18 agosto 2014

Resenha Crítica: "Ilo Ilo"

 Anthony Chen estreia-se na realização de longas-metragens com uma obra simples, terna e delicada, onde a crise pode chegar às finanças dos seus personagens, mas nem por isso a austeridade se acerca dos sentimentos. É uma estreia bastante agradável esta de Anthony Chen, com "Ilo Ilo" a colocar-nos perante o quotidiano de uma família de Singapura, durante a Crise financeira asiática de 1997, algo que se repercute no quotidiano dos seus elementos. Teck (Chen Tianwen) é um vendedor com dificuldades em manter os seus trabalhos, tendo uma experiência pouco agradável a vender vidro temperado. Este é casado com Hwee Leng (Yeo Yann Yann), uma empregada de um escritório que se encontra a reduzir activos. Teck e Hwee são pais de Jiale (Koh Jia Ler), um jovem ainda na escola primária que é constantemente fonte de problema devido à sua indisciplina. Perante as constantes chamadas para o seu local de trabalho e a incapacidade do marido tomar conta da criança, Hwee decide convencer o esposo a contratar uma empregada doméstica, tendo em vista a que esta ajude a cuidar de Jiale e da casa. A escolha recai em Teresa (Angeli Bayani), uma mulher oriunda das Filipinas. Recatada, pouco faladora e respeitadora, Teresa logo é alvo de actos desrespeitosos por parte Jiale, com o petiz a parecer achar pouca piada à ideia de ter uma empregada que o controle. O momento em que este é atropelado quando se encontrava a fugir de Terry (a alcunha de Teresa) surge como um ponto de viragem para a relação entre ambos, com o jovem a passar a depender desta para actos como tomar banho, acabando por formar gradualmente alguns laços de proximidade com a personagem interpretada por Angeli Bayani. Existem alguns momentos de ternura a rodear a relação de ambos, com o jovem Jiale a passar a apreciar bastante a companhia e os cozinhados de Terry, algo que até gera algum ciúme em Hwee. Em certa medida, a proximidade entre estes personagens quase que nos faz recordar o magnífico "A Simple Life", onde o protagonista, interpretado por Andy Lau, procurava cuidar da sua ama e empregada de longa data, uma mulher de idade avançada que sofre um derrame cerebral. Quase que apetece dizer que dariam um díptico onde ficaríamos com a infância do protagonista de "A Simple Life", embora o final de "Ilo Ilo" logo nos desminta possíveis ligações entre estas obras capazes de despertarem vastos sentimentos nos espectadores.

Os sentimentos e os acontecimentos são expostos com enorme graciosidade e sobriedade ao longo de "Ilo Ilo": Descobrimos que Terry tem um filho ainda jovem que ficou com a sua irmã nas Filipinas quando a primeira se encontra numa cabine telefónica, temos um suicídio no primeiro terço do filme que pode remeter para o desespero provocado pela crise, para além de pequenos sinais que evidenciam pormenores sobre os personagens. Veja-se quando Hwee limpa as pontas da tampa da sanita remetendo para o esposo ter pouca preocupação nos cuidados higiénicos, mas também quando Terry reza à mesa evidenciando uma religião distinta da família. A crise é forte presença no quotidiano destes personagens. Hwee vê vários dos seus colegas a serem despedidos, enquanto o seu esposo tarda em conseguir um emprego estável, tendo perdido um valor elevado em acções. A própria presença de uma sala cheia na apresentação de um curso com medidas para sair da crise evidencia essa crença associada ao desespero em sair desta situação financeira complicada, uma boa altura para os burlões se aproveitarem da mesma, com Hwee a cair no conto do vigário quando se inscreve para esta iniciativa, graças ao típico discurso do orador a vender a "banha da cobra" (que aqui no nosso burgo chamam-se discursos "empreendedores"). Estas dificuldades são ainda visíveis no facto de Terry trabalhar ilegalmente como cabeleireira nas horas vagas, tal como outras mulheres, procurando não ser descoberta pelos patrões e pelas autoridades. Quem também inicialmente está em crise é a relação entre Terry e Jiale, embora aos poucos vejamos os dois a formarem uma forte cumplicidade com a primeira a encará-lo quase como um filho. Terry transforma-se gradualmente e silenciosamente num elemento da família, embora a sua presença esteja sempre dependente da capacidade dos seus patrões em lhe pagarem, apesar de parecer relativamente notório que por si não sai tão depressa desta casa. Assiste a discussões entre os elementos do casal, entre os pais e o filho, acabando por vezes por ser envolvida nos turbilhões que envolvem esta família, procurando manter uma postura maioritariamente silenciosa, quase que surgindo como o nosso duplo. Estamos perante uma obra sobre relacionamentos familiares e a crise, sobre um aluno com problemas na escola e uma filipina que se procura integrar num meio distinto (os próprios elementos família também têm de se adaptar à presença desta na casa), onde todos se parecem ter de habituar a novas situações. A família tem de lidar com uma situação financeira cada vez mais instável, enquanto a funcionária se encontra num novo lar, e o jovem tenta comportar-se correctamente na escola apesar de raramente o conseguir cumprir. O quotidiano de Jiale na escola é manifestamente complicado, já que o jovem não tem problemas em agredir colegas, cometer algumas ilegalidades, sendo alvo de alguns castigos dolorosos.

