12 agosto 2014

Resenha Crítica: "Indiana Jones and the Temple of Doom" (1984)

 Existe um notório sentido de ritmo em "Indiana Jones and the Temple of Doom", algo que já tinha acontecido no seu antecessor, "Raiders of the Lost Ark", com Steven Spielberg a avançar a narrativa de forma quase frenética, naquele que é o filme mais negro da saga de Indiana Jones, uma situação que reflecte um período mais negativo a nível pessoal das vidas do cineasta e de George Lucas. Apesar de ser o segundo filme da saga, "Indiana Jones and the Temple of Doom" surge como uma prequela de "Raiders of the Lost Ark", tendo em vista a que os Nazis ao serviço de Adolf Hitler não fossem novamente os antagonistas. A estrutura narrativa entre os dois filmes é bastante semelhante, com Spielberg a colocar-nos perante uma espécie de prólogo frenético, onde a personalidade carismática, sarcástica e dura de Indiana Jones é colocada em evidência. Se no primeiro filme Indiana tinha de fugir de uma espécie de gruta peruana, já em "Indiana Jones and the Temple of Doom" temos o protagonista em 1935, em Xangai, a procurar recolher o pagamento de Lao Che, um chefe do crime que o incumbiu de encontrar o Nurhachi, uma relíquia valiosa, embora tarde em lhe dar um diamante que servirá como pagamento do serviço prestado pelo personagem interpretado por Harrison Ford. Indiana Jones invade o clube nocturno deste, um local onde decorrem alguns números musicais espampanantes, que facilmente se transforma num espaço marcado pela violência e muito humor físico, com o protagonista a ser envenenado pelos homens de Lao Che, ficando com a vida em perigo. O protagonista logo procura recuperar o antídoto, utilizando até Willie Scott (Kate Capshaw), a cantora do clube nocturno, como refém, embora Lao Che não se interesse pelo destino desta, com o cenário a transformar-se num local caótico até Indiana e a personagem interpretada por Kate Capshaw saltarem do edifício, conseguindo escapar graças à boleia de Short Round (Jonathan Ke Quan), uma criança que conduz um carro. O trio posteriormente entra num avião que pertence a Lao Che, caindo numa armadilha visto que os pilotos logo saltam fora e deixam os personagens prontos a uma queda que só não tem efeitos mortais devido a uma fuga mirabolante pelo ar que Indiana Jones consegue arquitectar. As leis da gravidade são desafiadas, o nosso lado mais pragmático também, mas Spielberg arquitecta estas cenas com uma energia e vivacidade que facilmente nos convencem. Estes logo acabam por escapar num barco insuflável nos Himalaias, acabando por chegar a Mayapore, uma zona do Norte da Índia marcada pela miséria, cujos habitantes, incluindo o seu líder, pensam que Indiana, Willie e Short Round foram enviados por Shiva para os ajudarem. Estes incumbem o trio de recuperar a Sivalinga, uma pedra que protegia a aldeia, que foi levada pelos elementos que se encontram a liderar o Palácio de Pankot.

 Indiana e companhia ficam a saber que os elementos do Palácio roubaram as crianças do local, com o roubo da pedra a ter ainda supostamente causado outras desgraças naturais. A viagem é marcada pelo trio a ser transportado num elefante, não faltando pelo caminho morcegos de proporções que metem respeito, cobras, algum humor e até pitadas de suspense. No interior do Palácio, Indiana, Willie e Short Round são recebidos por Chattar Lal (Roshan Seth), o Primeiro Ministro do Marajá de Pankot, que os presenteia com uma vasta refeição, onde se encontram ainda presentes vários elementos britânicos que se encontram a avaliar o local pertencente ao Império, para além do Marajá (Raj Singh), um jovem da idade do personagem interpretado por Jonathan Ke Quan. A refeição é marcada por um menu onde não faltam refeições sui generis que vão desde insectos, miolos de macaco gelados servidos na cabeça deste animal, entre muitas outras que conduzem ao desmaio de Willie e ao revirar do estômago do espectador, com Steven Spielberg a exibir de forma paradigmática o lado mais negro deste filme da saga. Posteriormente, Indiana é atacado no seu quarto, enquanto Willie se encontra furiosa por este não ir ter consigo, com "Indiana Jones and the Temple of Doom" a conseguir mesclar com acerto os momentos de tensão com algum humor. O filme volta ainda a repetir o ritmo frenético de "Raiders of the Lost Ark", respeitando a atmosfera dos serials dos anos 30 que Spielberg e Lucas pretendem evocar, uma situação visível quando, logo após o ataque a Indiana, este descobre uma passagem secreta no quarto de Willie, lidando com uma armadilha onde o tecto começa a baixar de forma perigosa, até chegar ao templo de culto a Kali onde são efectuados sacrifícios humanos. Este é um espaço dominado pelas tonalidades vermelhas, com os sacrifícios e o sangue a estarem presentes, enquanto Indiana procura recuperar a pedra preciosa, salvar os elementos que se encontram cativos neste espaço e sobreviver a toda esta mirabolante aventura, contando com a ajuda de Short Round e a estridente Willie. Ficamos perante o mito e a crença, com "Indiana Jones and the Temple of Doom" a não poupar nos elementos místicos e na magia negra, uma situação visível quando o protagonista é possuído. Harrison Ford volta a emprestar o seu carisma a este personagem confiante, quase sempre acompanhado pelo seu chicote e chapéu, utilizando o físico quando necessário. Pelo meio, Indiana desperta a atenção de Willie, uma cantora de um clube nocturno que surge como o típico "peixe fora de água", com Kate Capshaw a explorar o lado mais estridente e pouco preparado para lidar com estas situações da principal personagem feminina. Se Marion Ravenwood em "Raiders of the Lost Ark" conseguia-se impor junto dos homens e era desenvolta, já Willie é uma mulher que se assusta e grita com enorme facilidade, gerando uma relação de amor/ódio com o protagonista, da qual resultam alguns momentos de humor.

