27 agosto 2014

Resenha Crítica: "Magic in the Moonlight" (Magia ao Luar)

 Com um conjunto de diálogos refinados muito ao jeito de Woody Allen, "Magic in the Moonlight" exibe mais uma vez a perícia de um dos grandes realizadores do nosso tempo, que mesmo numa obra que tem vindo a ser injustamente considerada de menor é capaz de dar mais do que muitas obras maiores de vários cineastas. Woody Allen coloca-nos perante uma história que fica entre o pragmatismo e o romantismo, entre o ateísmo e a fé, entre a magia e o realismo, cabendo um pouco a Colin Firth emular o estilo do cineasta, com os diálogos do seu personagem a parecerem muitas das vezes provenientes "da boca" do realizador. Veja-se quando ironiza com os fãs que pedem autógrafos, mas também o seu pragmatismo e cultura refinada, entre vários outros elementos, com Colin Firth a interpretar com grande estilo o mágico Stanley Crawford, um indivíduo conhecido em todo o mundo, actuando como Wei Ling Soo (a fazer recordar o hábito de elementos ocidentais a imitarem orientais, veja-se o caso de Peter Lorre na saga de "Mr. Moto"). A primeira vez que encontramos Stanley, este encontra-se a dar um espectáculo recheado de glamour e exotismo em Berlim, em 1928, despertando a atenção de um público que parece desprezar. Stanley é um indivíduo cínico, pouco dado a grandes amizades, capaz de maltratar os seus colaboradores e ironizar com tudo aquilo que despreza, incluindo a fé, religião e espiritismo. Este também é um mestre a desvendar burlas relacionadas com espiritismo, algo que o conduz a ser convidado pelo seu amigo e colega Howard Burkan (Simon McBurney) para desmascarar Sophie (Emma Stone), uma psíquica que supostamente anda a enganar os Catledge, uma rica família dos EUA que vive no paradisíaco território da Côte d'Azur (Woody Allen de regresso aos territórios europeus). Brice (Hamish Linklater), o filho mais novo dos Catledge, apaixona-se por Sophie, enquanto Grace (Jacki Weaver), a mãe do jovem, fica convencida que pode contactar com o esposo através desta mulher. Caroline (Erica Leerhsen), a irmã de Brice e George (Jeremy Shamos), o marido desta, desconfiam de Sophie, contactando Howard, embora este não consiga desmascarar a suposta medium. É então que Stanley decide viajar até à mansão dos Catledge, deixando a sua noiva de lado, enquanto se aventura com todo o seu cepticismo e humor negro, procurando não ter contemplações com esta suposta charlatona (e pouca paciência para quem se acredita na mesma). 

O cenário com que Stanley se depara em França é marcado por toda uma iluminação e cor que contrastam com o cinzentismo e conservadorismo da sua personalidade. Diga-se que Stanley e Sophie são duas figuras completamente antagónicas. Ela veste-se quase como se fosse uma boneca de pano, apresentando uma personalidade que varia entre o discurso da banha da cobra e o naïve, com Emma Stone a conseguir expressar sem grandes problemas todas as bizarrias que envolvem esta colorida e extravagante personagem que facilmente encantam e convencem aqueles que estão à sua volta. Ele é um mágico que confia apenas naquilo que pode ver e controlar (sendo um mestre da arte da ilusão), disparando falas sardónicas sem grandes problemas, considerando esta mulher uma fraude, embora gradualmente se deixe envolver pela presença da mesma e se deixe surpreender pela capacidade de Sophie em descobrir elementos sobre a sua vida. Precisaremos todos nós de alguma incerteza e crença no impossível nas nossas vidas? Esta parece ser uma questão que atravessa a narrativa de "Magic in the Moonlight", enquanto Woody Allen nos deixa perante a oposição entre o pragmatismo e a crença, sempre com alguns diálogos afiados e prontos a fazerem-nos rir com algum do humor negro presente nos mesmos. Sobretudo os diálogos proferidos por Colin Firth, cuja interacção com a personagem interpretada por Emma Stone permite alguns dos melhores momentos do filme (a diferença de idade não é problema para uma relação, se ambos forem maiores). Firth atribui um refinado humor negro ao seu personagem, conseguindo expressar as falas no timing certo para que causem efeito e exibam Stanley como um indivíduo egocêntrico, pouco dado a grandes amizades, pomposo e acompanhado por uma enorme classe. Stanley é um homem de sucesso, enquanto Sophie é uma mulher que ganha a vida como medium, com o filme a procurar evidenciar que as dificuldades que esta sentiu podem tê-la compelido a seguir para esta profissão, tendo na sua mãe uma figura protectora (por vezes em demasia). Ficamos perante dois protagonistas bem construídos, mas também com alguns elementos secundários que sobressaem pela positiva, em particular a Tia Vanessa (Eileen Atkins), uma familiar muito próxima de Stanley, que este visita com a companhia de Sophie, tendo em vista a procurar desmascarar este jovem que se encontra prestes a ficar noiva de Brice. Este é um indivíduo que gosta de tocar serenatas num ukulele, que venera Sophie e nunca coloca o carácter desta em causa, pensando, em conjunto com Grace, abrir uma fundação para a personagem interpretada por Emma Stone e a mãe desta (Marcia Gay Harden) poderem administrar. 

