29 agosto 2014

Resenha Crítica: "La Jalousie" (Ciúme)

 As relações humanas são complicadas. Não é novidade, nem Philippe Garrel pretende passar essa situação como tal. Prefere antes desarmar-nos com o quotidiano de Louis e Claudia. Louis é um actor de teatro na casa dos trinta anos de idade cujo salário está longe de satisfazer as suas necessidades, enquanto Claudia tarda em conseguir recuperar o êxito como actriz. Garrel exibe-nos momentos da intimidade destes dois no apartamento barato que dividem, onde ambos mostram alguma cumplicidade e reverência para com a sua arte. As imagens deleitam-nos (magnífica cinematografia de Willy Kurant, um director de fotografia que já trabalhou com Godard em "Masculin féminin"), filmadas a preto e branco, belíssimas e prontas a incrementar toda a nostalgia que rodeia o enredo, mas também os sentimentos díspares que vão sendo expostos ao longo do filme. Louis conseguiu um trabalho numa peça, onde acaba por brevemente trair Claudia com uma colega de trabalho. Este espera que a amada consiga regressar ao estrelato, embora essa pareça ser uma tarefa deveras complicada. Entretanto, Claudia conhece Henri, um indivíduo que lhe propõe trabalho como arquivista, acabando por se interessar por este, algo que coloca em causa a relação com Louis. Este tem uma filha de Clothilde, procurando cuidar da jovem Charlotte e partilhando com esta alguns saudáveis momentos entre pai e filha. O abandono de Claudia parece estar prestes a destruir Louis, o próprio sabe disso quando pega numa arma. Philippe Garrel filma a arma na mesa e a mão de Louis a pegar na mesma, focando esta parte do corpo num plano a fazer recordar a atenção dada por Robert Bresson às partes corporais específicas dos seus personagens e ao simbolismo dos seus gestos. Louis não é um assaltante de carteiras como Michel em "Pickpocket", mas quem é tomado de assalto é o seu orgulho e a sua aparente cara-metade, enquanto a sua alma se inquieta perante a possível perda. Este é interpretado por Louis Garrel, filho de Philippe e colaborador habitual do mesmo, um actor capaz de exibir no seu rosto o desassossego de sentimentos pelo qual vive o seu personagem depois de ser abandonado. Ama a filha, parece amar Claudia embora esta não esteja disposta a manter a relação. Não é novidade que Philipe Garrel integre elementos da sua vida pessoal nas suas obras cinematográficas, pelo que não é de surpreender que "La Jalousie" tenha sido baseado num caso extra-conjugal do seu pai, com a jovem Charlotte a funcionar como um duplo do realizador durante a sua infância. Diga-se que a ligação familiar de Garrel e "La Jalousie" encontra-se ainda na presença de Esther, interpretada por Esther Garrel, filha do cineasta e irmã de Louis no filme e na vida real. Esther e Louis perderam o pai relativamente cedo, apresentando alguma cumplicidade entre si, com este último a ter num antigo professor uma figura quase paternal. O antigo professor de Louis faz questão de salientar que o protagonista percebe mais da ficção do que da realidade, um comentário que traduz bem este protagonista. Sente ciúme por Claudia estar envolvida com outra pessoa, embora anteriormente até tivesse abandonado a sua companheira e cometido um acto semelhante, exibido logo no início do filme, onde a jovem Charlotte espia o pai a abandonar a mãe, perante a tristeza desta última.

