11 agosto 2014

Resenha Crítica: "Raiders of the Lost Ark" (1981)

 Mesclando aventura, acção, humor e algum romance, "Raiders of the Lost Ark" é uma das mais icónicas obras cinematográficas do início da década de 80, confirmando Harrison Ford como uma estrela de cinema e Steven Spielberg como um realizador mais do que competente na realização de blockbusters. Ford interpreta Indiana Jones, um arqueólogo que está para a sua profissão como James Bond para a sua actividade profissional, surgindo como um dos melhores na sua área, pronto a envolver-se em missões intrincadas e desgastantes, seduzindo algumas mulheres pelo caminho (ao longo da saga), embora também seja capaz de se colocar em enormes confusões. Uma dessas missões é-nos exposta logo no início do filme, com Indiana Jones a encontrar-se no interior de um esconderijo no Peru tendo em vista a resgatar um ídolo de ouro, sendo traído por Satipo (Alfred Molina no seu primeiro papel no grande ecrã). O traidor logo acaba por cair numa armadilha, enquanto Indiana Jones tem de escapar de uma bola de pedra de grandes proporções, conseguindo fugir da mesma, embora não escape a René Belloq (Paul Freeman), um arqueólogo rival que lhe rouba o ídolo de ouro. Estamos em 1936, em plena II Guerra Mundial, uma situação que conduz Indiana Jones a ser contactado na Universidade de Marshall, onde lecciona arqueologia, por dois agentes dos serviços secretos que procuram por Abner Ravenwood, o antigo mentor do protagonista, um indivíduo de quem o personagem interpretado por Harrison Ford se afastou há cerca de dez anos. Os investigadores interceptaram um telegrama Nazi que referia o nome de Abner Ravenwood, bem como o facto deste estar na posse do ornamento do Bordão de Rá, um objecto que se acredita ser vital para descobrir a Arca da Aliança. Hitler pretende encontrar a Arca da Aliança tendo em vista a tornar o seu exército invencível, acreditando que o objecto se encontra em Tânis, com esta missão de investigação a surgir como um projecto megalómano do líder Nazi. Os serviços secretos dos EUA pretendem travar esta iniciativa Nazi, incumbindo Indiana Jones de encontrar o Bordão de Rá e a Arca da Aliança. Indiana Jones desloca-se até ao Nepal, tendo em vista a reunir-se com Marion Ravenwood (Karen Allen), a sua antiga namorada, uma mulher que abandonara repentinamente, algo que causou o afastamento de Abner, o pai desta e antigo mentor do protagonista. Esta gere uma espécie de taberna, onde aposta regularmente com os homens que consegue beber mais do que estes sem ficar inconsciente, revelando a Indiana que o pai faleceu. Pouco tempo depois, os elementos Nazis, liderados por Arnold Toht (Ronald Lacey), um indivíduo algo psicótico que se encontra disposto a tudo a ficar com o Bordão de Rá, invadem a taberna de Marion, causando uma enorme destruição pelo caminho, embora não consigam o objecto. Marion e Indiana conseguem escapar, com esta a envolver-se na missão do protagonista. Ambos viajam para o Cairo, num clima entre a aventura e o romance, contactando Sallah (John Rhys-Davis), um prospector com vastos contactos no território. Sallah logo o avisa da presença de Belloq no território, algo que não agrada nada ao protagonista, embora seja Indiana quem tem o Bordão de Rá que supostamente permitirá encontrar a Arca da Aliança. Marion acaba raptada pelos elementos associados a Hitler, enquanto Indiana procura fazer de tudo para conseguir encontrar primeiro a arca de forma a evitar que esta caia em mãos inimigas.

  Ficamos assim perante uma história marcada por várias reviravoltas, que evoca os serials dos anos 30 e 40 (veja-se "Flash Gordon", "Zorro Rides Again", entre muitos outros), embora o enredo seja condensado em pouco mais do que uma hora e quarenta e cinco minutos. As cenas de acção são marcadas por enorme emotividade, não faltando uma fuga num hidroavião, perseguições de carros, Indiana Jones a montar um cavalo, tiroteios, invasão Nazi a um barco pirata, o protagonista a fugir de uma pedra rolante gigante (numa das cenas mais marcantes da saga), um macaco traidor e humor nas situações mais inesperadas. Veja-se quando Arnold Toht tira aquilo que parece ser um instrumento de tortura e este objecto se revela um cabide, mas também quando Indiana Jones dispara rapidamente sobre um elemento que se encontra entusiasticamente a bailar a espada, entre várias outras cenas. Temos ainda os elementos de fantasia associados aos objectos arqueológicos e à religião, enquanto os personagens se envolvem numa acirrada disputa pela Arca da Aliança. Steven Spielberg consegue criar uma obra homogénea a mesclar os distintos géneros pelos quais se embrenha, contando com o carisma de Harrison Ford a interpretar Indiana Jones, mas também um enorme engenho a gerir o ritmo dos acontecimentos do enredo. Essa situação é visível na forma como consegue tornar credíveis algumas reviravoltas inverosímeis, mas também a explorar alguns momentos de maior tensão, algo notório quando Marion e Indiana ficam presos no interior de um túmulo e ficam diante de cobras, um momento arrepiante do qual o protagonista e o seu interesse amoroso escapam com algumas dificuldades. A relação entre Marion e Indiana é fundamental. Esta é a personagem feminina que mais se destaca no interior deste universo narrativo dominado por homens, bebendo tanto ou mais do que estes, expondo a sua forte personalidade, embora não esconda um fraquinho por Indiana. Inicialmente até entram logo em confronto, mas o romance interrompido de forma precoce no passado parece ter tudo para ressurgir no presente, enquanto esta se acaba por envolver na procura do protagonista em descobrir a arca primeiro do que Belloq. Diga-se que esta relação entre Marion e Indiana por vezes faz-nos recordar os relacionamentos amorosos das comédias screwball, com Karen Allen a apresentar comportamentos a parecerem querer imitar algumas das vivazes personagens interpretadas por Katharine Hepburn. Karen Allen destaca-se como esta mulher, tendo posteriormente regressado para o quarto filme da saga, protagonizando alguns dos bons momentos de "Raiders of the Lost Ark", deixando alguns dos elementos masculinos embeiçados por si. Entre esses elementos encontra-se Belloq, um arqueólogo que rivaliza com Indiana Jones e trabalha ao serviço dos elementos nazis, simbolizando um profissional da área pouco ético, distinto do protagonista.

