21 agosto 2014

Resenha Crítica: "Guardians of the Galaxy"

     Ainda na semana passada observava eu ao Aníbal que se me tivessem dito, há uns cinco anos atrás, que o Chris Pratt - o adorável, bem-disposto e meio maluco Andy Dwyer de “Parks and Recreation”; o homem que há uns meses no “Conan” nos confidenciou que chegou a vender aspiradores de porta a porta e a passar as tardes a fumar erva numa carrinha manhosa, história da qual nunca duvidámos pois ele próprio tinha ar de quem faria isso mesmo - ia ser uma estrela de um blockbuster de aventuras da Marvel com um orçamento de centenas de milhões de dólares, eu responderia que o mais certo era estarem a tentar enganar-me. Mas entretanto já visionei “The Lego Movie” e neste momento estou escrever uma crítica a “Guardians of the Galaxy” ao mesmo tempo que admiro a sua portentosa banda sonora. E pensando em retrospectiva (o que requere menos inteligência mas que nem sempre parece ser feito com bom critério no estranho mundo da cinefilia), parece-me um percurso que, sem ser previsível, não podia fazer mais sentido. Lembro-me, por exemplo, que a dado ponto de “Parks and Recreation, o argumento começou a ficar mais sério e a sua comicidade passou a depender, essencialmente, do estilo próprio dos seus protagonistas. Entre o talento de Amy Poehler e a unicidade de Aubrey Plaza, e passando pela imponência do bigode de Nick Offerman, Chris Pratt fazia parte dos que mais sobressaíam, enriquecendo um numeroso grupo de chanfrados sem precisar de muito para captar a nossa empatia. Tomávamo-lo por ingénuo, pouco sério, mas ocasionalmente demonstrava uma coragem e lealdade particulares e um engenho que ressurgia nas situações difíceis de solucionar. No presente ano, Pratt protagonizou dois filmes em que desempenhou dois papéis extremamente parecidos, e que já fiz questão de mencionar. Será sobre o segundo, “The Guardians of the Galaxy”, que me proponho divagar.
     Atendendo à forma como pretendo estruturar esta espécie de crítica não valerá a pena debruçar-me longamente sobre a história do filme, pois é igual à de qualquer outra obra de aventuras construída de forma mais tradicional – apresentam-nos gradualmente a um grupo carismático de, inicialmente, anti-heróis, que numa primeira fase estão dispostos a matarem-se ou a capturarem-se, mas que, por via dos obstáculos que vão ser obrigados a ultrapassar em conjunto, vão forjar laços de confiança e de amizade para, por fim, unirem-se para defrontar um vilão temível e unidimensional, com intentos de subjugar o universo. É-nos ainda dado a saber que o vilão é um súbdito de uma criatura assustadora e de nome sonante chamada Thanos, que, por mal aparecer, estará provavelmente reservada para uma futura sequela. O protagonista do grupo de heróis é um tipo bem-disposto com um estilo diferente do habitual (Chris Pratt), um salteador focado nas suas façanhas e na sua sobrevivência, mas que, advindo o momento crucial, provará ser um líder sensível e responsável; uma das suas companheiras é uma mulher de tez verde (Zoe Saldana) mas ainda assim algo atraente (não me julguem), que jurou vingar-se do antagonista por este ter assassinado a sua família, e que calculamos, desde o início, que vai acabar por ser o interesse amoroso de Pratt; e os restantes companheiros são seres estranhos – um guaxinim, uma árvore e um Dave Bautista – leais e temerosos, meio chanfrados também, experientes na arte da pancadaria. A estrutura do enredo não é inovadora, nem o pretende ser. As qualidades de “Guardians of the Galaxy” vão residir ao invés em aspetos como a interação entre os seus personagens principais, o sentido de humor que perpassa por todo o argumento, o ritmo eficaz em que a história se desenrola e a excelente banda sonora da autoria de Tyler Bates.
