19 agosto 2014

Resenha Crítica: "The Expendables 3"

 Dei por mim a meio de "The Expendables 3" a olhar para o ecrã e a pensar: estão ali o Indiana Jones, o Rocky/Rambo/Cobra, Martin Riggs/William Wallace, Blade, Zorro/Gato das Botas, Ivan Drago/He-Man, Frasier Crane, T-800/Conan, e por aí fora. Desde o início que a saga "The Expendables" tem centrado as suas forças em jogar com a nostalgia dos fãs de filmes de acção da década de 80/90 e reunir várias estrelas destas obras, algo que volta a acontecer em "The Expendables 3", embora estejamos perante a película menos conseguida da franquia, em parte devido a uma excessiva procura de "injectar" sangue novo na mesma e um argumento pouco elaborado. Muito do que funcionou nos outros filmes da saga resultou mais devido ao conhecimento pré-estabelecido que tínhamos dos actores que integravam o elenco e os personagens que outrora interpretavam, do que propriamente pelo desenvolvimento a nível dos personagens (veja-se o entusiasmo por ver Sylvester Stallone e Jean-Claude Van Damme "à pancada" em "The Expendables 2"). Em "The Expendables 3" assistimos a uma procura de reunir elementos como Victor Ortiz, Ronda Rousey, Glen Powell e Kellan Lutz para introduzir sangue novo na franquia, mas estes apenas servem para expor as debilidades do argumento e a incapacidade que estes "actores" e "actriz" têm para a representação. Estes surgem no enredo depois da equipa de Mercenários liderada por Barney Ross (Sylvester Stallone) ter falhado em capturar um perigoso traficante de armas nucleares que posteriormente descobriram ser Conrad Stonebanks (Mel Gibson), um fundador dos "The Expendables" que traiu os restantes elementos. Barney pensava ter eliminado Conrad no passado, mas este logo passa à acção na Somália, com os seus homens a ferirem gravemente Hale Caesar (Terry Crews). Na equipa encontra-se ainda Gunner (Dolph Lundgren), Toll Road (Randy Couture), Lee Christmas (Jason Statham) e Doctor Death (Wesley Snipes), com este último a ter sido resgatado numa espécie de prólogo. Snipes é uma das novas adições da saga, interpretando um dos elementos da equipa inicial dos Mercenários, que se encontrava preso há largos anos devido a ter falhado numa missão. Perante a derrota, Barney é aconselhado por Trench Mauser (Arnold Schwarzenegger) a abandonar, mas o líder da equipa prefere reformular a mesma e voltar a enfrentar Stonebanks, deixando de lado os antigos companheiros, decidindo recrutar novos elementos com a ajuda de Bonaparte (Kelsey Grammer), um antigo membro da equipa.

As cenas dos recrutamentos parecem "momentos powerpoint" onde somos apresentados de forma rápida e genérica às características dos vários recrutas, embora quem mais sobressaia é um elemento que se infiltra no "casting", Galgo (Antonio Banderas), um mercenário abandonado pela sua antiga equipa, que fala pelos cotovelos e parece uma versão humana da personalidade do Gato das Botas de "Shrek". No entanto, Galgo só entra na equipa posteriormente, cabendo primeiro a John Smilee (Kellan Lutz), Luna (Ronda Rousey), Thorn (Glen Powell), Mars (Victor Ortiz) surgirem como elementos do grupo liderado por Barney. O crescimento destes personagens na narrativa é muito pouco, acabando quase por servirem "apenas" para perder tempo e exibir a previsibilidade de todo o enredo, com Barney a falhar na missão em Bucareste. Os novos recrutas são capturados por Stonebanks, cabendo a Barney recuperar os elementos da sua equipa, indo ter a ajuda dos vários Mercenários veteranos, mas também de Max Drummer (Harrison Ford como um elemento da CIA que incumbiu o protagonista de capturar Stonebanks com vida), Galgo, Mauser e Yin Yang (Jet Li). O que se segue é mais do que esperado, com Patrick Hughes a não poupar na acção e elementos que desafiam qualquer lógica, enquanto aguardamos pelo esperado confronto entre Martin Riggs e Rocky Balboa, digo... Stonebanks e Barney. Patrick Hughes estreia-se na realização de filmes da saga e exibe-se como um tarefeiro sem ideias que raramente sabe gerir os ritmo da narrativa, com as cerca de duas horas de "The Expendables 3" a raramente parecem necessárias, perdendo-se imenso em momentos redundantes (veja-se a quantidade de tempo que se perde na apresentação dos novos recrutas) que nada acrescentam e "esquecendo-se" de questões relevantes como o desenvolvimento dos personagens. O argumento não ajuda, embora contenha algumas pitadas de bom humor que incrementam e muito o enredo, aproveitando a camaradagem entre os elementos da equipa de mercenários e os actores que dão vida aos mesmos (o momento em que o personagem interpretado por Wesley Snipes diz que foi preso devido a evasão fiscal, numa referência ao próprio actor, é hilariante). Mesmo a introdução dos novos elementos está longe de impressionar, com os debutantes da equipa a não conterem dimensão ou personalidades suficientemente interessantes para nos interessarmos pelos mesmos, algo que não acontece com a equipa de veteranos. "The Expendables 3" não perde muito tempo a reapresentar os vários personagens presentes nos filmes anteriores, embora faça questão de reforçar o forte sentido ético de Barney, valendo-se sobretudo da boa dinâmica entre os elementos veteranos para esconder as inconsistências que rodeiam a obra.

