25 agosto 2014

Resenha Crítica: "Garden State" (2004)

 Todos nós tivemos fases mais complicadas das nossas vidas para as quais parecia difícil encontrar uma solução para ultrapassar as mesmas. Andrew Largeman (Zach Braff), o protagonista de "Garden State", passou grande parte da sua vida a lidar com a dor provocada por um acidente ocorrido no passado que conduziu a que a sua mãe ficasse paraplégica, tendo-se afastado da família desde muito cedo. Medica-se com lítio e uma série de calmantes que o entorpecem e deixam num estado de letargia complicado de sair. Quando o pai lhe telefona a avisar da morte da mãe, devido a afogamento, este sai de Los Angeles e regressa temporariamente a New Jersey, onde espera ficar pouco tempo. As memórias do passado não são as mais positivas e não ajuda o facto deste procurar evitar a todo custo conversar com o pai (Ian Holm). O progenitor outrora receitara-lhe os medicamentos que ainda hoje utiliza, tendo deixado de tomar a medicação devido a não ter levado a mesma para New Jersey, decidindo temporariamente ver como se comporta sem os efeitos dos comprimidos. No funeral, Andrew reencontra Mark (Peter Sarsgaard) e Dave (Alex Burns), dois antigos amigos de infância, que o convidam para ir a uma festa na casa de Jesse (Armando Riesco), um indivíduo que enriqueceu ao vender a patente de velcro silencioso. Na festa, estes bebem, consomem drogas, divertem-se, até Andrew acordar de manhã e ter de ir a um médico (Ron Leibman) para falar sobre as dores de cabeça que sente e a decisão de abandonar a medicação. No consultório conhece Samantha (Natalie Portman), uma jovem problemática, em tratamento psicológica devido a ser uma mentirosa compulsiva. Frágil e aparentemente algo cândida, Samantha gradualmente começa a formar uma forte amizade com Andrew, com estes a partilharem confidências e ajudarem-se mutuamente a superarem alguns dos seus vários problemas. Andrew é um actor, conhecido por interpretar um indivíduo com deficiência, embora a sua carreira pareça estar numa fase pouco brilhante, tal como a sua vida pessoal. Temos ainda a presença de Mark, um indivíduo cujo trabalho de coveiro pouco prazer lhe parece dar, partilhando alguns momentos de amizade com o protagonista, e Samantha, com o trio a protagonizar uma curta mas relevante e esclarecedora jornada. Andrew, Samantha e Mark deparam-se com a chegada da vida adulta e a noção de que muito está por fazer e aparentemente não conseguiram cumprir nem metade daquilo que pretendiam para a vida. O protagonista ainda procurou desfazer os laços com o passado, mas gradualmente começa a reconectar-se com o local que o viu nascer, reaprendendo a sentir e a viver sem calmantes. Samantha procura deixar de mentir, tendo, tal como Andrew, uma família algo peculiar com quem por vezes apresenta algumas dificuldades de relacionamento (apesar da sua mãe ser uma pessoa simpática e prestável).

 As relações familiares destes personagens estão longe de serem perfeitas, tal como as suas vidas estão longe de se encontrarem numa fase positiva. Andrew dependeu durante muito tempo de calmantes, perdeu a mãe, encontra-se ainda com sentimento de culpa em relação ao passado e depara-se com alguma instabilidade profissional. É um elemento solitário, tal como Samantha, tendo ainda de mais tarde ou mais cedo reunir-se com o pai e confrontá-lo e ao passado, ao longo de uma obra onde Zach Braff tem uma estreia muito positiva na realização de longas-metragens. A história é relativamente simples, mas dotada de enorme humanidade e capacidade de nos fazer rever em alguns dos seus episódios e personagens, tendo sido baseada em alguns elementos da vida pessoal de Zach Braff, notando-se que este tenta dar um toque pessoal à obra. A própria banda sonora é reveladora deste cuidado colocado por Braff, com cada música a parecer ter sido escolhida para simbolizar determinados momentos da narrativa, existindo toda uma primorosa escolha de canções que vão desde "Don't Panic" dos Coldplay, passando por "Caring is Creepy" e "New Slang" dos The Shins, bem como "Fair" dos Remy Zero, e até "The Only Living Boy in New York" de Simon e Garfunkel. Temos ainda a delicadeza na abordagem do romance entre Samantha e Andrew, com Natalie Portman e Zach Braff a apresentarem uma química bastante convincente. Braff a interpretar este personagem a procurar sair do estado de entorpecimento em que se encontrava. Portman como uma jovem que tenta aprender a ser ela própria sem ter de mentir, uma mulher que traz alguma cor à vida do protagonista (o próprio guarda-roupa desta assim o indica). Ambos lidam à sua maneira com os problemas mas parecem mais fortes quando contam com companhia, com o elenco a comportar ainda um conjunto elementos secundários de relevo, tais como Peter Sarsgaard, Ian Holm e até Jim Parsons (num pequeno mas hilariante papel como um indivíduo que trabalha num restaurante onde é obrigado a utilizar armadura de cavaleiro). Tudo parece simples, mas recheado de enorme sentimento, onde um jovem adulto procura acordar do entorpecimento em que se encontra e tomar atitudes para sair deste estado de letargia que o consumiu durante grande parte da sua vida. Procura agir e viver intensamente nos supostos últimos quatro dias em New Jersey, formando amizades, reavivando outras, experimentando sentimentos até então adormecidos, enquanto somos conquistados para o interior de uma história que em certa medida tanto nos diz. Os personagens passam por dificuldades, procurando gradualmente ultrapassar as mesmas e reencontrarem-se consigo próprios e encontrarem a felicidade, uma tarefa nem sempre fácil mas exibida com grande humanismo por Zach Braff. Este realiza, protagoniza e escreve o argumento de "Garden State", uma obra que resulta numa das vitórias do cinema independente (com todas as limitações que este termo concentra) dos EUA e do Festival de Sundance, que facilmente nos conquista pela sua simplicidade, humanidade e sentimento, transportando-nos para o interior de uma história na qual facilmente nos podemos rever.

Título original: "Garden State". 
Realizador: Zach Braff.
Argumento: Zach Braff.
Elenco: Zach Braff, Ian Holm, Method Man, Natalie Portman, Peter Sarsgaard.

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