05 agosto 2014

Resenha Crítica: "The Interpreter" (2005)

 Que Sydney Pollack sabe realizar thrillers inquietantes e com conteúdo já nós sabíamos desde obras como "Three Days to Condor", algo que volta a expor em "The Interpreter", um dos filmes mais subvalorizados da primeira década do Século XXI. Não atinge o nível de "Three Days to Condor", é certo, mas consegue apresentar uma história intrigante tendo a sede das Nações Unidas como palco, remetendo para os crimes de Guerra em África, embora nem sempre consiga explorar com eficácia as questões políticas. A protagonista é Silvia Broome (Nicole Kidman), uma intérprete que trabalha nas Nações Unidas que ouve alguém dizer que "o mestre não sairá vivo desta sala". Esta logo é perseguida, acabando por mais tarde revelar a situação às autoridades, que destacam Tobin Keller (Sean Penn) e Dot Woods (Catherine Keener, bastante desaproveitada), dois elementos dos Serviços Secretos, para avaliarem o caso. Tobin não se acredita totalmente em Silvia, embora também não descarte totalmente a revelação da tradutora, enquanto Sydney Pollack consegue manter um mistério latente na figura da personagem interpretada por Nicole Kidman, uma mulher que perdeu os pais e a irmã numa mina quando vivia na República de Maboto. Este é um espaço ficcional que o filme apresenta, servindo quase como uma alegoria para a situação de alguns países africanos liderados por déspotas que outrora lutaram pela liberdade do seu povo. O líder do país, Edmond Zuwanie (Earl Cameron), um indivíduo que vai às Nações Unidas expor a sua versão dos acontecimentos, apresenta semelhanças latentes com Robert Mugabe, embora se quiséssemos estender a crítica a outros líderes africanos que primaram pela liberdade e, com o tempo, estabeleceram estruturas corruptas, provavelmente não ficaríamos só por aqui. Esta parece também ter uma agenda escondida, exposta sobretudo quando encontra Phillipe, um fotógrafo que conhece o irmão de Silvia, mas também um antigo namorado desta, um negro de quem se teve de separar quando o regime de Zuwanie acentuou a sua xenofobia. O filme entronca assim entre a investigação sobre a conspiração cujos autores apenas conhecemos perto do final de "The Interpreter", a relação entre Silvia e Tobin, para além dos segredos desta mulher, com Sydney Pollack a ser bastante eficaz na exploração da dinâmica entre a dupla de protagonistas.

Tobin e Silvia perderam entes queridos, o primeiro mais recentemente, embora se note que ambos vivem amargurados pelas dores do passado. Sean Penn incute no seu personagem um estilo duro, aparentemente confiante, mas com uma sensibilidade para tratar de questões delicadas, apresentando uma dinâmica convincente com Nicole Kidman. A actriz australiana surge segura como esta intérprete misteriosa, dada a ter em atenção os lábios e os dialectos, que vive com as memórias de África na sua alma, surgindo como um dos elementos difíceis de decifrar na sua totalidade. A relação entre estes dois é fundamental para a narrativa, mas também o eficaz trabalho de fotografia e sobretudo a nível de montagem, com esta última a ser essencial para a dinamização do enredo, ao mesmo tempo que somos deixados perante uma série de reviravoltas. Nem sempre todas são credíveis, mas existe uma tentativa de Pollack em criar um thriller político com conteúdo, mais próximos daqueles que eram feitos nos anos 70 do que nos dias de hoje, deixando-nos perante uma investigação complexa onde poucos elementos parecem ser merecedores de confiança. O filme apresenta-nos ainda dois elementos da oposição a Zuwanie, em particular, Kuman-Kuman (George Harris), um elemento que Silvia procura contactar, embora esteja também a ser perseguido pelos conspiradores, com Sydney Pollack a colocar por diversas vezes os seus personagens em perigo, gerando uma enorme tensão em volta dos seus destinos. Sydney Pollack dota ainda a obra de uma elegância notória, visível nos espaços fechados onde muitas das vezes se encontram os personagens (veja-se quando Tobin liga a Silvia e esta está a ver televisão), mas também na exploração do espaço das Nações Unidas. Poderia existir uma maior exploração no papel (utópico) das Nações Unidas como garante de paz e o seu papel na diplomacia internacional, mas Pollack acerta no essencial que passa por apresentar uma investigação credível e interessante, até nos deixar perante um desfecho relativamente satisfatório. "The Interpreter" não reuniu o consenso da crítica aquando da sua estreia, mas provavelmente será uma das muitas obras reavaliadas pela positiva com o passar dos anos, surgindo como um dos bons thrillers da primeira década do Século XXI.

Título original: "The Interpreter". 
Título em Portugal: "A Intérprete". 
Realizador: Sydney Pollack. 
Argumento: Charles Randolph, Scott Frank, Steven Zaillian.
Elenco: Nicole Kidman, Sean Penn, Catherine Keener, Jesper Christensen, Yvan Attal, Earl Cameron.

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