Antonio Banderas integrou-se bem no elenco, surgindo como um personagem que fala pelos cotovelos, pronto a fazer rir o espectador e irritar os companheiros. Já Sylvester Stallone interpreta o típico líder que, apesar de cometer alguns erros, é moralmente inatacável, pese ser um mercenário. Entre as novas adições ao elenco vale ainda a pena realçar o proscrito Mel Gibson, um actor carismático e de grande talento, que se encontra queimado no mercado, em parte por ter dito merda injustificável, ainda que bêbado, de forma escusada, como se fosse o único elemento de Hollywood a cometer erros. Com um argumento pueril, Mel Gibson cria um antagonista megalómano capaz de sobressair, exibindo-se como o elemento com mais talento deste elenco. Temos ainda a presença de nomes como Kelsey Grammer, Harrison Ford e Arnold Schwarzenegger a aparecerem para o cheque e poderem desfrutar de umas férias remuneradas a beber uns copos com os amigos. No fundo, "The Expendables 3" surge como um filme que nada acrescenta ao género no qual se integra, dotado de algumas cenas de acção que estão longe de impressionar, marcadas por muitos tiroteios e explosões (com pouco sangue para não comprometer a classificação PG13), algumas reviravoltas mais do que esperadas e pancadaria, que se alicerça no carisma e no factor nostalgia inerentes a várias das estrelas presentes no elenco para despertar a atenção do espectador. Nesse sentido, para quem é admirador do género é particularmente entusiasmante ver Sylvester Stallone e Mel Gibson numa luta corpo a corpo, ainda que estes estejam longe do seu auge e o momento dure pouco. Diga-se que os personagens têm consciência da idade, embora nem isso os impeça de cometerem proezas aparentemente impossíveis. Sempre foi assim ao longo da carreira de actores como Stallone, Statham, Schwarzenegger e afins, e não é diferente agora. Seria de estranhar se fosse diferente, daí o estranhar da nova equipa de Mercenários, quase como se Patrick Hughes e Sylvester Stallone nos estivessem a dizer que as futuras estrelas de acção não conseguem ter o mesmo carisma dos veteranos (algo que permite esconder várias lacunas a nível de interpretação). Com uma banda sonora por vezes a sobrepor-se às imagens em movimento, um argumento frágil, uma história previsível, um elenco veterano recheado de carisma e muita acção, "The Expendables 3" surge como o capítulo menos conseguido da saga, mas nem por isso consigo dizer que me aborreceu minimamente, bem pelo contrário. Não satisfaz totalmente os fãs de filmes de acção, mas nem por isso deixa de ser uma boa entrada para uma sessão de Domingo à tarde, onde por vezes os momentos de escapismo ganham em relação a tudo o resto.

Título original: "The Expendables 3".
Título em Portugal: "Os Mercenários 3"
Realizador:  Patrick Hughes.
Argumento: Creighton Rothenberger, Katrin Benedikt, Sylvester Stallone.
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Antonio Banderas, Jet Li, Wesley Snipes, Dolph Lundgren, Kelsey Grammer, Randy Couture, Terry Crews, Kellan Lutz, Ronda Rousey, Glen Powell, Victor Ortiz, Robert Davi, Mel Gibson, Harrison Ford, Arnold Schwarzenegger.

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