07 agosto 2014

Resenha Crítica: "London Boulevard" (2010)

  Regressar a "London Boulevard" é sempre algo peculiar pela forma como continuo a considerar que é um filme algo subvalorizado, quando é um thriller relativamente competente, marcado por boas interpretações de Colin Farrell, Keira Knightley, David Thewlis e Ray Winstone, alguns bons diálogos e uma banda sonora marcante, envolvendo-nos na sua atmosfera sedutora e algo violenta, onde um antigo prisioneiro se torna guarda-costas de uma celebridade reclusa, enquanto continua a manter sua vida de delinquente. Este gangster é interpretado por Colin Farrell, com o actor a manter uma postura dura, mas humana, como este indivíduo pronto a soltar impropérios, que é amigo do seu amigo, algo solitário, recém-saído da prisão, que apenas quer "Comida suficiente, uma cama" e carrega no seu interior uma grande violência que o leva a envolver-se numa série de problemas, mesmo quando pretende afastar-se dos mesmos. Esta citação surge acompanhado por "tinhas tudo isso na prisão" e não deixa de ser curioso que Mitchel pareça ainda viver meio em reclusão, atormentado pelos crimes do passado e a sua ligação ao chefe do crime, Gant (Ray Winstone). Quando sai da prisão, Mitchel contacta com Billy Norton (Ben Chaplin), um antigo parceiro de crimes, que sugere que o protagonista habite num apartamento a troco de trabalhar para Gant, algo que o personagem interpretado por Colin Farrell acaba por aceder. Enquanto isso, na sua festa do seu regresso, Mitchel evita que Penny (Ophelia Lovibond) seja importunada por um grupo de delinquentes e que Briony (Anna Friel como a irmã do protagonista) se envolva em problemas devido ao álcool. Penny acaba por aconselhar Mitchel como segurança de Charlotte (Keira Knightley), uma actriz famosa que decide temporariamente abandonar a sua carreira e encontra-se em reclusão na sua casa em Londres. Longe do olhar do público, mas perto das objectivas dos paparazzi, Charlotte contrata o ex-recluso para servir de segurança e a proteger, enquanto este último procura fugir à vida do crime e ter um trabalho sério e legal. Charlotte é uma mulher solitária, com uma casa luxuosa, recheada de obras de arte e carros de valor elevado (do ex-marido), contando com a companhia de Jordan (David Thewlis), um amigo e espécie de assistente desta, dado a beber muito álcool e a consumir drogas. Mitchel tem na fragilidade de Charlotte o contraponto ideal para a sua ferocidade, ao mesmo tempo que Colin Farrell e Keira Knightley exibem uma grande habilidade para fazer muito com o pouco desenvolvimento que o argumento concede ao relacionamento dos seus personagens, com o filme a ser centrado na história do personagem do primeiro e não no casal. Estes interpretam duas almas algo perdidas e deslocadas, que procuram fugir ao destino mas acabam constantemente por tropeçar nos seus desígnios, sobretudo Mitchel, que acaba por se envolver numa vendetta pessoal para vingar a morte de um amigo e ter de lidar com a violência e perseguição de Gant, algo que lhe promete trazer muitos problemas.

William Monahan estreia-se no cargo de realizador com um guilty pleasure que apresenta claros problemas de identidade. Ora é um romance, ora um filme de gangsters, ora procura emular elementos dos filmes noir, ora exacerba a violência, ora o os momentos românticos, embora raramente consiga desenvolver todas as subtramas e se perca na sua intrincada teia narrativa que é desfeita antes das diversas temáticas serem devidamente desenvolvidas. Sem conseguir desenvolver todas as subtramas ambiciosas a que se propõe, "London Boulevard" não deixa de ser um thriller envolvente, capaz de nos seduzir para a história de Mitchel e Charlotte, dois elementos solitários, reféns dos destinos que escolheram, mas também de elementos externos. A vedeta lida com o constante assédio dos papparazzi e uma vida algo vazia, o gangster com o facto de ter a certeza de ser praticamente impossível sair ileso do mundo do crime. William Monahan consegue explorar e expor a identidade e idiossincrasias destes dois personagens: Charlotte aparece representada com enorme mistério, uma figura sedutora, com falas mordazes (como "Aqui é o Cabo Canaveral dos casamentos de merda"), interpretada com sagacidade por Keira Knightley, capaz de imbuir esta personagem da fragilidade, mistério e sensualidade (uma espécie de doçura de Audrey Hepburn mas em modo desbocado). Mitchel é o protagonista do filme, um indivíduo complexo, que procura proteger as figuras femininas (a irmã e a estrela de cinema), a espaços violento, que conta com uma notória procura em sair do mundo dos gangsters, apesar de se envolver com enorme facilidade em confusões (qual protagonista dos filmes noir). Charlotte e Mitchel não podem ser felizes e a sua (não) relação, embora acompanhada por alguma candura, parece estar sempre atomizada pelos factores externos inerentes ao facto desta ser uma estrela perseguida pelos paparazzi e este ser um gangster, para além de William Monahan marginalizar imensas vezes a história da dupla, em favor de um conjunto de subtramas, que permitem a alguns personagens secundários sobressaírem. Entre esses personagens encontram-se Jordan, um amigo e assistente de Charlotte, um dândi, beberrão e ligado às artes; Gant, um chefe do crime violento e homossexual; Briony, a rebelde irmã do protagonista, entre outros elementos. A necessidade de explorar estes personagens conduz a que muitas das vezes o argumento se desenvolva em subtramas pouco exploradas, desde a amizade de Mitchel com Joe, um sem-abrigo que é assassinado, a relação de Mitchel com a irmã, entre outros elementos desta obra realizada por William Monahan, um argumentista competente, que se estreia com alguns momentos de relevo na realização. A obra apresenta alguns desequilíbrios, mas nem por isso deixa de ser um thriller capaz de deixar alguma marca, marcado por um trabalho de fotografia e guarda-roupa adequados, boas interpretações e uma banda-sonora apaixonante, onde "La Fée Verte" dos Kasabian facilmente toma conta do ecrã. Podemo-nos queixar dos clichés, mas se forem bem utilizados e aproveitados, estes facilmente ganham outra dimensão, num filme que nem sempre consegue balancear a história de Charlotte e Mitchel, e a vida deste último como um gangster que parece não saber muito bem o que quer fazer da vida, mas nem por isso deixa de ser um thriller sedutor, bem filmado e imensamente subvalorizado.

Título original: "London Boulevard".
Título em Portugal: "London Boulevard - Crime e Redenção". 
Realizador: William Monahan.
Argumento: William Monahan.
Elenco: Colin Farrell, Keira Knightley, David Thewlis, Anna Friel, Ben Chaplin, Ray Winstone.

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