20 agosto 2014

Resenha Crítica: "Jersey Boys"

 Embora nunca tenha realizado um musical, Clint Eastwood já protagonizou filmes do género, entre os quais, o incompreendido "Paint Your Wagon", onde contava com a companhia de Lee Marvin. Marcante nos seus trabalhos como actor, Clint Eastwood é também um cineasta de prestígio, cujas obras cinematográficas muitas das vezes são associadas a um certo classicismo, exibindo ainda uma elogiável procura em surpreender, tendo em "Jersey Boys" o seu primeiro musical como realizador, um filme onde coloca em prática o seu gosto pela música. Em "Jersey Boys", Eastwood mescla elementos de filmes de gangsters e musical, tendo como base o espectáculo homónimo da Broadway, uma peça que apresenta de forma ficcional a ascensão e posterior desunião dos "The Four Seasons", uma banda formada por Frankie Valli, Bob Gaudio, Tommy DeVito e Nick Massi. Também a representação da banda pode ser associada às quatro estações do ano, embora o enredo se desenrole ao longo de vários anos, com "Jersey Boys" a apresentar-nos à Primavera (formação da banda), Verão (o calor irradiante do sucesso), Outono (o grupo a desfazer-se quais folhas em queda das árvores) e o Inverno (com os momentos finais a deixarem-nos perante os elementos envelhecidos). Clint Eastwood aproveita o facto de estarmos perante a ascensão e desmembramento de uma banda, sempre com maior enfoque em Frankie Valli, para inserir os números musicais de forma relativamente harmoniosa e contida na narrativa (evitando momentos de personagens a cantarem e dançarem de forma abrupta), associando os mesmos em boa parte das vezes aos ensaios e espectáculos do grupo, uma situação que permite incutir uma enorme sobriedade nos mesmos. O vocalista da banda é Frankie Valli, interpretado por John Lloyd Young, um actor que dera vida ao protagonista na peça da Broadway (tendo inclusive recebido um Tony Award, entre outros prémios) e apresenta uma carreira pouco impressionante na Sétima Arte (que inclui "Oy Vey! My Son is Gay!!"), contando com um talento notório para os números musicais (e para evocar o falsetto pelo qual era conhecido Valli), embora raramente nos convença a nível inicial que o seu personagem tem dezasseis anos de idade (o actor tinha trinta e oito anos quando "Jersey Boys" foi filmado). A narrativa começa em 1951, em Belleville, New Jersey, onde Tommy DeVitto (Vincent Piazza, o Lucky Luciano da série "Boardwalk Empire") se apresenta e nos apresenta ao espaço e às suas gentes. Cometem crimes, procuram ascender na vida e sair de New Jersey, com alguns personagens a terem na música um hobbie e uma porta para a fama. Tommy tem uma banda com Nicky, o seu irmão, e Nick Massi, um amigo de ambos, actuando regularmente num bar. O personagem interpretado por Vincent Piazza é um tipo com os seus vinte e poucos anos, falador e confiante, cujas decisões que toma nem sempre são as mais inteligentes ou pelo menos não são tão brilhantes como este pensa, algo que muitas das vezes o coloca em perigo.