 No elenco, vale ainda a pena destacar Jonathan Ke Quan como Short Round, um jovem na casa dos dez anos de idade que surge como um dos braços direitos de Indiana Jones, com quem tem uma relação quase de pai e filho. Este aposta com Indiana Jones às cartas, conduz um carro, envolve-se nas lutas do protagonista, contribuindo para o universo algo irreal que pontua o enredo. Temos fugas de avião com um barco insuflável, personagens agarrados a pontes caídas por cordas frágeis, armadilhas, com o filme a não poupar nos desafios em que o protagonista é colocado. Ora está a procurar receber um diamante em dívida, ora está a procurar sair de um avião em queda, ora está no interior de um esconderijo do palácio, ora está a ser possuído, ora está a fugir com Willie e Short Round num vagão (numa das mais icónicas cenas do filme), com Steven Spielberg a não dar descanso ao protagonista e ao espectador. O filme conta ainda com algum humor, que deriva não só dos diálogos mas também das situações em que os personagens são colocados, embora o tom negro e até alguns elementos de terror e suspense estejam muito presentes. O culto a Kali surge representativo dessa atmosfera negra, tendo inclusivamente gerado alguma polémica, com o filme a ter sido banido da Índia durante algum tempo devido à representação pouco positiva do país e aos vários erros históricos e religiosos (para além de um abusar dos estereótipos). Diga-se que o filme não tem problemas em expor um exotismo algo negativo, uma situação visível na refeição onde não faltam os já referidos miolos de macaco, mas também na representação da religião. Polémicas à parte, "Indiana Jones and the Temple of Doom" procura acima de tudo servir como uma obra de puro escapismo, onde a própria profissão de arqueólogo surge representada com muito mais glamour do que tem na maioria dos casos reais, mas também nas próprias situações rocambolescas em que os personagens são envolvidos. Os antagonistas voltam a ter pouca densidade e complexidade, algo visível na figura de Mola Run (Amrish Puri), o líder do culto a Kali, um elemento ainda menos complexo do que os vilões do primeiro filme. Já os cenários interiores surgem surpreendentes, em particular o local onde é efectuado o culto a Kali, expressando paradigmaticamente a negritude dos actos hediondos que ali se desenrolam. Spielberg consegue dar-nos a noção da enorme dimensão deste espaço, aproveitado para nos deixar perante ainda mais divisórias do cenário, onde não falta a presença de crianças escravas, um caminho de ferro, entre muitos outros elementos. Entre fugas mirabolantes, armadilhas perigosas, descobertas extravagantes, muita pancadaria, acção, humor e suspense em doses bem medidas, "Indiana Jones and the Temple of Doom" pode não atingir o nível do primeiro filme da saga, mas nem por isso deixa de cumprir no seu objectivo primordial: entreter o espectador.

Título original: "Indiana Jones and the Temple of Doom". 
Título em Portugal: "Indiana Jones e o Templo Perdido".
Realizador: Steven Spielberg. 
Argumento: Willard Huyck e Gloria Katz.
Elenco: Harrison Ford, Kate Capshaw, Amrish Puri, Roshan Seth, Philip Stone, Jonathan Ke Quan.

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