Parece certo que a relação entre Sophie e Brice tem tudo para não dar certo, com a personalidade apagada do segundo a contrastar com a peculiaridade da primeira, uma mulher que acaba por se aproximar  do homem que a pretende desmascar. Existe um momento particularmente belo no filme, onde a personagem interpretada por Emma Stone e Stanley ficam juntos num centro de observação, sobressaindo a lua, dando um tom algo romântico a uma relação que gradualmente conhece momentos mais cândidos. Na prática seria aparentemente impossível que dois seres humanos com personalidades tão distintas parecessem formar alguma intimidade, mas Woody Allen facilmente nos exibe que no cinema, tal como na vida, nem tudo pode, nem deve, ser linear e explicado (apesar do enredo estar longe de ser imprevisível). A banda sonora, marcada por alguns temas de jazz e música clássica, exibe o bom gosto de Woody Allen para a música e a capacidade de utilizá-la ao serviço do enredo, ao mesmo tempo que beneficia de contar com um director de fotografia como Darius Khondji para incrementar esta agradável obra cinematográfica e exacerbar a beleza dos cenários exteriores onde somos colocados perante a bela Côte d'Azur e os cenários interiores onde se nota todo um cuidado na decoração dos espaços (para além de uma aprumada utilização da paleta cromática). Veja-se desde logo o número inicial marcado pelo exotismo do espectáculo de Stanley, mas também toda a mansão espaçosa dos Catledge, luxuosamente ornamentada, palco de um baile muito "à Gatsby". Existe ainda todo um cuidado no guarda roupa, pronto a dar o tom de época do filme, sobressaindo sobretudo a dicotomia entre as vestes coloridas de Sophie e as roupas clássicas de Stanley (quase sempre com um fato). A certa altura do filme começamos a ver Stanley também com um fato branco, algo que evidencia uma maior abertura em relação a Sophie, mas também uma possível mudança comportamental, com o filme a apostar muito no explorar deste contraste entre os crentes e os não crentes. No final, fica a certeza que Woody Allen continua a manter uma enorme capacidade para criar histórias marcadas por diálogos com algum brilhantismo, sempre com um humor muito próprio e uma capacidade única para extrair o que de melhor os seus actores têm para dar. Não é o melhor Woody Allen? Até pode não ser, mas certamente é uma das obras cinematográficas mais agradáveis que estrearam nas salas de cinema portuguesas no Verão de 2014.

Título original: "Magic in the Moonlight".
Título em Portugal: "Magia ao Luar".
Realizador: Woody Allen.
Argumento: Woody Allen.
Elenco: Emma Stone, Colin Firth, Hamish Linklater, Marcia Gay Harden, Jacki Weaver, Erica Leerhsen, Eileen Atkins, Simon McBurney

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