Perdoem mais uma vez a comparação com Robert Bresson (com as devidas diferenças, visto que Bresson é um cineasta de um nível ao alcance de poucos), que Garrel assumiu ser uma das suas referências, mas o momento em que Louis e Clothilde se separam e a jovem Charlotte espia por uma fresta do seu quarto faz recordar momentos semelhantes em que os guardas espreitam Jeanne d'Arc em "Procès de Jeanne d'Arc" e a protagonista de "Au Hasard Balthazar" espia através de um espaço diminuto, onde ficamos perante algum voyeurismo. De Robert Bresson, Philippe Garrel também parece tirar o exímio jogo entre as imagens e o som, em particular a banda sonora, capaz de incrementar a nostalgia inerente a alguns episódios que rodeiam a narrativa. Veja-se quando Louis vai atrás de Claudia durante a noite, com ambos já a mostrarem alguns problemas, enquanto a música contribui para transformar este momento em algo de sublime, mas também a cena em que a personagem interpretada por Anna Mouglalis corre desenfreadamente para casa para tentar descobrir o que o protagonista se encontra a fazer (num ataque de ciúmes latente). Louis continua a amar Claudia, mas esta nem por isso parece disponível em manter a relação. Diga-se que Louis também a trai com a co-protagonista da peça que protagoniza, para além de segurar a mão da mãe de uma amiga da filha durante uma sessão no cinema, algo revelador de algum interesse e que expõe a complexidade destes relacionamentos que têm como pano de fundo a cidade de Paris. Ficamos perante relações humanas complexas, onde Garrel mostra que, ao contrário do seu protagonista, sabe lidar com o mundo real, ou pelo menos consegue transpor para o grande ecrã as complicações típicas que acompanham o quotidiano dos seres humanos. Aparentemente, o enredo de "Ciúme" parece simples, mas Garrel eleva a obra com a sua realização magnífica, pronta a problematizar as temáticas e a seguir por caminhos nem sempre esperados, marcada por diálogos com alguma profundidade e qualidade, que até acabam por ajustar-se que nem uma luva ao título "filho da Nouvelle Vague" que acompanha o press kit do filme. "Ciúme" beneficia ainda de um magnífico trabalho de câmara, onde o cameraman Jean-Paul Meurisse dá uma lição de como utilizar a câmara na mão, seguindo os personagens atentamente, acompanhando os seus movimentos, os elementos para onde olham, transformando-nos em cúmplices de Louis, Claudia e todos os elementos que rodeiam a obra. Através de Louis e Claudia, Garrel explora as complicadas relações entre homens e mulheres, incluindo todo o turbilhão de sentimentos que uma relação pode ter. Não falta algum amor, cumplicidade, ciúme, dor, traição, ressentimento, segredos por revelar e verdades incómodas a serem ditas, embora no caso de Louis a sua relação esteja destinada a um final pouco aprazível.

Claudia é uma mulher algo independente, incapaz de não mostrar algum ciúme em relação à actriz que vai interpretar a irmã de Louis num trabalho. Esta mantém uma relação de enorme admiração, respeito e fraternidade com um escritor de idade avançada, de quem admira os seus trabalhos, com Garrel a deixar-nos perante alguns momentos de leitura a fazer recordar os personagens leitores de Godard. O escritor surge como uma figura quase paternal para Claudia, tal como o professor para Louis, com estas duas figuras adultas a continuarem a ter os seus confidentes e conselheiros, um pouco como a jovem Charlotte tem no personagem interpretado por Louis Garrel e Clothilde. Charlotte permite a "La jalousie" abordar a temática dos filhos de pais separados, enquanto ficamos em alguns momentos perante esta jovem cheia de vivacidade que gosta da presença do pai e vive com a mãe. Partilha uma saída com Claudia e Louis, mas também com este último e a irmã do mesmo, para além de alguns momentos de ternura com o pai e a mãe, com o filme a não descurar a presença desta jovem personagem, interpretada por uma surpreendente Olga Milshtein. Vale ainda a pena realçar o desempenho de Anna Mouglalis, capaz de atribuir maior dimensão e fazer-nos acreditar em relação aos sentimentos de Claudia, uma personagem feminina relativamente forte, exposta de forma nem sempre positiva, embora esteja longe de ser condenada pelo realizador. Temos ainda Clothilde, a antiga mulher de Louis, também ela a lidar com a dor do abandono e o ciúme de ver o protagonista com outra mulher, algo adensado pelas histórias contadas pela filha sobre o passeio entre ambos. Os laços mais fortes e duradouros parecem ser entre Louis e Charlotte, mas também entre o primeiro e a irmã, enquanto as relações amorosas do protagonista gradualmente se vão desfazendo com o desenrolar do tempo. "La Jalousie" coloca-nos perante estes relacionamentos que nascem e terminam, através de "pequenos grandes" episódios das vidas destes personagens, enquanto Philippe Garrel observa as suas almas (o chamado “voyeurismo da alma”). Os personagens lutam pelo amor ou por alcançá-lo, embora essa tarefa seja aparentemente impossível, enquanto a câmara segue os mesmos e estes vão sendo expostos junto de nós, revelando traços das suas personalidades e inquietações. O título do filme remete para um sentimento comum a quase todos os seres humanos, que causa lastro pelos personagens e ameaça muitas das vezes as suas relações. Não é só deste sentimento que vive "La Jalousie", mas também de amor, ressentimento, dor, amizade, com Philippe Garrel a ser capaz de nos deixar perante um filme belíssimo, onde somos confrontados com as complexidades das relações humanas através desta obra de arte marcada por grande humanismo, onde as palavras podem expor sentimentos mas nem por isso revelam-nos por completo.

Título original: "La jalousie".
Título em Portugal: "Ciúme".
Realizador: Philippe Garrel. 
Argumento: Marc Cholodenko e Caroline Deruas-Garrel. 
Elenco: Louis Garrel, Anna Mouglalis, Emanuela Ponzano, Arthur Igual.

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