     Prosseguindo por esta ordem, debruçar-nos-emos sobre as personagens. Já mencionei que Chris Pratt é um tipo carismático e que tem um ar genuinamente simpático. Podia, e devia, ter acrescentado que parte do seu estilo advém da sua excentricidade, e da confiança que ele tem em expressá-la. Só assim consegue parecer natural numa das cenas iniciais do filme em que entra num edifício majestoso e abandonado, num planeta desértico e provavelmente pouco seguro, e coloca uns headphones nos ouvidos para começar a dançar sozinho, e energicamente, ao som da “Come and Get Your Love” dos Redbone. O momento é inusitado, imprevisível, e ao ser cómico, e ao refletir a ingenuidade do protagonista, suscita a nossa empatia pelo mesmo. É também uma das várias menções à cultura norte-americana das décadas de 60 a 80 que são expostas por intermédio de Peter Quill (nome da personagem de Pratt, obrigada a abandonar o Planeta Terra em 1988 por ter sido abduzido por uma nave), as quais não apenas complexificam a sua personalidade, ao mostrá-lo a reverenciar algumas canções icónicas deste período, como também proporcionam alguns momentos ocasionais de humor, através das referências inesperadas a Kevin Bacon, Bonnie and Clyde ou John Stamos. O percurso da personagem em contraste é mais previsível, evidenciando o desejo do realizador e co-argumentista James Gunn em fazer coincidir o rumo da narrativa com o que o espectador, provavelmente, quer ver acontecer. Quill começa assim por ser um anti-herói e aventureiro solitário, orgulhoso das suas proezas com o sexo feminino, ao ponto de a dada altura gracejar que, caso o interior da sua nave fosse iluminado com uma luz negra, assemelhar-se-ia a um quadro de Jackson Pollock. O seu trajecto, impulsionado pelas inescapáveis circunstâncias, irá aproximá-lo de uma figura heróica mais tradicional – surgirá um interesse amoroso que procurará conquistar, a liderança inspirada de um grupo de companheiros e uma tomada de consciência que culminará num confronto final com o maníaco antagonista.
     Entre as restantes figuras que compõem esta colectividade há duas que, de longe, sobressaem, curiosamente as que foram criadas através do recurso à tecnologia CGI, e cujo relacionamento nos faz lembrar o da dupla de Han Solo e Chewbacca em “Guerra das Estrelas”: por um lado uma pequena criatura com cerca de um metro de altura semelhante a um guaxinim (Rocket) que anda como um humano, fala como um humano e dispara metralhadoras como um humano, que graças à sua imprevisibilidade e ao seu humor mordaz, proferido com muito talento por um irreconhecível Bradley Cooper, desempenha eficazmente o seu papel de alívio cómico; e por outro lado uma espécie de árvore (Groot) capaz de oscilar entre momentos de violência e olhares à gato das botas, e que possui um vocabulário muitíssimo reduzido. O grupo completa-se com as personagens de Zoe Saldana, que cumpre com aptidão o papel (não muito exigente) que lhe foi entregue, e com a do wrestler, ocasionalmente actor de cinema ou de home vídeo, Dave Bautista, que concede ao seu inexpressivo Drax um estilo um bocado estranho, com alguma competência. A miríade de figuras secundárias que compõe o resto do elenco também tem dificuldades em sobressair, acima de tudo devido à falta de protagonismo que lhe é concedida pelo argumento, realçando-se apesar de tudo o desempenho de Michael Rooker, um actor constantemente subvalorizado (em parte por causa dos filmes em que faz questão de entrar), que tal como fizera em “The Walking Dead” interpreta uma personagem dúbia centrada no seu proveito próprio que, graças aos seu estilo e aos seus laivos de boa disposição, consegue suscitar alguma empatia por parte do espectador. Glenn Close, John C. Reilly e Karen Gillian desempenham papéis de pouca relevância, e, tal como Vin Diesel, cujo contributo se limita a dizer «I am Groot» várias vezes durante a narrativa, e à semelhança de Benicio del Toro, que interpreta um “Coleccionador” com alguns toques de Liberace, parecem ter sido contratados para facilitar a promoção do filme.
     O enredo em que se inserem estas figuras é enriquecido pelo eficaz sentido de humor que se vai notando em grande parte do argumento, coadunando-se, e contribuindo, para a criação de um ambiente despreocupado, sério mas cómico, em torno do filme. Humor manifestado principalmente na inclusão de situações inusitadas no meio de momentos de maior tensão, o que, como se sabe, (pelo menos assim o disse o John Cleese dos Monty Python, num documentário), tem o efeito de exacerbar os efeitos dos momentos humorísticos, por libertar o espectador da pressão que este até então acumulara. É disso exemplo uma cena em que os protagonistas se encontram enclausurados numa cabine de pequenas proporções, no meio de uma prisão caótica, com segundos para encetar um plano de fuga e em vias de serem rodeados por uma multidão de guardas, e Rocket revela que a personagem de Dave Bautista, à semelhança dos restantes membros da sua raça, não compreende metáforas: «Metaphors go over his head.» Ofendido, meio confuso, Drax responde que: «NOTHING goes over my head!... My reflexes are too fast, I would catch it.» - aligeira-se assim o momento e, ao mesmo tempo, cria-se empatia entre a audiência e as personagens. E sendo verdade que ao longo do filme a personagem vai empregar algumas metáforas no seu discurso, estas passam despercebidas e o gag acaba mesmo por resultar.