Embora os antagonistas consigam despertar algum interesse, não deixa de ser notório que por vezes são expostos com demasiados clichés, incluindo ter Paul Freeman a falar inglês com sotaque francês, bem como Ronald Lacey a falar inglês com sotaque alemão, algo que não convence, sobretudo quando temos outros personagens da mesma nacionalidade a dialogarem com o seu idioma original (já para não salientar os momentos em que Belloq e os alemães falam entre si em inglês). Se Belloq ainda apresenta algum interesse em Marion e uma rivalidade intensa com o protagonista, já Arnold Toht surge como um antagonista relativamente unidimensional, cujas características físicas até podem-no aproximar a Peter Lorre embora Ronald Lacey esteja longe de conseguir dar a dimensão aos personagens que este último era capaz. Lacey interpreta um dos vários elementos nazis que rodeiam o enredo, com "Raiders of the Lost Ark" a não descurar o contexto histórico, associando ainda um lado ligado ao sobrenatural/fantasioso a esta perigosa missão protagonizada por Indiana Jones. Este conta ainda com o apoio de elementos secundários como Sallah, um carismático e falador guia interpretado por John Rhys-Davies, com "Raiders of the Lost Ark" a colocar o protagonista de desafio em desafio até ao frenético último terço. A banda sonora de John Williams, em particular o icónico tema sonoro associada aos filme da saga "Indiana Jones" contribui para incrementar os acontecimentos da narrativa, com esta história criada por George Lucas e Philip Kaufman a ser transposta para o grande ecrã com grande engenho por Steven Spielberg. Este atribui um tom enérgico ao filme, não poupando momentos de enorme dinamismo, por vezes quase non sense, com os personagens a deslocarem-se para diferentes locais e a serem colocados nas mais diversas situações. Veja-se quando Marion tem de andar a disparar num helicóptero ou Indiana tem de lidar com o seu receio de cobras, entre tantos outros elementos que marcam esta obra de puro escapismo. Foi um filme relativamente bem recebido pela crítica (Pauline Kael não ficou muito convencida), tendo conquistado o público e inspirado uma série de filmes. Veja-se ainda recentemente os filmes da trilogia "A Múmia", sobretudo o primeiro filme da saga, com Stephen Sommers a procurar evocar o tom de Indiana Jones, entre muitos outros. No caso de "Raiders of the Lost Ark", o filme ganhou ainda uma prequela, nomeadamente "Indiana Jones and the Temple of Doom", bem como duas sequelas, "Indiana Jones and the Last Crusade" e "Indiana Jones and the Kingdom of Crystall Skull", para além de uma série televisiva ("The Young Indiana Jones Chronicles"), algo revelador do apelo que este personagem cheio de estilo consegue criar junto do público. "Raiders of the Lost Ark" conta ainda com diversos elementos que vão ser transversais a vários filmes da saga, tais como uma missão intrincada para encontrar um objecto valioso, cenas de acção bem coreografadas, uma figura feminina a acompanhar o protagonista, locais exóticos, cenários interiores criados de forma cuidada, Indiana Jones com o seu chapéu e chicote, um notório sentido de ritmo, algum humor, muita aventura, aproveitamento do contexto histórico que envolve o enredo, entre muitos outros elementos. Com um aproveitamento bastante razoável dos cenários, um protagonista e um tema musical icónicos, "Raiders of the Lost Ark" não poupa na aventura, humor, acção, surgindo como um pedaço de entretenimento que não cansa, mesmo após diversas visualizações.

Título original: "Raiders of the Lost Ark". 
Título em Portugal: "Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida".
Realizador: Steven Spielberg.
Argumento: Lawrence Kasdan.
Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Rhys-Davies, Denholm Elliott.

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