04 agosto 2014

Resenha Crítica: "Knock on Any Door" (1949)

 Logo no início de "Knock on Any Door" encontramos Andrew Morton (Humphrey Bogart) e Emma (Allene Roberts) a jogarem xadrez. Nicholas Ray também move os personagens de "Knock on Any Door" como se estivesse a jogar xadrez, movimentando as peças com cuidado, expondo as suas personalidades e histórias com minúcia, enquanto nos deixa perante um competente filme de tribunal mesclado com drama de pendor social. A história começa por nos apresentar a um assalto onde um polícia é assassinado. O acusado é Nick Romano (John Derek), um jovem com um passado conturbado, muito ligado a Morton. É essa ligação que faz Morton defender Nick em tribunal, julgando que o jovem é inocente. Fita cada elemento do júri, avalia cada um, até começar a discursar e apresentar a história de Romano, com o filme a remeter-nos para um longo flashback onde percebemos a chegada do personagem interpretado por John Derek ao mundo do crime. Outrora Morton entregara o caso do pai de Romano, um estrangeiro que matara um elemento em legítima defesa, a um advogado da sua firma que descurara o caso, com o inocente a ser dado como culpado. O pai de Nick morrera na prisão ainda antes que Morton conseguisse reverter a sentença, sendo que a ida do advogado para a Guerra em cumprimento do serviço militar conduz a que este deixe de acompanhar os destinos da família. Nick e a restante família perderam a casa, indo para um bairro degradado, com este a acabar por se envolver no mundo do crime. É enviado para uma "casa de correcção" mas esta apenas serve para este ainda ser mais brutalizado. Conhece uma jovem de enorme delicadeza que o ama e casa com este, mas logo a relação termina de forma trágica com este a estragar tudo, tal como tinha minado a relação de amizade com Morton, após este o ter tentado ajudar. De regresso ao tribunal, após os flashbacks terem dado enorme destaque a Nick Romano e terem dado espaço a John Derek para sobressair como este jovem rebelde muito ao jeito de obras de Nicholas Ray como "Rebel Without a Cause", é a vez de Humphrey Bogart sobressair em tribunal. Bogart destaca-se como Andrew Morton, quer a discursar, quer a viver intensamente e apaixonadamente a defesa de Nick Romano, dando a credibilidade do costume aos elementos que interpreta, enquanto Nicholas Ray desenvolve uma obra que pertence à boa safra que permeia o seu currículo.

Nicholas Ray aproveita a obra para tecer um comentário sobre a sociedade do seu tempo, sobre os bairros sociais, os centros de correcção e a falta de oportunidade para os elementos desfavorecidos, remetendo para obras como "Angels With Dirty Faces", "Dead End", entre outras, onde curiosamente também encontrávamos Humphrey Bogart. Nessas obras Bogart era o gangster, agora é o advogado que serve para Nicholas Ray procurar despertar a consciência do público, exibindo os bairros sociais como locais de exclusão e não de inclusão, as casas de correcção (e até as prisões) como espaços que pouco servem para efectivamente corrigir, enquanto nos apresenta à queda de Nick Romano para o abismo. Este cometeu opções erradas atrás de opções erradas, algumas por culpa própria, outras pelo destino, embrenhando-se para um precipício que promete terminar em desgraça. John Derek é eficaz a explorar as mudanças comportamentais deste personagem ao longo do filme, um jovem que tem como modo de vida "Live fast, die young, and have a good-looking corpse", tendo um momento emocionalmente potente em tribunal, onde Nick é confrontado com os fantasmas do seu passado, algo que o deixa à beira de um ataque de nervos. Nicholas Ray por vezes exagera no melodrama ao longo do filme e no simplismo como aborda as temáticas, mas nem por isso deixa de passar um conjunto de mensagens que ainda continuam assustadoramente actuais nos dias de hoje, sobretudo no que diz respeito à exclusão social. O cineasta coloca o ser humano como um joguete do destino, explorando a capacidade que este tem de fugir ao mesmo ou não. Veja-se o caso de Andrew Morton, que teve um passado semelhante ao de Nick, mas enveredou pela advocacia, escapando ao mundo do crime, tendo na assistente social interpretada por Allen Roberts um interesse amoroso. Morton vive com um sentimento de culpa pelos acontecimentos na vida de Nick, protagonizando alguns momentos intensos de cinema, sobretudo em tribunal, enquanto Humphrey Bogart expõe o seu talento e carisma.

Bogart volta a destacar-se, dando um enorme carisma a este advogado, sobretudo quando este expõe os seus pontos de vista em tribunal. Por vezes fica a ideia que "Knock on Any Door" deixa de lado uma maior problematização sobre as questões do foro social, em particular o trabalho dos centros de recuperação e os bairros (apresentados de forma algo maniqueista), para além de procurar desculpar em demasia um assassinato a um polícia. Percebe-se a ideia de dar dimensão a um criminoso e mostrar que foram as más decisões e vários acontecimentos pouco felizes que contribuíram para o destino trágico de Nick, remetendo para a possibilidade desta situação poder acontecer a qualquer pessoa que entre numa espiral de opções erradas, mas seria coerente existir mais complexidade nesta abordagem. O filme teve como base a obra literária "Knock on Any Door" de Willard Motley, sobressaindo exactamente por uma procura de abordar questões sociais relevantes, dando pelo caminho espaço a John Derek e Humphrey Bogart para sobressaírem como dois personagens cujos destinos encontram-se bastante ligados. O trabalho de fotografia também contribui para incrementar este drama, sobretudo nas cenas de maior intensidade emocional, quer nos cenários exteriores, quer nos cenários interiores (veja-se as cenas no interior do tribunal). O jogo de xadrez surge no filme como uma metáfora exemplar. Num jogo deste cariz, ao mínimo erro, através de uma peça mal colocada, um jogador poderá perder para o outro o encontro, pode ter levado horas a ficar em vantagem, mas uma simples peça poderá deitar tudo a perder. É exactamente o mesmo que acontece na vida, um simples passo poderá alterar a mesma, uma simples curva para a esquerda, quando deveria ser para a direita, e, quando olhamos para trás, o passo já não pode ser recuado, ou se perde ou se ganha o jogo. Para quem ganha, a felicidade é imensa, para quem perde o contrário também é verdade. Nicholas Ray colocou as peças de forma certeira no tabuleiro de xadrez, tendo elaborado um drama bastante competente.

Título original: "Knock on Any Door".
Título em Portugal: "O Crime Não Compensa".
Realizador: Nicholas Ray.
Argumento:  John Monks Jr. e Daniel Taradash.
Elenco: Humphrey Bogart, John Derek, George Macready, Allene Roberts.


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