     Guarnecidos de algumas personagens fortes e de um sentido de humor sabiamente elaborado, foi intenção de James Gunn e de Nicole Perlman (a outra co-argumentista) estruturarem a narrativa de uma forma pouco inventiva, semelhante à de outros e numerosos blockbusters de aventuras focados num ou mais protagonistas heroicos que partilham com o espectador a intenção de salvar o universo (ou uma galáxia, um planeta, uma cidade, etc.). O confronto final com o antagonista não surpreende nem pretende surpreender ninguém; as reviravoltas até esse momento dramático são uma constante; uma dessas reviravoltas envolve um duelo de pancadaria entre duas personagens, antecipável desde os momentos iniciais do filme; uma destas personagens inicia um caso amoroso com o protagonista que, mais do que esperado, era inevitável; temos ainda uma relíquia misteriosa e cheia de poderes que, ao cair nas mãos erradas, que são as do antagonista, certamente provocará o caos e a destruição. Gunn e Perlman obedecem a esta estrutura, mas fazem-no com competência. Construíram as personagens de forma gradual ao irem evidenciando a dissemelhança das suas personalidades, ao irem revelando ocasionalmente algumas recordações do seu passado conturbado, ao indo fazê-las interagir entre si muitas vezes com uma química notável, e o seu percurso na narrativa é previsível mas faz sentido. Elaboraram ainda cenas de acção que não têm efeitos especiais admiráveis mas que conseguem ser frenéticas, emotivas porque nos preocupamos com os protagonistas, complementadas com momentos cómicos que, dada a sua regularidade, não são distractivos nem inadequados. Acompanham-nas muitas vezes a imponente banda sonora da autoria de Tyler Bates, composta por alguns trechos verdadeiramente épicos, exacerbadores da emoção experienciada pela audiência. As cenas de acção são por norma intercaladas com situações de maior acalmia, nas quais se dá relevo à interação das personagens, que, por norma, também entretêm.
     Parece-me claro que “Guardians of the Galaxy” não está livre de nos fazer lamentar por alguns aspetos menos bem conseguidos, relacionados acima de tudo com o aproveitamento de uma estrutura e de alguns lugares comuns que já vimos serem usados em muitos outros blockbusters de ação. É também um caso paradigmático de uma mentalidade evidenciada pelos estúdios da Marvel nos últimos anos, ciente de que a melhor maneira de agradar os espectadores passa por dar-lhes exactamente aquilo que eles querem ver. Uma forma de pensar que encerra em si algumas desvantagens, mas que, neste caso, contém uma qualidade inescapável: ao esforçar-se por manter a audiência apaziguada, o estúdio optou por escolher um cineasta que, mesmo sem dar à partida garantias de sucesso, tendo-se evidenciado "apenas" como argumentista e realizador assistente em "Tromeo and Juliet" e, uma década depois, como criador da webseries “James Gunn’s PG Porn”, mostrou ser adequado para a concretização deste projecto. James Gunn pode não se ter esforçado em arriscar em alguns dos aspectos do seu filme, pode não ter conseguido evitar a concessão de uma narrativa em certas partes previsível ou a presença de algumas personagens unidimensionais, mas proporcionou à sua obra uma identidade própria, algumas cenas memoráveis, dois ou três protagonistas fortes e interessantes, e uma sensação de entretenimento, e divertimento, que perdura por cerca de duas horas, e que nos faz aguardar com expectativa a futura sequela que se avizinha.

Ficha técnica:

Título original: "Guardians of the Galaxy"
Título em Portugal: "Guardiões da Galáxia"
Realização: James Gunn
Argumento: James Gunn e Nicole Perlman
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Dave Bautista, Lee Pace, Michael Rooker, entre outros.

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