O grupo de amigos de Tommy protagoniza alguns golpes num bairro que conta com a forte presença de Gyo (Christopher Walken), um gangster influente que tem uma enorme admiração pela voz de Frankie, um jovem que trabalha na barbearia que frequenta. Tommy acaba por ser preso durante seis meses, após um assalto onde também conta com a ajuda de Frankie (embora este saia só com uma advertência devido a ser menor), um acto que parece banal para este indivíduo que, após sair da prisão, logo procura colocar o personagem interpretado por John Lloyd Young como vocalista do grupo, com este a encantar tudo e todos no bar. É nesse bar que o vocalista conhece Mary Delgado (Renée Marino), uma mulher com forte personalidade, que lhe dá a ideia de trocar o nome artístico de Frankie Vally para Frankie Valli. Os dois acabam por se casar, enquanto a banda, intitulada "The Four Lovers", recebe um novo elemento, Bob Gaudio (Erich Bergen), um talentoso compositor e cantor, apresentado por Joe Pesci (Joey Russo, como uma versão ficcional do conhecido Joe Pesci). Gaudio fica impressionado com a voz de Frankie, protagonizando alguns problemas com Tommy, enquanto expõe a sua personalidade ponderada e visão para o negócio. O grupo passa a ser formado por Frankie, Bob, Tommy e Nick, com os dois primeiros a sobressaírem, sobretudo quando a banda, agora chamada The Four Seasons, começa a fazer sucesso após gravar as primeiras músicas com o extravagante produtor musical Bob Crewe (Mike Doyle). O sucesso não impede os problemas, com Frankie a divorciar-se de Mary e a dar pouca atenção à família, Tommy a efectuar dívidas junto de um agiota e das finanças, entre várias outras divergências que vão conduzir à separação destes elementos, com excepção de Frankie e Bob que passam a lidar com uma nova realidade ao longo deste musical realizado por Clint Eastwood. Com excepção dos trechos finais do filme, onde assistimos a um fulgurante número musical, Clint Eastwood procura ao máximo manter a sobriedade nos momentos musicais de "Jersey Boys", elaborando os mesmos de forma a serem integrados de forma homogénea nos acontecimentos do enredo, por vezes até com algum humor. Veja-se quando integra uma música a partir da célebre cena em que a personagem interpretada por Jan Sterling leva uma bofetada do protagonista interpretado por Kirk Douglas em "Ace in the Hole" ou a auto-referência a Clint Eastwood na série "Rawhide".

Torna-se assim um musical agradável de acompanhar mesmo para quem não é apreciador do género (provavelmente até agradará mais a quem não gosta), embora nem tudo resulte. A decisão de colocar os personagens a dirigirem-se aos espectadores para narrarem alguns episódios do enredo por vezes torna-se algo redundante (veja-se quando Bob salienta a sua admiração pela voz de Frankie quando essa situação fica visível pelos seus actos ao longo do filme), o desenvolvimento da relação de Frankie com a esposa é praticamente nulo, a densidade das personagens femininas é de uma pobreza franciscana (chamar pueril e caricatural à forma como é abordado o alcoolismo de Mary é um excesso de boa vontade, embora exista uma procura de explorar a problemática relação do protagonista com a filha). Por vezes parece ainda que Clint Eastwood deixa-se cair em demasia nas repetições, atribuindo uma estrutura previsível a um filme que pouco ou nada surpreende, embora nem por isso seja uma obra a descartar, com o cineasta a procurar ainda explorar as ligações de boa parte dos protagonistas ao mundo da máfia e as dificuldades que estes encontram a lidar com a fama. Eastwood parece ter tirado muita inspiração das obras de Martin Scorsese (e os seus "Goodfellas" e "Casino"), apresentando-nos a um conjunto de personagens maioritariamente de raízes italianas, a começar por Tommy DeVitto. A par de John Lloyd Young, Vincent Piazza é um dos elementos que mais se destaca no elenco do filme, interpretando com acerto este gangster intempestivo (por vezes a fazer recordar os gangsters interpretados por Joe Pesci) e ambicioso, pronto a cometer alguns crimes e a pensar acima de tudo em si próprio, embora mantenha alguns laços de afinidade com Frankie e seja um dos grandes impulsionadores do grupo. John Lloyd Young consegue convencer-nos sobretudo quando o seu personagem deixa de lado os trejeitos adolescentes (a fazer por vezes recordar o Fez de "That '70s Show") e assume a sua faceta de vocalista, surgindo como um indivíduo com fortes valores morais e apegado ao passado e ao local que o viu nascer e crescer, apesar de descurar imensas vezes a sua família. A relação de Valli com a mulher e as suas filhas é um dos calcanhares de Aquiles do filme, algo que tira algum impacto a um momento decisivo de "Jersey Boys" e deixa Renée Marino demasiado esquecida. Diga-se que as mulheres pouco destaque conseguem alcançar na narrativa que conta ainda com dois personagens secundários de peso, interpretados por Christopher Walken e Erich Bergen. Walken como um gangster com enorme sensibilidade para a música e admiração pelo protagonista, enquanto Bergen convence-nos como este compositor ponderado e talentoso. Vale ainda a pena realçar Michael Lomenda como Nick Massi, o elemento mais apagado da banda, um indivíduo pouco articulado e com uma enorme aversão aos sabonetes dos hotéis, que a espaços consegue sobressair ao longo do filme.

