos o desenvolvimento de arcos relacionados com a relação entre Homer e Bart, mas também entre Homer e Marge, com o casal a ter a relação em perigo, duas subtramas a juntar ao tema principal de salvar Springfield e permitem dar uma maior espessura à narrativa. O argumento escrito a várias mãos, nomeadamente por James L. Brooks, Matt Groening, Al Jean, Ian Maxtone-Graham, George Meyer, David Mirkin, Mike Reiss, Mike Scully, Matt Selman, John Swartzwelder, Jon Vitti, sobressai acima de tudo por conseguir apresentar uma história que se aguenta relativamente bem ao longo da duração, ao mesmo tempo que consegue captar "o espírito" da série e criar um filme de animação que resulta bastante bem. Falta-lhe alguma tensão em volta do salvamento de Springfield, sendo óbvio que o mesmo vai acontecer, mas não perde a oportunidade de criar alguns momentos hilariantes, como a já citada cena do Spider-Pig, mas também Homer na Igreja, a incapacidade dos cidadãos de Springfield em se preocuparem com as questões importantes, ao mesmo tempo que algumas mensagens vão sendo transmitidas. Desde a necessidade de preservar o meio ambiente, passando pelos valores familiares, passando até pela crítica a governações pouco pensadas, muito é dito ao longo de "The Simpsons Movie", embora sempre com um tom de brincadeira, uma situação que atribui enorme leveza ao enredo. Ficamos ainda perante elementos típicos da personalidade dos personagens, tais como a irreverência de Bart, o pragmatismo de Marge, a faceta idealista e atrapalhada de Lisa (para quem o melhor de Colin é não ser um amigo imaginário), o lado católico e conservador de Ned Flanders, a enorme capacidade de Homer em pensar pouco e tomar más decisões, entre muitos outros. Marcado por um humor corrosivo, a espaços politicamente incorrecto, uma história agradável e algumas mensagens relevantes, "The Simpsons Movie" é a prova que estes personagens têm muito para nos dar no grande ecrã.

Título original: "The Simpsons Movie".
Título em Portugal: "Os Simpsons: O Filme".
Realizador: David Silverman.
Argumento: James L. Brooks, Matt Groening, Al Jean, Ian Maxtone-Graham, George Meyer, David Mirkin, Mike Reiss, Mike Scully, Matt Selman, John Swartzwelder, Jon Vitti.
Elenco vocal: Dan Castellaneta, Julie Kavner, Nancy Cartwright, Yeardley Smith, Hank Azaria, Harry Shearer, Pamela Hayden, Tress MacNeille, Albert Brooks.

Sem comentários: