14 agosto 2014

Resenha Crítica: "Indiana Jones and the Last Crusade" (1989)

 Com um tom bem mais leve do que "Indiana Jones and the Temple of Doom", o segundo volume da saga cinematográfica de "Indiana Jones", "Indiana Jones and the Last Crusade" surge algum tempo depois dos acontecimentos do primeiro filme, reunindo pela primeira vez Indiana Jones (Harrison Ford) e Henry Jones (Sean Connery), o seu pai. Steven Spielberg e George Lucas não terão ficado muito satisfeitos com o resultado final do segundo filme da franquia, procurando recuperar o tom da primeira obra, algo que não é totalmente conseguido, mas nem por isso não deixamos de estar perante um blockbuster que conta com quase todos os ingredientes que um filme do género deve contar. Não falta aventura, humor, acção, um protagonista carismático, um notório sentido de ritmo e uma história capaz de captar a nossa atenção independentemente de fazer ou não totalmente sentido, com o argumento de Jeffrey Boam a revelar alguma solidez. Steven Spielberg volta a colocar o protagonista de desafio em desafio, a um ritmo acelerado, pronto a praticamente não deixá-lo descansar e manter o espectador preso a esta aventura onde começamos por ficar a conhecer um pouco da história de origem de Indiana Jones. A narrativa começa em 1912, com Indiana Jones a surgir ainda durante a sua adolescência e interpretado por River Phoenix, procurando resgatar uma cruz dourada que um grupo de saqueadores pretende vender no mercado negro. O objecto pertence a Coronado, algo que conduz o protagonista a evitar que o grupo liderado por um indivíduo duro, com um chapéu e vestes semelhante aos que Indiana irá utilizar no futuro, fique com a relíquia, naquele que é um episódio que irá marcar a vida do futuro arqueólogo. O pai ignora o pedido de ajuda de Indiana, bem como o xerife, uma situação que conduz ao objecto a ficar nas mãos do mercenário, após uma mirabolante fuga do personagem interpretado por River Phoenix num comboio do circo, onde utiliza pela primeira vez um chicote, um objecto que irá acompanhar o arqueólogo em idade adulta. O enredo logo avança para 1938, com Indiana Jones (Harrison Ford) a encontrar-se a bordo de um barco na Costa Portuguesa, a procurar recuperar a cruz dourada que outrora fugira das suas mãos. O cenário é de tempestade e os perigos são vários, mas o protagonista finalmente consegue fazer justiça e doar a cruz dourada para o museu administrado por Marcus Brody (Denholm Elliott). Pouco tempo depois de conseguir fugir do amontoado de alunos que pretendem reunir-se consigo na faculdade onde lecciona arqueologia, Indiana Jones é contactado por Walter Donovan (Julian Glover), um coleccionador de antiguidades e investidor no Museu para o qual o protagonista colabora. Donovan exibe a Indiana um artefacto descoberto a norte de Ancara, feito de arenito, com um símbolo cristão e escrituras em latim dos primeiros anos que remetem para o Santo Graal. Segundo a lenda, um dos cavaleiros da Primeira Cruzada disse a um frade que dois sinais indicariam o local onde se encontrava o Graal, com Donovan a acreditar que a pedra é um desses elementos, bem como o túmulo do irmão do cavaleiro. 