O jovem Koh Jia Ler surge como uma agradável surpresa, interpretando com acerto este jovem rebelde e algo mimado, que procura descobrir os números da lotaria, tendo uma dinâmica bastante convincente com Angeli Bayani, tratando por tia a personagem interpretada por esta. Angeli Bayani é o elemento em maior destaque, com a actriz a atribuir uma enorme graciosidade à sua personagem, uma mulher contida nos seus comportamentos, pouco faladora e cumpridora, que procura melhorar a situação financeira fora do seu país. O elenco é competente, não só devido a Angeli Bayani e Koh Jia Ler, mas também Chen Tianwen e Yeo Yann Yann. Tianwen como o pai de família que tarda em acertar com o emprego e sente a crise de forma pouco agradável. O momento em que o vidro que procura vender se parte pode parecer inicialmente cómico mas logo se revela trágico, com este indivíduo a ceder gradualmente ao vício do tabaco e a perceber que tem de pensar mais nas opções para a sua vida. Yann Yann como a mãe de família que procura manter todos unidos e aguentar o emprego, embora tenha enorme dificuldade em conciliar o seu papel de trabalhadora e progenitora de Jiale, tendo ainda outro filho a caminho. É o quotidiano destes personagens que acompanhamos durante "Ilo Ilo", seja estes a conversarem, a comerem, a trabalharem, a saírem, com Anthony Chen a saber jogar com a aparente simplicidade dos episódios que nos apresenta para abordar temáticas mais latas. Diga-se que parece existir muito de pessoal no enredo do filme e o cineasta salientou isso mesmo no press kit que acompanha "Ilo Ilo": "When I was much younger, my mother hired a Filipino maid to look after the children. Teresa was with us for a long 8 years until I was 12 years old. We called her Auntie Terry. When she left to return home, it was hard to bear, but we got used to her absence and somehow lost contact. The one thing that has stayed with me after all these years is the name of the place she was from, Iloil a province in the Philippines. That is how the title of the film came about (...) Ilo Ilo is inspired by my childhood - through vignettes and moments of the people close to me, particularly their mannerisms and words that have stuck in my head. All this set during a particular period in Singapore". Nesse sentido, acabamos por ficar perante uma realidade mais lata, através de um caso particular, com este hábito das famílias contratarem empregadas domésticas para cuidar dos filhos ser considerado algo comum em Singapura e não como um "luxo".

No caso do filme, o jovem Jiale forma com Terry uma relação próxima de um filho e a sua mãe, com esta mulher a conseguir dar os cuidados que a progenitora e o pai não conseguem dar devido à azáfama laboral. Diga-se que "Ilo Ilo" aborda ainda outros elementos da sociedade e cultura de Singapura, tais como a violência nas punições escolares, existindo uma certa crítica à mesma através da sua exibição. Temos ainda os exemplos das saídas de mulheres das Filipinas para Singapura, algo visto de forma natural ao longo do filme, uma situação latente quando encontramos mais elementos oriundos deste país no cabeleireiro onde trabalha Terry, com Anthony Chen a procurar abordar situações ligadas ao quotidiano do seu país. Em certa medida, "Ilo Ilo" até acaba por remeter para os filmes de Yasujiro Ozu e a sua capacidade de abordar temáticas associadas ao país através de casos particulares das famílias (algo sugerido e bem por Luís Miguel Oliveira na sua recomendável crítica no Ípsilon). De Ozu temos ainda os temas das famílias que se unem e desfazem (se pensarmos na integração de Terry e o seu posterior destino), mas também a presença da roupa estendida e o comboio, quase a parecem uma homenagem não intencional ao mestre japonês. Os elogios a "Ilo Ilo" não se ficam por aqui. A cinematografia assenta bem na sobriedade que rodeia o filme e o desenvolvimento dos relacionamentos, enquanto a câmara acompanha atentamente os personagens e os seus sentimentos. "Ilo Ilo", é muito mais do que "uma rara obra de Singapura que estreia nos nossos cinemas", exibindo-nos o quotidiano de uma família e uma empregada que se torna parte da mesma, mas também uma parte da crise económica que afectou Singapura, deixando-nos perante os céus e territórios deste local, mas também por sentimentos universais em qualquer parte do Mundo, embora sejam apresentados com uma delicadeza e acerto que deixam Anthony Chen como um nome a ter em muita atenção.

Título original: "Ilo Ilo". 
Realizador: Anthony Chen.
Argumento: Anthony Chen.
Elenco: Chen Tianwen, Yeo Yann Yann, Angeli Bayani, Koh Jia Ler.

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