Clint Eastwood coloca-nos ainda perante outros tempos do mundo da música, onde ainda não existia o youtube e as redes sociais para facilitarem a difusão dos trabalhos dos grupos junto dos espectadores. Nesse sentido, pese as repetições, Clint Eastwood consegue explorar essas dificuldades sentidas pelo grupo para chegar ao estrelato e a impreparação para o momento em que atingem a fama, ao mesmo tempo que elabora uma obra cinematográfica de um género nem sempre aproveitado na Sétima Arte, pese a longa tradição de Hollywood em elaborar alguns musicais memoráveis. Se musicais recomendáveis são cada vez mais raros no cinema, também o são cineastas como Clint Eastwood, que mesmo numa obra menor consegue atribuir mais classe à mesma do que muitos cineastas nos seus trabalhos mais conseguidos. "Jersey Boys" nem é bem uma obra menor do cineasta, sendo um filme que até poderá vir a ser reavaliado com o passar do tempo, que tem vindo a ser penalizado mais pelo que se esperava desta película do que realmente por aquilo que esta realmente nos oferece. Não tem números musicais extravagantes, mas nem por isso deixa de aproveitar com acerto alguns dos êxitos dos The Four Seasons, entre os quais, "Big Girls Don't Cry", "Cherry", "My Eyes Adored You", entre outras que povoam a narrativa que teve como base não só o musical da Broadway (que posteriormente esteve em exibição noutros locais), mas também a história verídica do grupo, embora com algumas liberdades à mistura. Vale a pena realçar que Frankie Valli e Bob Gaudio, dois dos elementos representados de forma mais positiva, são produtores executivos do filme, tendo provavelmente alguma palavra a dizer nos episódios representados, embora Eastwood não esconda a ligação dos elementos do grupo, incluindo do protagonista, à máfia. Diga-se que esta situação até proporciona alguns momentos de humor, com Clint Eastwood a lançar muitas das vezes para a baila o nome de Frank Sinatra e as ligações deste à máfia, mas também o de Joe Pesci. Os próprios momentos em que os personagens quebram a quarta parede e se dirigem aos espectadores a comentar ou explicar os acontecimentos evidenciam muitas das vezes essa faceta do filme em não se levar demasiado a sério, embora em momento algum descure a carga dramática que envolve os personagens. Nesse sentido, Clint Eastwood procura incutir substância à formação do grupo musical, exibindo ainda competência a explorar a forma como este reúne elementos com diferentes personalidades e perspectivas distintas em relação ao trabalho (algo que gera bastantes conflitos), sendo ainda de elogiar a procura de recuperar os elementos de uma época ainda não tão distante, mas já com distinções dos dias de hoje. Ficamos assim perante um musical marcado pela sobriedade dos números musicais e pela procura de explorar a história deste grupo de cantores que deixou marca, mas também pelos elementos ligados aos filmes da máfia, com Clint Eastwood a realizar uma película que pode não ser das mais inspiradas da sua carreira, embora nem por isso seja uma obra cinematográfica a descartar.   

Título original: "Jersey Boys".
Título em Portugal: 
Realizador: Clint Eastwood.
Argumento: Marshall Brickman e Rick Elice.
Elenco: John Lloyd Young, Erich Bergen, Michael Lomenda, Vincent Piazza, Christopher Walken.

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