O personagem interpretado por Julian Glover salienta que Henry Jones, o líder da investigação, acredita que o túmulo se encontra em Veneza. No entanto, o pai de Indiana Jones desapareceu em Veneza enquanto se encontrava a investigar o local onde se encontra o Santo Graal, uma das obsessões da vida de Henry Jones, algo que atrasa a investigação e preocupa o protagonista. Quando percebe que o pai lhe enviou um diário da demanda do Santa Graal, um objecto que representa o trabalho da vida de Henry e conta com elementos fulcrais para a investigação, fica bastante claro para Indiana Jones que o pai está mesmo em perigo, decidindo viajar até Veneza com Marcus Brody, onde é recebido por Elsa Schneider (Alison Doody), uma austríaca que colaborava com Henry e esconde alguns segredos do protagonista. Em Veneza, Indiana descobre a localização do túmulo do primeiro cruzado num esconderijo subterrâneo onde tem de lidar com um conjunto numeroso de ratos, descobrindo no escudo do cavaleiro o sinal que completa a informação do artefacto exibido por Donovan. Pelo caminho, Indiana e Elsa são atacados por elementos da Irmandade Secreta da Cruz, um grupo secreto que procura proteger a localização do Santo Graal, uma situação que a conduz a incendiar as catacumbas e a colocar a vida da dupla em risco. Indiana Jones e Elsa conseguem escapar, com o primeiro a conseguir que Kazim (Kevork Malikyan), um dos elementos da Irmandade, revele que o seu pai se encontra no Castelo Brunwald, na fronteira entre a Alemanha e a Áustria. O protagonista decide partir com Elsa para este local e enviar o atrapalhado Marcus Brody para Iskenderun, na Turquia, tendo em vista a reunir-se com Sallah (Jonathan Rhys-Davis). Brody fica com o mapa com a possível localização do Graal, acabando por ser raptado pelos elementos Nazis, para os quais colabora Donovan. Indiana Jones também não tem melhor sorte, descobrindo que Elsa se encontra ao serviço dos Nazis, acabando por ver o diário roubado por esta e os elementos do Eixo, algo que desagrada imenso ao seu pai, com quem tem de preparar uma fuga mirabolante. Estes acabam por procurar recuperar o diário antes que este seja queimado por Adolf Hitler, dirigindo-se até Berlim, onde conseguem recuperar o objecto. Na Alemanha, estes procuram escapar de dirigível, fugindo inicialmente ao elevado controlo militar, embora acabem por ser descobertos, tendo de fugir num pequeno avião. Quando estava preso por cordas com Indiana Jones no interior do castelo, Henry queimou a carpete e a restante sala com o isqueiro ao invés de se cingir apenas a queimar as cordas, acabando por voltar a estragar tudo ao atingir acidentalmente a parte traseira do veículo ao invés de disparar certeiramente contra o inimigo, obrigando Indiana a uma aterragem forçada, numa obra que volta a colocar o protagonista perante um conjunto elevado de peripécias de difícil resolução. 

Indiana Jones tem de fugir dos mercenários no cimo e interior do comboio de um jardim Zoológico durante a adolescência, resgatar a cruz dourada num barco durante uma tempestade, embrenhar-se nas catacumbas de uma biblioteca em Veneza, conduzir uma lancha, resgatar o pai, perseguir tanques nazis a cavalo, efectuar combates corpo a corpo, encontrar o Santo Graal, evitar armadilhas várias, conseguindo pelo caminho um indesejável autógrafo de Adolf Hitler, com "Indiana Jones and the Last Crusade" a manter a capacidade da saga em elaborar alguns momentos de humor nos momentos mais inesperados. Veja-se quando Henry consegue despistar um caça alemão com o auxílio de um chapéu de chuva, enxotando as gaivotas contra o veículo (inspirado nos dizeres de Carlos Magno), mas também quando Brody é raptado naquele que parecia ser o esconderijo perfeito, para além da cena em que o personagem interpretado por Sean Connery parece mais preocupado por ter partido um suposto vaso da Dinastia Ming do que em ter aleijado o filho, entre vários outros elementos que evidenciam o sublime balancear entre o humor e a seriedade desta obra. No caso de "Indiana Jones and the Last Crusade", o humor surge também muito presente na relação entre Henry e Indiana Jones, uma dupla com uma relação problemática. Henry sempre pareceu mais preocupado com os estudos arqueológicos e históricos, sobretudo no que diz respeito ao Santo Graal, do que com o filho, uma situação que deixou alguma mágoa em Indiana devido ao pai nunca ver nele uma prioridade. Indiana Jones é um arqueólogo expedito, pronto a disparar falas sardónicas e a seduzir mulheres, estando para a arqueologia como James Bond está para a espionagem. Sean Connery e Harrison Ford funcionam na perfeição quando estão em conjunto, com o primeiro a ter sido uma notória mais-valia na saga. Harrison Ford interpreta de forma vigorosa este arqueólogo capaz das façanhas mais improváveis, apresentando um sentido de ética profissional e uma enorme intrepidez. Connery atribui um carisma e extravagância muito próprias a Henry, um veterano que manteve uma relação bastante afastada com Indiana Jones, embora ambos contem com vários elementos em comum, incluindo o interesse por encontrar o Graal, criando alguns laços de afecto que pareciam perdidos. Henry mantém uma enorme vivacidade, gabando-se inclusive de ter conquistado Elsa, a sua colaboradora, embora esta posteriormente tenha uma relação fugaz com Indiana. Interpretada por Alison Doddy, uma modelo e actriz, Elsa é uma mulher capaz de utilizar a sua beleza para seduzir as figuras masculinas, apresentando alguma atracção por Indiana Jones, embora não esconda em alguns momentos a sua frieza. Doddy cumpre a interpretar esta mulher que tem maior densidade do que a estridente Willie de "Indiana Jones and the Temple of Doom", formando com Indiana Jones uma relação a fazer recordar os envolvimentos de James Bond com algumas das Bond Girls, traindo o protagonista e expondo o seu lado mais negro. Já o antagonista interpretado por Julian Glover pouco sobressai, com a saga a explorar muito mais as peripécias em que se envolve o protagonista do que a personalidade dos antagonistas principais, que na generalidade dos casos surgem como figuras frias e ambiciosas. 

No entanto, existe ainda espaço para elementos como Denholm Eliott e John Rhys-Davis sobressaírem como Marcus Brody e Sallah. Elliott como o elemento atrapalhado e bem intencionado, amigo de Indiana e Henry, enquanto Rhys-Davis sobressai como este bonacheirão com bons contactos que não tem problemas em tentar furtar uns camelos aos alemães após estes destruírem o carro do seu cunhado, ao longo deste divertido filme de aventuras. Apesar dos vários momentos de maior leveza, Steven Spielberg volta a não descurar os elementos de algum terror/suspense, algo visível no interior das catacumbas onde se encontra o túmulo do cavaleiro medieval, com o cineasta a voltar a colocar o protagonista com um conjunto de animais algo repugnantes (não faltando ainda no início do filme o jovem Indiana a adquirir a sua fobia em relação a cobras). Temos ainda vários elementos associados ao misticismo e sobrenatural, associado a esta demanda pelo Santo Graal, visível no último terço do filme, onde volta a existir um magnífico aproveitamento do cenário interior principal, sendo notório todo o cuidado colocado na construção do espaço armadilhado que conduz o protagonista ao Santo Graal. A contribuir para todos estes elementos funcionarem encontra-se a realização mais do que competente de Steven Spielberg, com o cineasta a atribuir um enorme dinamismo ao enredo, algo já anteriormente efectuado nas obras anteriores da saga, colocando os personagens perante peripécias que facilmente se complicam e adquirem novos níveis de dificuldades. As cenas de acção são emotivas, bem coreografadas e intensas, embora muitas das vezes tragam uma sensação de déjà vu devido a remeterem demasiadas vezes para os anteriores filmes da saga, sobretudo para o primeiro, com “Indiana Jones and the Last Crusade” a recuperar um pouco uma certa ingenuidade que existia no primeiro filme, onde não existem grandes mensagens políticas, económicas e sociais a transmitir, mas sim muito material para o espectador se divertir. Spielberg volta ainda a aproveitar o contexto histórico ao serviço do enredo, mas também a banda sonora eficaz de John Williams, contando ainda com o carisma de Harrison Ford como Indiana Jones numa obra que marca o regresso da saga a um lado mais leve, pronto a proporcionar ao espectador quase duas horas de escapismo e de entretenimento de qualidade.

Título original: "Indiana Jones and the Last Crusade".
Título em Portugal: "Indiana Jones e a Grande Cruzada".
Realizador: Steven Spielberg.
Argumento: Jeffrey Boam.
Elenco: Harrison Ford, Denholm Elliott, Alison Doody, John Rhys-Davies, Julian Glover, Sean Connery.

Sem comentários: